Raça e reducionismo de classe hoje

Tradução do texto “Race and Class Reductionism Today”, de David I. Backer, por Diogo Trindade, revisão de Manuel Afonso.

Qual é a relação entre raça e classe? E o que as pessoas querem dizer quando falam em “reducionismo de classe”? Questões de organização de estratégias relacionadas a raça e classe dominaram o discurso da Esquerda nos últimos anos. Neste artigo, David I. Backer argumenta que devemos mudar o foco do debate sobre o reducionismo de raça e classe para o papel das relações de produção.

Debates recentes entre socialistas geralmente giram à volta de questões de classe, especificamente do reducionismo de classe. Algumas pessoas chamam a activistas e teóricos “reducionistas de classe” porque concentram-se nas reivindicações universais de “classe” e recusam-se a “confundir a questão” com considerações “divisivas” de raça ou género. Estes supostos reducionistas de classe criticam a defesa de uma coisa e o seu contrário“, posição assumida por “esquerdistas identitários”. Os supostos reducionistas de classe dizem que os socialistas não se deveriam concentrar nas relações de raça e género, mas sim nas relações de “classe”.

Mas o que é um reducionista de classe? Isto depende da sua análise de classe, ou de como pensa sobre as relações de produção que constituem a própria luta de classes.

As relações de produção estão no cerne da teoria Marxista. Uma relação de produção é como as pessoas se relacionam umas com as outras e como se relacionam com coisas não humanas à medida que juntos constroem materialmente as suas vidas.

Tomemos uma quinta, por exemplo. Não conhecemos a economia política dessa quinta, a não ser que conheçamos as relações de produção ali dominantes. As relações capitalistas e exploradoras de produção significariam a propriedade privada da quinta por parte de uma minoria e trabalho assalariado para o resto. As relações comunais ou cooperativas de produção significariam a propriedade da quinta pelos trabalhadores.

Normalmente, os Marxistas querem alterar as relações de produção numa formação social de algo como o primeiro exemplo para algo como o último.

Mas se quisermos mudar uma relação de produção nalguma sociedade em particular, como os Estados Unidos em 2018, precisamos de saber todas as formas como essas relações de produção se mantêm entre as pessoas e os seus ambientes. Para mudar uma relação de produção, temos de saber exactamente o que mantém essa relação de produção consolidada para que se possa derivar a estratégia necessária para fazer as pessoas relacionarem-se materialmente de uma maneira diferente.

Se não estamos a viver debaixo de uma rocha nos Estados Unidos, provavelmente sabemos que a raça tem um grande impacto na sociedade. Raça significa muito para as pessoas por uma série de razões, e muitas dessas razões são razões materiais: que empregos conseguem, quanto dinheiro ganham, quanta riqueza possuem, como se podem sustentar a si mesmos e às suas famílias…

Se quisermos mudar as relações de produção nos Estados Unidos, devemos pensar na raça como uma característica integrante, crucial e de apoio das nossas relações de produção. Tratá-la de outra forma é apenas uma má análise de classe.

Uma posição que não faz isto não poderia ser reducionismo de classe. É por isso que os supostos reducionistas de classe entre nós nem são mesmo reducionistas de classe.

Quando se trata de raça e reducionismo de classe, a questão é se todas as relações sociais são relações de produção.

Uma posição sólida neste caso seria a de que todas as relações numa formação social são relações de produção em algum grau. Os socialistas que trabalharam na ligação entre o movimento trabalhista e os direitos civis, particularmente durante o projeto Freedom Budget for all Americans, assumiram esta posição sólida. A utilização que David Roediger faz do “salário da branquitude” de W.E.B Du Bois ao contar a história do racismo na América é um exemplo disso. Embora possa surpreender alguns, os escritos de Adolph Reed Jr. (que podem diferir dos seus seguidores actuais e até mesmo das suas próprias declarações) têm exemplos desta posição.  Keeanga Yamhatta-Taylor convocou esta forte análise de classe na sua leitura de Marx e Lenin em From #BlackLivesMatter to Black Liberation. As reproducionistas sociais como Tithi Battacharya, Sue Ferguson e David McNally também seguem este caminho no seu conceito de unidade na diferença. Asad Haider apresentou a universalidade insurgente também para este propósito.

