Sobre a importância da unidade de acção contra as ameaças fascistas

As ameaças feitas por um grupo fascista a dez companheiras e companheiros, incluindo deputadas, sindicalistas e dirigentes anti-racistas e anti-fascistas, tornaram evidente a gravidade da escalada de violência racista e fascista que atingiu o país. Desta vez, pelo nível das ameaças e pela pressão do movimento, até o Governo e o Presidente da República, que noutros casos se mantiveram silenciosos, se pronunciaram. Isso é importante, mas palavras não bastam. Os mesmos que até hoje se calaram, não passarão ao combate efectivo contra o fascismo e o racismo por magia. Aliás, as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa, que apelou à moderação da resposta, tornam este facto evidente. As autoridades só agirão se pressionadas.

Posto isto, é necessário que sejam os movimentos sociais, a esquerda, as organizações em defesa dos direitos laborais e sociais a mover-se contra a escalada de ódio. Dentro delas, e dada a conexão entre a violência fascista e racista, assumida pela própria extrema-direita, é natural que o movimento negro e anti-racista assuma protagonismo – tem sido assim por todo o mundo. Seja na organização de acções de rua, seja noutros âmbitos, a unidade de acção é essencial: há que construí-la.

Isto não implica desprezar a protecção das e dos visados e o seu direito a, em certa medida, resguardarem-se, caso pretendam fazê-lo. Trata-se sim de assumir que, mesmo neste terreno, uma resposta política colectiva, organizada e activa é o melhor meio de assegurar a segurança de todas e todos. Organizar uma resposta nas ruas, em particular, significa demonstrar na prática que há uma ampla maioria social que repudia estas ameaças, assim como o fascismo e extrema-direita. Assim iremos restringir a liberdade de acção que estes grupos têm alcançado.

É da maior importância que todas as respostas sejam as manifestações de rua ou outras, se dêem da forma mais unitária e concertada possível. É essencial fazer um esforço para que abranjam todas e todos os visados pelas ameaças, assim como as organizações de que são parte. Os fascistas sabem que os seus alvos fazem parte de organizações distintas e que, em muitos aspectos, têm posições diferentes. Sabem inclusive que entre essas diferentes forças há muitas vezes competição e até conflitos. Pretendem certamente aproveitar-se disso e, se possível, aprofundar essas divisões. Aliás, devem ter noção que a esquerda social e política tem, no nosso país, uma força muito superior à da extrema-direita. Sabem portanto que só não têm sido esmagados na luta política em grande medida graças a essa divisão. Eles sabem tudo isso. Nós, de esquerda, também. Sejamos então mais inteligentes que eles: demonstremos desta vez uma unidade na acção que remeta os grupuscúlos fascistas à marginalidade defensiva.

De resto, o momento acentua o sentimento de unidade entre quem luta por justiça e igualdade social. As palavras unidade, união, convergência e tantos outros sinónimos atravessam os comunicados das várias organizações que tomaram posição face às ameaças fascistas. Não duvidamos da vontade de que assim seja. Porém a experiência diz-nos que a unidade não nasce apenas da vontade, ela dá trabalho. Mesmo a unidade de acção, ou seja, a unidade pontual em torno de um objetivo concreto – como repudiar as ameaças fascistas – precisa de ser construída. Exige paciência, diálogo e concessões, assim como o sentido das proporções, ou seja, a noção que as divergências entre quem é de esquerda – muitas vezes legítimas – são insignificantes perante o perigo da escalada fascista. Exige também ter a noção que o perigo apresentado por essa escalada é real. Basta olhar para países como Brasil, EUA, Filipinas, Índia, Hungria e tantos outros. Basta lembrar o assassinato de Marielle Franco, no Brasil. Só desta compreensão pode nascer um real esforço unitário.

É demasiado fácil, independentemente dos apelos unitários, agir de forma contraditória. O voluntarismo e a pressa em marcar uma acção de rua, por exemplo, podem facilmente impedir um diálogo real para construir algo maior. Outras vezes, são resquícios de lutas sectárias ou a vontade em marcar um determinado espaço que têm o mesmo efeito. Isso leva a acções pequenas, que desmoralizam activistas e reforçam a confiança dos nossos inimigos. Ao mesmo tempo, aprofunda as trincheiras da desconfiança e faz com que acções unitárias futuras sejam ainda mais difíceis de construir.

Desta vez, temos mesmo de estar a altura dos acontecimentos. Nós, a Esquerda, somos mais, mais fortes, mais organizados e temos mais implantação social que os neo-fascistas. A unidade é a nossa força, a divisão o nosso calcanhar de Aquiles – é nesta última que os paladinos do ódio apostam. Tenhamos a inteligência de construir a unidade de acção, pois não basta declará-la. Se o fizermos, um rolo compressor multitudinário sairá às ruas para derrotar o ódio fascista e racista. 

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