25 de Abril, com sentimento

Este ano resolvi escrever sobre o 25 de Abril. Escrevo (ou tento escrever) com o novo acordo ortográfico, mas este Abril tem que ser com letra maiúscula.

Normalmente coibia-me de o fazer porque sinto que não sei quase nada a nível factual — e muito menos tenho algo a acrescentar — relativamente ao que se passou nesse dia e meses seguintes até ao famigerado 25 de novembro de 1975. Data que agora as forças da reação que, no menos mau dos casos, seriam escorraçadas de qualquer palco mediático nessa altura e, no pior, seriam mesmo presas, pretendem agora glorificar. Mas deixo para trás os meus receios de errar e partilho o que o 25 de Abril me provoca, nomeadamente a nível emocional, o que é muito.

Raramente consigo evitar chorar quando vejo um documentário ou imagens sobre este período de um ano e sete meses, em que Portugal esteve mais perto do que nunca do que ambiciono para o meu país. Atualmente já nem tento.

Não tento porque são mais que justas as saudades dum tempo que não vivi, mas que sinto que também é meu. Além disso, muito de Abril sobreviveu ao golpe do ano seguinte até hoje, como é tão sobejamente reconhecido como intencionalmente pouco relembrado.

Mas, indo aos pensamentos desgarrados que me assaltam nesta data, começo com a suposta falta de inteligência do povo português. Esta ideia, que nos é muitas vezes incutida, inclusivamente por uma retórica que é usada por setores que tanto lutaram por esta revolução após resultados eleitorais menos bons, é totalmente contrariada pela experiência de Abril.

Uma das coisas que mais me impressionam quando penso no PREC é o avanço enorme que um povo iletrado e inculto conseguiu obter em tão poucos meses. Ocuparam-se terras, fábricas, exigiu-se reforma agrária, cercou-se a Assembleia da República, invadiu-se a Embaixada do Estado Espanhol ainda (?) fascista, fizeram-se assembleias populares, constituíram-se cooperativas, entre muitas outras ações de luta e unidade popular que não posso, nem consigo, enumerar na sua totalidade.

Vem-me à cabeça o diálogo sobre “a ferramenta”, retirado do excelente documentário sobre a ocupação da Torre Bela (1), atualmente conhecida por razões bem piores (2). Nessa conversa, o recentemente falecido Wilson Filipe tenta convencer um dos trabalhadores que a ferramenta que ele usa é agora de toda a gente da cooperativa, tal como as que eram das outras pessoas são agora também dele e que não tem que se preocupar mais com a sua ferramenta, pois terá sempre uma para trabalhar. À primeira vista poderá não ser entendido como um bom exemplo, pois o Wilson é claramente mais instruído que o trabalhador e, também por isso, foi há algum tempo usado como exemplo dos alegados ataques que a revolução fez à propriedade privada. Porém, o que para mim ressalta no vídeo é que o trabalhador parece ser o único do grupo a pensar daquela forma, sendo que até uma camarada, a Maria Vitória, tenta intervir e explicar o que já toda a gente percebeu.

Ou seja, um povo habituado a quase 48 anos de ditadura que, associado ao tampão franquista, cerceava quase todas as ideias revolucionárias, conseguiu organizar-se num movimento de massas e em pouco tempo lutar pelos seus interesses, percebendo quem eram os seus carrascos, estivessem estes mais ou menos bem disfarçados. Questionaram as velhas formas de produção, os costumes e até os governos já eleitos por sufrágio universal e que supostamente iriam defender os seus interesses. Esta é das coisas que mais alento me dá quando me assaltam os pensamentos de que a revolução e um mundo novo são impossíveis.

Uma segunda coisa que me causa algum sentimento que, neste caso, não é o melhor, é a irritação que sinto por termos permitido que Marcelo Caetano fosse livremente para o Brasil, bem como a fuga de muitas outras personalidades do regime. Não faço ideia dos detalhes do processo em que isso ocorreu, porém, estou convencido de que dificilmente me convenceriam do acerto na decisão. Não se trata dum pendor punitivista da minha parte e sabemos que, felizmente, não se passou o mesmo em Portugal do que aconteceu em Espanha, com o inqualificável “Pacto del Olvido”, ou no Brasil. Porém, não consigo aceitar que tenha sido permitido que tantas pessoas ligadas a tanta morte e também a tanta miséria, quer nas ex-colónias, quer em Portugal, pudessem refazer a sua vida impunemente e de forma principesca.