Em cada um destes casos, a medida em que a raça tem um determinado efeito sobre o acesso a empregos, salários, riqueza/propriedades, habitação e acesso a serviços é o ponto em que as relações raciais são relações de produção.

Uma posição mais frágil seria que algumas relações, como raça, não são relações de produção.

Os supostos reducionistas de classe assumem esta posição mais frágil. Escreverão, por exemplo, que coisas como raça, género e religião são culturalmente contingentes à auto-reprodução dos trabalhadores e, portanto, não se correlacionam com a produção. Apenas a relação salarial é uma relação de produção porque é “inflexível” e “objectiva” de acordo com Vivek Chibber, que escreve que, “como muitas outras relações têm de depender de um processo contingente de identificação de papéis por parte dos agentes, a classe reduz radicalmente a contingência de acontecer ou não tal identificação.”

Discordo aqui e assumo a posição sólida de que cada uma dessas relações – embora talvez contingentes e mais complexas entre diferentes territórios e formações sociais – são relações de produção na medida em que têm um impacto sobre se/como as pessoas constroem materialmente as suas vidas.

Estes supostos reducionistas de classe aderem a uma espécie de consenso estrito de que há algumas relações sociais que não são relações de produção em nenhum grau. Esta tese mais frágil, que é, em geral, uma análise de classe mais frágil, é uma espécie de tese separatista sobre as relações de produção: que algumas relações sociais, como a raça, devem ser separadas quando se pensa nas relações de produção. A tese unificada é uma análise de classe muito mais sólida.

Veja o exemplo da gentrificação. Adolph Reed Jr.[[1]] , num artigo de Fevereiro no nonsite.org, “Black Politics after 2016”, examina o problema da “representação”:

A norma de representação como a incorporação de categorias de identidade apropriadas oferece aos contratantes privados e sem fins lucrativos um padrão fácil de legitimidade que elimina possíveis diferenças em questões de política e direcções num procedimentalismo liberal vazio (tendo um “lugar à mesa”) e misticismo racialista vitoriano (“reflectindo a perspectiva do X”).

Chama a atenção para a tendência de “incorporar categorias de identidade que foram apropriadas” e as maneiras como a classe dominante pode usa-las contra quem desafia de forma séria o seu poder no terreno da habitação. Então Reed escreve sobre a gentrificação:

“O debate sobre o deslocamento para o redesenvolvimento em escala é um caso em questão. Ao optar por uma linguagem de “gentrificação”, os oponentes do deslocamento, muitas vezes sem a intenção de fazê-lo, obscurecem uma dinâmica simples e directa – apoio público a investidores privados que procuram um redesenvolvimento que aumenta as rendas – com implicações culturais que afastam a crítica da questão de usar a autoridade pública para planear uma redistribuição ascendente e impor dificuldades a residentes relativamente vulneráveis. Em vez disso, a discussão da gentrificação resulta em objecções sobre a exibição de privilégios e a falta de reconhecimento ou respeito que, não obstante a indignação moral que os acompanha, aceitam a lógica de redesenvolvimento intensificador das rendas como certa e exigem que os recém-chegados percebam e honrem as práticas e os hábitos nativos e que a “comunidade” esteja envolvida no processo de melhoramento“.

Continua a dizer que este

“discurso culturalista também abre oportunidades para o mesquinho, e não tão mesquinho, empreendedorismo em nome do respeito ou reconhecimento da comunidade, dentro da lógica da neoliberalização.

Portanto, temos aqui um bom caso de relações de produção: relações de produção habitacional. Também temos uma pergunta sobre o papel da “identidade” na luta contra a classe dominante na sua acumulação através da expropriação via desenvolvimento.

