Uma teia de ligações ao fascismo internacional

Esta é a continuação do artigo “O Chega é um Partido Fascista”, publicado no dia 19 de setembro e “Um partido dirigido por fascistas e para fascistas”, publicado no dia 22 de setembro.

O Partido Identidade e Democracia (I&D), o grupo de deputados fascistas no Parlamento Europeu, anunciou recentemente a adesão do Chega. O grupo parlamentar é constituído por partidos com origem no fascismo do século XX ou que, no seu desenvolvimento como partidos ultra-conservadores, se aliaram a sectores fascistas. Os dois mais representativos do primeiro caso são a União Nacional (RN, ex-Frente Nacional) de Marine Le Pen e o Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ) enquanto no segundo caso se encontram a Alternativa para a Alemanha (AfD) e a Liga de Mateo Salvini. 

A Frente Nacional/União Nacional tem um passado sólido de ligação ao fascismo francês. O seu fundador, Jean-Marie Le Pen, começou a sua vida política num grupo monárquico que se ocupava a atacar comunistas nas ruas. A sua participação na guerra colonial francesa na Argélia foi marcada pelas actividades como torturador de combatentes pela independência. A sua luta política passou pelo branqueamento do regime de Vichy, pela menorização dos crimes do nazismo e pela promoção do ódio aos imigrantes. A passagem do testemunho para a filha Marine Le Pen, e a posterior zanga entre pai e filha que levou à expulsão do pai do partido, mudou a imagem, mas não alterou os fundamentos políticos da organização. Marine Le Pen aboliu o discurso anti-semita da FN (uma opção relativamente fácil uma vez que, em consequência do Holocausto, a presença judaica na Europa é muito pequena) para se concentrar no ódio anti-muçulmano. Já a presença de fascistas e nazis nos escalões dirigentes do partido continua firme como sempre. Um exemplo é Frédéric Chatillon, um dos principais conselheiros de Marine, um velho amigo pessoal e homem forte das finanças do partido, um nazi militante que já promoveu celebrações do aniversário de Hitler e organiza bailes de máscaras para os seus amigos milionários em que os convivas se vestem como prisioneiro dos campos de concentração nazis. Para além de nazi encartado, Chatillon tem o seu nome ligado a escândalos financeiros como os Panama Papers.

Mas há também o FPÖ da Áustria, um partido fundado no pós-guerra por nazis e que teve como primeiro dirigente Anton Reinthaller, um ex-agente das SS. O FPÖ tem sido até hoje o porto de abrigo dos nazis austríacos, mas passou recentemente por uma crise aguda com origem num escândalo de corrupção. O seu último dirigente, Heinz-Christian Strache, que iniciou a sua militância na juventude neo-nazi, e chegou a ser preso na Alemanha por participar numa parada à Ku Klux Klan (incluindo as tochas, a Resistência Nacional não inventou nada de novo…), foi apanhado a negociar trocas de influências com um oligarca russo, no famoso Ibiza Affair.

A Alternativa para a Alemanha (AfD), um partido fundado por um sector neo-liberal, conservador e anti-europeu, foi pouco a pouco dando espaço a uma ala nazi, e tem actualmente uma liderança bicéfala, com um representante de cada uma das tendências. O representante da tendência nazi é Tino Chrupalla, que tem como papel conquistar uma aura de respeitabilidade à extrema-direita, pois tem um passado político ligado à CDU de Angela Merkel. Chrupalla foi indicado para o posto por Alexander Gauland, conhecido pelas suas tiradas anti-semitas e anti-islâmicas, pela sua admiração pelos feitos dos soldados alemães nas duas guerras mundiais e que chocou a Alemanha com a sua afirmação de que “o nazismo não passou de uma caganita de pássaro em 1000 anos de sucessos da história alemã”. O partido tem sido agitado por lutas internas entre as duas alas. Quando há poucos meses a ala neoliberal conseguiu organizar a expulsão do nazi Andreas Kalbitz, tanto Gauland como Chrupalla se opuseram à decisão. A reciclagem de nazis, que escondem as tatuagens das suásticas sob fatos de bom corte, é uma estratégia determinante na construção de partidos amplos de extrema-direita. Os quadros com provas dadas em organizações extremistas têm de ocupar posições de liderança, pois só eles são capazes de utilizar coerentemente o discurso de banalização dos crimes do nazismo e anestesiar a sociedade para as suas propostas racistas.

A Liga do Norte para a Independência da Padânia, que actualmente usa em público apenas o nome Liga, é um partido racista e ultra-conservador que deu os seus primeiros passos como partido separatista. Nos anos 90 do século XX, a Liga Norte ganhou protagonismo na Europa com a sua proposta de independência das regiões ricas do norte (e criação do estado da Padânia), para não ter de sustentar as regiões pobres do sul do país. A Liga foi adaptando o seu posicionamento e hoje é um partido de expressão nacional com votações expressivas em todo o sul de Itália. Salvini, que comandou essa mudança na Liga, fez do combate à imigração o centro da sua política. Enquanto ministro do Interior, nunca hesitou em utilizar a crueldade contra os refugiados como arma política. 

Mas Salvini parece querer transformar a Liga em algo diferente de um partido meramente racista e conservador. A Liga tem feito coligações eleitorais de direita que incluem os Irmãos da Itália, sucessor político dos fascistas do extinto Movimento Social Italiano. Ainda mais preocupante, são as sucessivas aproximações que tem feito ao CasaPound, um movimento fascista com uma forte presença nas ruas e ligado a inúmeros incidentes de violência contra militantes da esquerda. Nos últimos anos Salvini já visitou a sede do grupo, foi orador em manifestações conjuntas, publicou um livro de entrevistas na editora da organização e já se mostrou em público usando um casaco da organização, imitando o estilo dos arruaceiros fascistas. As suas provocações sobre afundar os barcos que transportam refugiados tem sido um verdadeiro magnete para atrair a extrema-direita. Há já vários anos que o CasaPound propala o seu total acordo com as políticas de Salvini. Este por sua vez, confrontado com o apoio dos fascistas, afirma estar disposto a associar-se “com todas as pessoas de bem, que queiram construir uma Itália diferente e alternativa à da esquerda”.

Há outros partidos fascistas no parlamento como o Vox espanhol (que pertence aos Reformistas e Conservadores Europeus) e com quem Ventura já reuniu para consertar uma estratégia ibérica. Ou o Jobbik da Hungria (que não pertence a nenhum grupo parlamentar), ou, também na Hungria, o Fidesz de Viktor Orbán, que tem dirigido a principal experiência governativa da extrema-direita europeia, demolindo pouco a pouco todas as estruturas democráticas do país e é membro (presentemente suspenso) do Partido Popular Europeu, a par do PSD e do CDS.

É com esta distinta companhia que André Ventura pretende levar Portugal, e a Europa, “rumo a um Mundo Novo” para usar as ternas palavras de saudação que Marine Le Pen dirigiu aos irmãos fascistas do Chega.

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