Sobre os acontecimentos em Washington

As cenas de ocupação do Capitólio dos Estados Unidos por uma turba fascista irão marcar por muitos anos a política americana e mundial. Não só pelo seu simbolismo, mas pelo profundo significado político desta ação. A única vez que o edifício do capitólio foi vandalizado (na verdade foi totalmente incendiado) foi em 1814, quando os ingleses derrotaram os americanos na Batalha de Bladensburg e conseguiram entrar em Washington. O Capitólio, assim como todos os edifícios mais simbólicos do poder federal americano, são venerados pela burguesia americana (e em grande parte pelo povo). O que aconteceu hoje marca uma aceleração do processo de polarização que tem vindo a marcar os Estados Unidos e a Europa nos últimos anos e as suas ondas de choque vão fazer-se sentir por muito tempo e em muitos lugares.

A tentativa de impedir a confirmação da eleição de Joe Biden pela invasão da sede do poder legislativo do país está perigosamente perto de uma tentativa de golpe de estado. Evidentemente, um putativo golpe de estado nas actuais condições estava à partida condenado ao fracasso. Mas seria inocente pensar que Trump alguma vez acreditou nessa possibilidade. A sua ação política, desde que foi eleito e até ao dia de hoje, foi sempre no sentido de descredibilizar o regime americano e as suas instituições. É um projecto a longo prazo, que pretende abrir o caminho para uma solução autoritária cuja principal vítima será o povo americano. Trump foi apenas o primeiro executor deste projecto. A partir de agora, cada dia de complacência com o trumpismo deixará a América mais próxima do cenário de distopia fascista imaginado por Philip Roth no seu romance “A conspiração contra a América”.

Os acontecimentos de hoje são por isso um alerta geral. A extrema-direita tem de começar a ser encarada como uma ameaça muito real e muito perigosa. Pouco podemos fazer acerca dos acontecimentos dos Estados Unidos, mas podemos contribuir para derrotar este perigo começando a combater de forma determinada o Trump lusitano: André Ventura. A forma como Ventura tem conseguido banalizar o seu discurso de ódio contra negros e ciganos durante esta campanha eleitoral marca uma mudança radical no debate político. É preciso compreender que não se derrota o fascismo e o ódio com discursos racionais mas com mobilização nas ruas contra o ódio, com solidariedade e com determinação em empurrar estas ideias trogloditas de volta para o buraco de onde nunca deviam ter saído.

No próximo domingo, Ventura e Marine Le Pen vão andar a passear por Lisboa. Cabe-nos fazer com que seja esse o primeiro dia do declínio da aventura fascista deste perigoso tiranete.

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