Frente única: a sua história e atualidade

Parte 1

Texto da autoria de Tiago Castelhano e Manuel Afonso

Nos últimos tempos tem surgido o debate nos movimentos sociais e na esquerda sobre a importância da unidade das várias lutas e das organizações e movimentos. Por vezes, as unidades são mais pontuais, outras mais prolongadas e orgânicas.

Na tradição marxista a unidade da classe sempre foi tema de várias discussões políticas. No presente artigo abordaremos a Frente única (FU). O que é, quando e como se deve utilizar esta tática? Tentaremos olhar a História e abordar o conceito de frente única criada e responder a estas questões.

A História da Frente Única

O marxismo conheceu a chamada FU ainda nos debates dos primeiros congressos da III Internacional (Internacional Comunista)[1]. A sua origem está relacionada com a política da chamada “Carta Aberta”, uma iniciativa proposta por Paul Levi, dirigente do Partido Comunista Alemão, em 1921, com o objetivo da sua organização chamar publicamente o Partido Social-Democrata alemão (reformistas) para a luta comum.

“Paul Levi ao verificar a derrota da revolução Alemanha 2 anos antes. Decide escrever a referida carta aberta aos metalúrgicos sociais-democratas na Alemanha, onde coloca as diferenças que tem com os sociais-democratas, referindo, contudo, que no atual momento a defesa da vida dos trabalhadores está acima destas divergências e todas a correntes da classe se devem unir do ataque da burguesia”.[2]

Apesar desta carta ter sido polémica, logo em 1921, aquando do III congresso da III Internacional Comunista (IC) esta passou a ser uma tática dos comunistas. No ano seguinte no IV Congresso da IC, a FU passou a ser uma orientação política geral da organização com a aprovação das “Teses para a unidade da frente proletária”.

A polémica foi grande, Lenine e Trotsky defendiam desde 1921 que a política da FU deveria ser usada com máxima flexibilidade tática. Devido à defesa desta tática, Lenine e Trotsky chegaram a ser apelidados como a “ala direita da Internacional Comunista”. Alimentado por esta polémica (mas não só) Lenine escreveu o livro “Esquerdismo: A Doença Infantil do Comunismo” de forma a combater as correntes esquerdistas.[3]

A política da FU foi também determinante para a ruptura de Trotsky com a III Internacional. No final da década de 20 e inicio da década de 30, os trotskistas, que ainda se propunham a mudar a IIIª Internacional estalinizada, defendiam para a Alemanha uma Frente Única, entre Comunistas e Social-Democratas. Não esquecer que na época o partido Social-Democrata Alemão já havia traído a revolução de 1918, a de 1921 e a de 1923, havia sido responsável pelo assassinato de Rosa Luxemburgo e apoiado a Iª Guerra Mundial. Trotsky defendia que, ainda assim, era preciso unir a classe trabalhadora para travar a ascensão fascista de Hitler. Por isso, lutou ferozmente contra a política denominada do “Terceiro Período” da Internacional Comunista estalinizada. Sob a liderança de Estaline, a IIIª Internacional rejeitava a FU, porque consideravam a social-democracia a “ala esquerda do fascismo” apelidando-os de “social-fascistas”. Esta política ultra-esquerdista teve como consequência a chegada de Hitler ao poder sem resistência dos comunistas. Esta capitulação da IIIª Internacional fez Trotsky decidir-se a romper e apelar à fundação da IVª Internacional.

Já após a ruptura com a IIIª Internacional, os trotskistas, que eram muito pequenos face à IIIª e IIª Internacionais, continuaram a propor em diversas ocasiões a unidade destas sob a forma de Frente Única. Um exemplo foi em França entre 1934 e 35. “Em toda a França, foram formados comités que reivindicavam e às vezes impunham – localmente, pelo menos – a frente única. Os trotskistas eram a vanguarda dessa batalha pela unidade (…)  Este êxito da classe trabalhadora é também, em grande medida, o dos trotskistas, cuja política, desde Fevereiro, é identificada com a luta pela Frente Única”[4]

Qual é a necessidade da FU para a classe trabalhadora?