A posição de Reed é que a consideração de práticas culturais, a consciência de exibições de privilégio e a consciência de modos de vida na comunidade existente “resvalam” para a cumplicidade com a classe dominante e “encobrem” uma questão simples e directa. Reed até discorda do termo “gentrificação” como conceito racial, pois, segundo ele, sinaliza este deslizamento e obscurecimento de uma questão mais simples.

Utilizando o esquema no qual estivemos aqui a trabalhar, vamos supor que todas as relações sociais são relações de produção em algum grau. Isto significa que as relações de produção habitacional serão raciais até certo ponto.

Na habitação, a questão na qual Reed nos pede para pensar – e que é útil! – é se o nosso conceito de elite, ou classe dominante, deve ou não ser “racial” tanto quanto “distributivo” (se tivermos embarcado numa distinção entre os dois): se as relações raciais devem ser consideradas como relações de produção no sector habitacional.

É fácil ver que é este o caso, especialmente na própria cidade de Reed, Filadélfia. O Pew Charitable Trust fez um estudo da gentrificação em Filadélfia em 2016. A sua definição é inteiramente baseada em rendimento e património. Descobriram que “os três sectores predominantemente de classe trabalhadora afro-americana que foram gentrificados, todos localizados no bairro conhecido como Graduate Hospital, sofreram as mudanças mais dramáticas na composição racial. A sua população negra total caiu de 7.793 em 2000 para 3.450 em 2014. Durante o mesmo período, o número de residentes brancos mais do que triplicou no bairro.”

Além disso: “Os preços das casas aumentaram mais (mais de 1.000 por cento num sector) em áreas gentrificadas onde havia um número relativamente alto de habitações para investimento e desocupadas em 2000 e onde muitas das unidades habitacionais dos bairros foram construídas nos anos seguintes: os antigos sectores afro-americanos industriais e da classe trabalhadora.”

As características das relações de produção habitacional na própria cidade de Reed são totalmente raciais. Certamente Reed nunca discordaria disso. A questão é onde essa racialização ocorre no nosso conceito de classe. Ou as relações raciais estão no processo de gentrificação em si, localizadas na relação de produção, ou são externas a este. Descartar as relações raciais como “turvando” uma questão de outra forma simples de “distribuição ascendente” ameaça enfraquecer a análise de classe da situação ao separar as relações raciais das relações de produção.

Mais especificamente, esta separação teórica é uma má estratégia: se nos vamos organizar em torno da expropriação e do deslocamento habitacional, é melhor levarmos as relações raciais a sério enquanto tentamos mudar as relações de produção, especialmente devido ao impacto descomunal das tendências de habitação branca em bairros tradicionalmente negros da cidade.

A Demos fez recentemente um inquérito nacional sobre mensagens eficazes de raça/classe para grupos progressistas e de esquerda, especificamente em torno de campanhas temáticas.

Entrevistaram 1.500 pessoas em Março deste ano. A amostra incluiu uma base de apoiantes de base de causas progressistas, pessoas persuasíveis para essas causas e conservadores que se opõem a elas consoante região, idade, grupo de identidade e classe. Descobriram que “[apoiantes de base] dizem que há muito pouca atenção dada à raça e às questões raciais na América hoje, enquanto que aqueles que se opõem a causas progressistas dizem que há muita atenção”.

Portanto, recomendam que “ajuda evocar a raça ao articular uma agenda para tornar a vida melhor para os trabalhadores”. Por exemplo, dizem para criar uma linguagem como “trabalhadores, sejam brancos, negros ou mestiço[2]” em vez de apenas dizer “trabalhadores”, porque “tornar a raça explícita aumenta o entusiasmo da nossa base e persuade um maior número no meio em direcção às nossas soluções.”

Defendem a mensagem de que devemos “unir-nos para além das nossas diferenças raciais” em vez de “unir-nos com outros na sua comunidade” porque “acusar os nossos opositores de nos dividir pode soar como uma forma de divisão; apelos à unidade são essenciais.”

