Pelo fim dos ataques racistas: Solidariedade com Mamadou Ba

Foi criada uma petição que conta atualmente com cerca de 25.000 assinaturas para a deportação de Mamadou Ba como uma reação direta a palavras do ativista sobre uma figura histórica do colonialismo fascista português, Marcelino Mata no seguimento da apresentação de um voto de pesar a ser votado na Assembleia da República pelo CDS-PP. 
O voto de pesar foi aprovado no dia de ontem e teve votos a favor do PS (maioria dos deputados), PSD, CDS-PP, Chega e Iniciativa Liberal e os votos contra do BE, PCP, Verdes, PAN, da deputada não-inscrita Joacine Katar Moreira e de três deputados do PS (Ascenso Simões, Paulo Pisco e Eduardo Barroco de Melo). Nas abstenções constam a deputada não-inscrita Cristina Rodrigues e os deputados do PS Porfírio Silva, Miguel Matos, Maria Begonha, Cláudia Santos, Joana Sá Pereira, Tiago Barbosa Ribeiro e Bruno Aragão.

Marcelino Mata foi um militar violento que afirmou em vida com naturalidade a frieza com que assassinou mulheres negros, crianças negras e homens negras na guerra colonial levada a cabo em nome do Estado Português luta de libertação da Guiné-Bissau. Portugal é o país que se choca com a condenação de crimes de guerra mas não se choca com a sua condecoração ou com as honras prestadas pela presença do atual presidente da República portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa no funeral de um criminoso.
É crucial demonstrar todo o nosso apoio e solidariedade a Mamadou Ba como pessoa visada por essa petição inconstitucional sobre um cidadão português negro, motivada pela premissa de que não existem portugueses negros. 

É necessário condenar essa ideia-fetiche de que só há portugueses brancos. E é necessário condenar essa visão racista enquanto se avança na luta e exigência de uma lei da nacionalidade com critério de solo, na luta pela extinção e não remodelação do SEF, na luta pela obrigação de Portugal garantir asilo para quem quer que busque refúgio, na luta pela desburocratização do processo dos vistos de trabalho ou nacionalização, na luta pela  necessidade de desinvestimento nas polícias e do sistema prisional que penaliza maioritariamente o corpo negro, racializado e periférico  .

Existe um cuidado humano que tem de existir com o Mamadou Ba e todos os ativistas negros, ciganos e racializados, que são a cara do movimento e são figuras públicas alvos de ataques públicos e privados como é também o caso da deputada Joacine Katar-Moreira e da deputada Beatriz Gomes Dias.

Portugal sempre foi racista, desde o momento em que concebeu o tráfico de pessoas africanas para serem escravizadas em territórios violentamente colonizados, até ao momento em que foi responsável pelo maior número de pessoas negras escravizadas, chegando a 3,894,056 de  1514 – 1866, mas é de ressaltar que o avanço e o crescimento da extrema direita no espaço político e social português – veja-se quem votou a favor -, mas também da sua radicalização e naturalização no espaço público que permitem que uma petição de deportação de um cidadão português seja sequer possível e amplamente distribuída, bem como uma série de outras agressões diárias protagonizadas pelo Estado na figura da polícia em forma de “medida de segurança de territórios sensíveis” .

Consideramos que este ataque, ainda que personalizado contra Mamadou Ba nesta situação, ou contra Joacine Katar Moreira com os ataques e agressões de que é alvo em plena Assembleia da República pela extrema-direita e pela imprensa é um sinal de algo maior. Ataques, em suma, contra duas caras do movimento negro antirracista organizado em Portugal. Esses ataques não só não são isolados como não são só ataques individualizados, são uma reação intencional dessas camadas conservadoras organizadas em conjunto com os seus pares menos higienizados, abertamente fascistas, contra os avanços e conquistas do movimento negro em Portugal e em contexto mundial. Pretende-se atacar o corpo negro e racializado, diminuir e inferiorizar sobre forma de enaltecimento do ideológico nacionalista e patriótico. O bê-a-bá racista em forma de petição.

https://www.statista.com/chart/22057/countries-most-active-trans-atlantic-slave-trade/
https://www.dn.pt/sociedade/marcelo-e-varias-patentes-militares-no-funeral-de-marcelino-da-mata-13354193.html

2 opiniões sobre “Pelo fim dos ataques racistas: Solidariedade com Mamadou Ba

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