Caso do Hospital dos Covões: tudo o que não deve acontecer – final da entrevista a António Rodrigues (BE)

Parte 4 de 4

Como vês o processo do fecho das urgências do Hospital dos Covões em Coimbra? Tens alguma coisa a dizer sobre isto?

Tenho. Em poucas palavras direi: 

Todo o processo dos Covões constitui um trágico exemplo de tudo o que não deve acontecer. 

E trágico, porquê? Porque se iniciou em 2011, em obediência às recomendações da Troika de serem feitos centros hospitalares. O que, no fundamental, animava esta recomendação era que com essas fusões hospitalares se poderiam “gerar eficiências”. É neste contexto que foi decidida a fusão dos hospitais de Coimbra sob a capa do MEGA CHUC (Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra); assim se aglutinando os Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), o Centro Hospitalar de Coimbra (CHC) e o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Coimbra (CHPC) que, por sua vez, já agrupavam oito hospitais – os dois hospitais centrais (HUC e Covões), o Hospital Pediátrico, as Maternidades Bissaya Barreto e Daniel de Matos e os Hospitais psiquiátricos de Sobral Cid, do Lorvão e o Centro Psiquiátrico de Recuperação de Arnes).

Já estamos a ver a dimensão megalómana da fusão proposta.

Assim mesmo, partiram para esta aventura insana, na ausência de quaisquer estudos prévios (foi a própria ministra da saúde quem o confirmou), sem objetivos estratégicos claros e transparentes, sem a definição dos modos e dos tempos de execução. O que interessava era a “colonização” a ser protagonizada pelos HUC e secundada por alguns dos “notáveis” da Faculdade de Medicina.

E o que nos foi dado a observar durante todo este processo?

Desde logo, a canibalização dos Covões por parte dos, com a sua consequente destruição e de excelentes serviços que os HUC sempre gostariam de ter tido. Para referir apenas três, cito a Cardiologia, a Pneumologia e o Centro de Estudos e Patologia do Sono, que muito tinham para ensinar. E tudo foi sendo acachapado à socapa, administrativamente, sem qualquer programação conhecida, quantas vezes de surpresa. Gerando, claro, um profundo sentimento de desconsideração e decorrente acentuada desmotivação dos seus profissionais.

Num processo tão penoso quanto arrastado, sempre sem um plano e objetivos explícitos, em termos assistenciais.

E quais as contas deste processo que já se arrasta há dez anos?

Ninguém se sente obrigado a apresentá-las.

A primeira conclusão que se consegue retirar foi, como já disse, a destruição dos Covões.

Ganhos assistenciais ou “de eficiência”, NADA!

A segunda conclusão é que conseguiram saturar, ainda mais, os já em si saturados edifícios sediados no também saturado campus dos HUC. 

E aqui levanta-se ainda outra questão: qual a implantação preconizada para futura maternidade, a construir? 

O velho desígnio mantém-se: no campus dos HUC, pois claro.

Dizem que outra decisão não poderá ser considerada, nomeadamente a sua implantação nos Covões, onde há espaço que sobra.

Pois! Esvaziaram os Covões das suas competências e agora vêm argumentar que não poderá ser aí porque não há os necessários serviços de apoio.

E, portanto, a nova asneira é justificada com a asneira prévia.

Antes de iniciada toda esta cascata de decisões insanas havia, inteligentemente, a zona designada por Coimbra Sul (toda a zona a sul do Mondego), que em termos de saúde era assegurada pelos Covões, e a de Coimbra Norte, pelos HUC. 

Os Covões, para só falar do seu Serviço de Urgência – construído de novo já depois de 2000 (tal como um bloco operatório que em nada fica a dever ao dos HUC) -, ao fazerem a fusão dos dois Hospitais passaram de uma procura média diária de cerca de 150 atendimentos, em 2012 para cerca de 90, em 2019 – as pessoas revelaram, deste modo, não serem insensíveis à desqualificação progressiva induzida nos Covões. 

Tal como com a futura maternidade, hoje uma das razões invocadas pelos decisores para o encerramento da urgência dos Covões é nelas registar-se uma baixa procura, exatamente a decorrente das decisões por eles previamente tomadas.

Temos agora um mega serviço de urgência, nos HUC, que querem “esticar” até ao heliporto (que está a cerca de 80m das atuais instalações), ou seja, estão a apostar em tudo o que é contrário ao bom senso e aos bons princípios da gestão. 

Há uma célebre imagem que ilustra bem esta questão: à pergunta “como comer um elefante” é respondido ”cortando-o aos pedaços”. 

As “holdings”, que não são propriamente um modelo porque nutra particular simpatia, e nomeadamente a SONAE, já perceberam que a um comando central – a própria administração da SONAE -, corresponde um conjunto de linhas, no caso, o Continente, a Worten, etc… que têm os seus próprios comandos, devidamente descentralizados. A holding define as estratégias globais e às firmas dependentes é confiada a gestão operacional do negócio. Não é a administração da SONAE quem define o número de repolhos, chicharros, aspiradores ou capas para telemóveis que distribui por cada loja. Isso é com a gestão desconcentrada e de proximidade do Continente e da Worten.