Uma análise de classe mais sólida e unificadora sabe que isto é verdade. É quase insultuosamente óbvio. Apenas uma análise de classe separatista mais frágil negá-lo-ia.

Esta análise de classe mais frágil é supostamente reducionismo de classe. Mas é reducionismo de classe?

Há um processo de duas etapas que Reed, Chibber e outros seguem. Em primeiro lugar, este suposto reducionismo de classe distingue raça de classe, criando uma dicotomia entre si de tal forma que ou existe um ou existe o outro.

Em segundo lugar, após distingui-los, supõem uma relação essência/fenómeno entre raça e classe. Raça, e toda a identidade, é agora “cultural”, por exemplo: contingente e não essencial para o assunto mais importante em mãos, que dizem ser a classe. A raça torna-se causal e politicamente subordinada à classe.

É por isso que os supostos reducionistas de classe não são reducionistas de classe: o reducionismo de classe é uma designação muito gentil para o que entendo ser esta posição. É apenas uma má análise de classe dicotomizar as relações de “raça” das relações de “classe” e então essencializar a última como uma causa subjacente dos fenómenos contingentes e “retóricos” da primeira. Este é um conceito frágil e separatista de relações de produção.

O conceito mais sólido, unificado e integrado de relações de produção delineado aqui (a) não criaria uma dicotomia entre “raça” e “classe” e (b) evitaria qualquer argumento de que “raça” é uma função ou fenómeno de um “processo de classe” mais essencial. Estes termos devem referir-se a aspectos fluídos de uma relação unificada de produção predominante na sociedade. Separá-los não é um reducionismo de classe porque é uma má análise de classe. Reed até tem mesmo apresentou versões desta posição no passado:

“Raça é uma taxonomia de diferença atribuída, ou seja, uma ideologia que constrói populações como grupos e as classifica em hierarquias de capacidade e valor cívico e recua com base em características “naturais” ou essenciais a elas atribuídas. Ideologias de diferença atribuída ajudam a estabilizar uma ordem social ao legitimar as suas hierarquias de riqueza, poder e privilégio, incluindo a sua divisão social do trabalho, como a ordem natural das coisas.”

Para terminar com uma nota prática, a posição separatista não é apenas uma má análise de classe, pode levar a uma má estratégia e prática de classe.

À esquerda, as nossas teorias podem inspirar como planeamos e nos comportamos nas organizações. Quando conversamos, ouvimos os outros, planeamos e participamos em reuniões, e geralmente temos o trabalho de mudar as relações de produção, separar certas relações sociais do nosso conceito de classe tornar-nos-á cegos e surdos e mudos para a complexidade realmente existente do terreno em que temos de lutar. Os novos separatistas influenciaram líderes em organizações como a Democratic Socialist of America e outras. A minha esperança é que este ensaio, ao deslocar o foco do debate sobre o reducionismo de raça e classe hoje para as relações de produção, seja um passo para nos manter no caminho para conquistar o mundo que desejamos.

O autor gostaria de agradecer aos participantes dos Fóruns de Discussão Nacionais da DSA por participarem no debate em torno dos argumentos acima.

David I. Backer vai moderar “Raça, Classe e Esquerda Hoje: uma conversa entre Asad Haider e Keeanga Yamhatta-Taylor.” É membro do Democratic Socialists of America de Philadelphia, activo no grupo de justiça racial Local Initiative/Local Action Committee (LILAC). É também professor assistente de Fundamentos Sociais da Educação na West Chester University of Pennsylvania. O seu trabalho académico mais recente centra-se em “Classificação Socialista”.

As maneiras como o seu trabalho actual é abordado em debates convencionais no entanto, e por vezes as suas próprias declarações em fóruns públicos, são bastante diferentes das posições mais ponderadas que podemos encontrar em toda a extensão do seu trabalho.


[1] Há uma diferença entre Reed e Reedismo. Ao longo da sua carreira, Reed foi prolífico no assunto da raça, em muitos casos articulando posições subtis e perspicazes sobre raça e classe.

[2] “White, black or brown”, no original (NT);

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