Angola. Vira o disco e muda a música?

Artigo de João Delgado

Que o disco virou o lado é já evidente. Pela primeira vez na curta história pluripartidária de Angola, a mudança de poder aparece como possível, quiçá inevitável. Distante de Angola, o que vou sabendo é quase na totalidade o que é público e publicado, sendo estas linhas resultado de uma opinião pessoal, não sustentada em factos suficientemente fortes. E a tese que subscrevo, de modo abreviado, é a de que não foi o MPLA que ganhou as eleições, foi a UNITA que as perdeu, de novo, por não ter conseguido apresentar-se como uma alternativa credível para a governação. Vejam-se as lutas entre os delfins de Savimbi nos últimos anos (Adalberto, Chivukuvuku, Sakala…), veja-se a não apresentação na campanha eleitoral de qualquer proposta mobilizadora, além da tomada do poder, veja-se o irresponsável apelo ao “votou, sentou”, que os eleitores do galo negro simplesmente ignoraram, vejam-se, por fim, as atabalhoadas conferências de imprensa e declarações pós-eleitorais, com acusações de fraude sem apresentação de qualquer prova.

Este comportamento da UNITA poderá ter sido razão suficiente para que muitos dos que deixaram, finalmente, de dar o benefício da dúvida ao MPLA, tenham optado pelo não voto. Não será também de menorizar a estratégia de décadas do MPLA de impedir a realização de eleições a nível provincial e local, evitando assim que quadros da UNITA se fossem afirmando, nos diversos níveis, como gestores da coisa pública. Para terminar, não se menospreze o respeito da maioria dos angolanos pelo MPLA enquanto partido da independência, e particularmente de Agostinho Neto, como “pai da pátria” e José Eduardo dos Santos como “artífice da paz”. Repare-se que nem a UNITA no seu discurso oficial contraria estas assumpções popularizadas.

MPLA e UNITA saem destas eleições com 95% dos votos, o que não augura nada de bom para o futuro próximo de Angola, em que a renovação dos actores políticos é uma emergência nacional. E pela esquerda também nada de novo se vê, naquelas terras em que é mais rara que a Welwitschia mirabilis.

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