 Segundo Trotsky, existem dois grandes fatores que explicam a necessidade de aplicação da FU. Um dos fatores é o facto da classe trabalhadora estar dividida por diferentes partidos. Importa lembrar que até 1914, o tema da unificação da classe trabalhadora não se colocava porque, apesar da heterogeneidade da classe, esta estava na sua grande maioria unificada na corrente internacional social-democrata. Posteriormente, com a divisão da II Internacional – devido aos líderes socialistas, com exceção dos russos e dos sérvios, votarem a favor dos créditos militares pedidos pelos respetivos governos burgueses – deu-se a divisão da classe trabalhadora. Apesar desta traição, uma grande parte desta manteve-se fiel à social-democracia. Apesar do impacto que a Revolução Russa de 1917 gerou na consciência de milhões de trabalhadores e no mundo, os partidos comunistas nos diversos países não dirigiam toda a classe e eram, na verdade, minoria da classe trabalhadora. À época, este contexto reforçou a necessidade da tática da FU para conquistar a maioria da classe trabalhadora. As massas necessitavam de ação prática para serem convencidas.

Trotsky explica: “O Partido comunista mostra às massas e às suas organizações a vontade real de entrar na luta com elas, pelo menos nos seus objetivos mais modestos, desde que os seus objetivos se encontrem no caminho do desenvolvimento histórico do proletariado. Nesta luta o partido comunista conta com o estado real da classe operária em cada momento dado, dirige-se não apenas às massas, mas também às organizações cuja direção é reconhecida pelas massas, confronta aos olhos das massas as organizações reformistas com as tarefas reais da luta de classes revelando efetivamente que não é o sectarismo do partido comunista mas a sabotagem consciente da social-democracia que assolapa o trabalho comum, a política da FU acelera o desenvolvimento revolucionário da classe. É evidente que essas ideias não podem envelhecer em nenhum caso.[5]

A necessidade de FU evidencia-se também pela correlação de forças entre as classes na situação política. Por exemplo, em 1917, como a classe trabalhadora se encontrava na ofensiva, apesar de já estar dividida, levou a que esta questão tática não se colocasse de forma tão aguda. 

 A partir de 1920, a III Internacional, bem como Lenine e Trotsky, começaram a assistir a uma estabilização do capitalismo e à ofensiva da burguesia, colocando a classe trabalhadora na defensiva. Estes acontecimentos trouxeram para a ordem do dia a tática da FU, que está dependente das condições objetivas.

Hoje o cenário é distinto dos anos 20. Na maioria dos países a classe trabalhadora encontra-se dividida não entre reformistas e revolucionários mas entre diferentes organizações reformistas. Nesse sentido, a situação dos revolucionários hoje assemelha-se mais à dos trotskistas nos anos 30, como o exemplo já citado da França.


[1] A IIIª Internacional, chamada Internacional Comunista, foi fundada pelo Partido Bolchevique de Lenine e Trotsky em 1918, em oposição à Iiª Internacional. A IIIª Internacional procurava unir os sectores que rompiam com a Iiª Internacional, social-democrata, que havia apoiado a guerra imperialista e que procuravam seguir a estratégia revolucionária que havia triunfado na Rússia em 1917;

[2] https://esquerdaonline.com.br/2018/11/01/notas-sobre-a-importancia-e-a-atualidade-da-frente-unica/

[3] https://blog.esquerdaonline.com/?p=6593&fbclid=IwAR31W52sBy0H1M_duXCraXdXwriiNaba4GQVtgxUusHlbC4jE6ztJ2MTigg

[4] “Cadernos León Trotsky n.9”, escrito por  Jean-Paul Jobert e coordenado por Pierre Broué, retirado de http://www.ceipleontrotsky.org/Trotsky-y-el-Frente-Popular, tradução nossa;

[5] LEON TROTSKY, Considerações Gerais sobre a FU, 1922

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