Ora bem: neste processo da pomposamente designada “empresarialização” da saúde, ao contrário do que fazem as empresas ditas normais, optou-se por uma concentração cega no elefante que, em si mesmo, já estava a rebentar pelas costuras.

Como resultado, perderam-se camas, perdeu-se cultura de serviço e competências (de serviços com excelente tradição de desempenho), perdeu-se o sentido de dividir a urgência por dois espaços com dimensão de escala e menos congestionados. 

E continua a não haver (ou a não serem divulgado) estudos económicos que nos digam que, ao menos em termos financeiros se tenha ganho qualquer coisinha (mesmo com os prejuízos assistenciais já assinalados). E também não existe, naturalmente, nenhum estudo que nos diga o que ganhámos (ou perdemos) em termos de qualidade assistencial ou de resultados assistenciais. 

Este é todo um processo de caprichos para o qual não há uma ponta de sustentação ou fundamento.

Estando ciente que não há que fazer qualquer retroação, ou seja, voltar aos Covões e aos HUC tal e qual como os conhecemos anteriormente, porque o processo em si e o tempo encarregaram-se de nos trazer novas necessidades e realidades, torna-se imperativo não permitir que se equacionem os Covões como um arrumo no pátio de trás dos HUC, mas antes de um HOSPITAL dotados de respostas efetivas para as populações que serve, e não como conjunto de serviços avulsos ou uma “coisa” satélite. 

Sabendo-se que os planos funcionais de um e de outro devem ser estruturados harmónica e coerentemente, sem subalternidades e numa lógica de complementaridade. É assim no Porto, é assim em Lisboa, ambos dotados de centros hospitalares, mas onde continuamos a identificar os hospitais de Santo António, São João, ou Santa Maria e São José. 

A própria Ministra Marta Temido confessou não haver estudos que sustentem a decisão, quando foi questionada pelo Deputado do BE José Manuel Pureza.


Exatamente. E uma decisão com esta dimensão assistencial, social e económica, não pode ser tomada assim, por capricho. Mais: foi uma ambição inicial protagonizada por Fernando Regateiro (ex-Presidente do Conselho de Administração dos CHUC) e por alguns “notáveis” da velha guarda dos HUC, com a anuência do Ministério da Saúde e que, curiosamente, consegue ter a contestação da própria concelhia do Partido Socialista. 

Há algum assunto que queiras acrescentar a este tema que não tenha sido ainda abordado?

Eu diria que estamos no tempo em que, passado o período mais quente da pandemia, que terá certamente ocupado muito tempo da agenda aos poderes centrais, estes deveriam ter sabido promover a reflexão sobre o que se pretende para o SNS à luz da nova Lei de Bases da saúde. Encarregar corpos de peritos que estudassem, estruturassem e propusessem ao governo as linhas mestras de um desejado novo rumo para a governação e estruturação da saúde.  Há muita gente com muitas ideias que no contexto da intervenção cidadã tem apresentado, publicamente, as sua reflexões e propostas. Mas tinha sido o tempo para ocupar não a agenda de quem tem que decidir no pico de uma pandemia, mas de quem fosse oficialmente encarregado de fazer matéria e produzir trabalho para apoiar o Ministério da Saúde a tomar as decisões necessárias uma vez ultrapassado este período crítico – medidas tendentes à definição da necessária “política para as profissões”, para pensar a gestão hospitalar, para o retomar das reformas cuidados primários, dos cuidados de saúde mental, cuidados continuados e paliativos.

E o preceituado na Lei de Bases em termos de descentralização, cooperação intersectorial, literacia em saúde, participação cidadã…

Penso que este foi um tempo perdido, que o Ministério da Saúde se concentrou exclusivamente na pandemia. Foi a própria Ministra Marta Temido quem disse, com graça, que dormia com a pandemia, levantava-se com a pandemia e passava o dia com a pandemia, o que será verdade. Mas há um Serviço Nacional de Saúde que precisa de ser pensado, reestruturado, reformado. Se não tinha o tempo e tranquilidade para o fazer, admito-o, deveria ter revelado capacidade para criar coletivos que fossem pensando e equacionando todas estas questões. 

Considero, agora, premente é que saia a público o Estatuto do SNS, como primeiro passo, e que a Ministra prometeu que acontecerá até ao fim do presente semestre, e que ele traga aportes positivos.

Porque este é o tempo para se ser ousado, aproveitando a boa onda de apoio popular ao SNS, para mobilizar todas as energias e para se “fazer o que ainda não foi feito”.


Muito obrigado por esta entrevista, em meu nome e em nome do Semear o Futuro, que foi de facto espectacular e esclarecedora.

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