Ainda assim, é justo dizer que, durante muitos anos, qualquer tentativa de agitar ideias que lembrassem de forma elogiosa o salazarismo era amplamente criticada pela esquerda e antifascistas. Estes grupos acabavam por levar a reboque oportunistas liberais e restantes setores defensores do capital que, como sabemos, sempre conviveram muito bem com o fascismo, mas que também normalmente têm a esperteza suficiente para saberem escolher as suas guerras em cada momento e local. Lamentavelmente, hoje, temos cada vez mais sobre nós o espectro, não do comunismo, infelizmente, mas da tentativa de novas alianças destes setores com saudosistas do salazarismo. Já percebem que será preciso mais músculo para espremer o povo trabalhador que já tão pouco sumo tem para dar. Há que saber dar uma resposta a esta ameaça real, principalmente nos campos onde estamos mais à vontade, ou seja, nas ruas e na luta, e menos onde essas forças jogam em casa, isto é, nas instituições e meios de comunicação burgueses.

Em terceiro lugar, gostaria de destacar uma ideia que não é nova, mas que ouvi de forma atenta pela primeira vez na voz do meu camarada Manuel Afonso, também deste coletivo do Semear o Futuro. Fê-lo numa concentração no Seixal em que nos manifestávamos contra (mais uma) agressão bárbara às mãos da polícia ocorrida no Bairro da Jamaica. A ideia era simples: O 25 de Abril começou em África.

Confesso que, como não vivo numa bolha, todas as ideias que atravessam a minha mente quando penso na data são compostas e protagonizadas por homens brancos a fazer a revolução em Portugal continental, nomeadamente na zona de Lisboa. Todas as pessoas sabem ou deviam saber que isto é errado e que, ainda que todas essas imagens sejam bonitas e emocionantes, também ajudam a propagar o racismo institucional que ainda vivemos e que nunca foi resolvido adequadamente. Isto, claro, se não forem acompanhadas por imagens das pessoas que fizeram o com que o 25 de Abril fosse uma realidade em África. A verdade é que, sem qualquer menosprezo para as pessoas que protagonizaram o dia 25 (heróis e heroínas) e as conquistas brilhantes de Abril, mesmo a nível da luta antirracista, não é de um dia para o outro que se muda um estado e uma sociedade altamente racista para algo totalmente antirracista. É preciso reconhecer que é preciso muito mais que isto e que não podemos deixar tudo para que o tempo resolva. As pessoas racializadas que viveram Abril e que as que vivem agora e querem mudanças, direitos, reconhecimento e até compensações já!

Por vezes, quando pretendemos fazer considerações sobre certos períodos históricos, surge a acusação de incorrermos em anacronismo por estarmos a querer aplicar valores atuais a outros tempos. Mas, neste caso (e em muitos outros), esse argumento não colhe, pois foi obviamente a guerra colonial, antirracista, travada por guerrilhas negras altamente politizadas, que enfraqueceu o regime e que permitiu que em Portugal se fizesse a revolução nos limites metropolitanos que a conhecemos. E também são bem conhecidas histórias de comunistas e simpatizantes de esquerda que, ao serem enviados para o ultramar, acabaram por desertar ou, não desertando, evitavam o combate por saberem de que lado estava a razão e por quem e contra quem lutavam.

É importantíssimo integrar na nossa história a luta antirracista e anticolonial que nos trouxe a liberdade, pois só assim poderemos fazer com que todas as pessoas que compõem a nossa população sintam Portugal como algo delas. Temos que aprender mais sobre Samora Machel, Agostinho Neto e, principalmente, sobre Amílcar Cabral. Eu sei muito pouco, mas muita gente nem sequer conhece estes nomes e isso é simplesmente errado.

Por fim, terminando este texto, penso em Zeca. Arrepia-me e vêm-me as lágrimas aos olhos quando penso neste homem que tanto fez por Abril e pela demonstração de como a cultura é tão importante na vida dum povo. A sua história é tão bonita e é o reflexo de todos os pontos que aqui sumarizo neste pequeno contributo. Não consigo ter palavras para o descrever. Apenas aconselho que o ouçam, leiam e que conheçam a sua vida através dos documentários que sobre ele existem ou pelas biografias da sua vida.

Lembro-me do que o meu camarada André Freire e a minha camarada Ana Luísa Martins, duas pessoas brasileiras que partilham a sua vida e que com as quais tive o privilégio de militar brevemente em Lisboa, me disseram sobre o Zeca: “Não gostamos da música, mas adoramos as letras e a sua história.” Adorei a sinceridade e a capacidade de perceberem que Zeca era muito mais que a música. Zeca é Abril!

1 – Torre Bela (1975) #1
2 – https://www.esquerda.net/artigo/massacre-de-animais-na-torre-bela-ainda-sem-arguidos/78541

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