Entrevista a Ativista Político Turco

No passado sábado (28 de maio), fez 9 anos desde o início dos protestos da Praça Taksim, mais conhecido na Turquia como movimento Gezi[1]. Aproveitamos a efeméride para fazer uma entrevista a Mert Kılınçaslan, activista político turco, participante activo nos protestos da Praça Taksim e membro do TIP (Partido do Trabalhadores da Turquia)

Como classificas o Governo de Erdogan e a actual situação política na Turquia?

MK: Passado 19 anos de governo, o AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento de Erdogan) deixou de ser um simples partido político, assumiu a burocracia estatal e construiu um novo regime com o presidencialismo, tornando-se uma formação que ainda continua a acertar contas com o velho e faz política sobre isso. Embora não o digam abertamente, os ideólogos do AKP veem as revoluções burguesas de 1908 e 1923 como tragédias que atingiram a Turquia e acusam os quadros fundadores da União e do Progresso da Turquia (e seus sucessores kemalistas) de serem golpistas a cada oportunidade. Não há lugar na “nova Turquia do AKP” para valores como secularismo, iluminismo, nacionalismo, direitos das mulheres. O AKP é um partido que deixou para trás os seus objetivos iniciais de entrar na União Europeia (UE), o secularismo de estilo europeu, etc e voltou-se para o que é a sua essência, o Islão político. O AKP, forçou-se ao poder juntamente com as mudanças que trouxe, continua a realizar sua política para as massas através das políticas de polarização. É por isso que as eleições gerais de 2023 são de vital importância para o AKP e a Turquia. Desde os protestos de Gezi, o povo anti-AKP continua a opor-se como um bloco político. Embora não houvesse liderança política, esse bloco não se dissolveu. Atualmente, a Aliança Nacional sob a liderança do CHP (Partido Republicano do Povo – Partido de Centro-esquerda) surge como o representante deste bloco. No entanto, as pessoas também consideram os partidos de oposição ineficazes. Quanto mais tempo o AKP permanecer no poder, menos esperança as pessoas terão para o futuro. O número de pessoas que querem estabelecer um novo futuro fora do país aumenta dia após dia.

Como é que vês atual situação na Síria?

MK: Tendo em conta os migrantes “irregulares” não registados, existem quase 10 milhões de sírios, afegãos e paquistaneses na Turquia. Metade destes imigrantes veio da Síria. Para a Turquia, este é o significado mais atual da guerra na Síria. Ahmet Davutoğlu, fundador do AKP, que construiu as teses sírias e políticas expansionistas como o neo-otomanismo, é atualmente o presidente do Gelecek Partisi (Partido do Futuro), faz parte da oposição da Aliança Nacional. Em outras palavras, políticas pragmáticas sobre a Síria funcionam tanto no governo quanto na oposição. É claro que Erdogan está a utilizar os imigrantes como alavanca contra a UE. A sua última declaração ‘Eles vão ficar’ recebeu reações sérias. O líder do CHP, Kemal Kılıçdaroğlu, disse definitivamente ‘eles irão’. Nas ruas, a reação também aumentou entre a base eleitoral do AKP. Partidos racistas tentando transformar esta situação em uma oportunidade começaram a florescer. (Partido da Vitória, Ümit Özdağ) Também é expresso por alguns destes partidos que o AKP quer aumentar a população árabe para mudar a estrutura demográfica e expandir sua base islâmica.

És membro do Türkiye İşçi Partisi-Antalya (TiP), mas também fazias parte do grupo RED. Qual a importância do partido e porque é que entraste no TiP?

MK: O RED tomou a decisão de entrar no TiP. Os esquerdistas da Turquia têm a tradição de tentar unir a esquerda, mas não conseguiram alcançá-lo, exceto por períodos curtos. Várias tentativas aconteceram após a revolta de Gezi. Como exemplo, podemos citar o HDP (Partido Democrático dos Povos) e o Haziran Hareketi (Movimento de Junho). Devido à força do movimento curdo, o HDP nunca foi capaz de concretizar uma frente da esquerda unida, ou melhor, não conseguiu causar tal impressão no público. Por outro lado, Haziran Hareketi (Movimento Junho) permaneceu inativo devido aos conflitos das organizações de esquerda e desintegrou-se passado um ano. Na situação atual, o movimento socialista na Turquia perdeu a maioria de seus quadros que participaram da revolta de Gezi. Muitos dos quadros dirigentes foram para o estrangeiro ou deixaram a política. As estruturas de esquerda existentes estão a atravessar o período mais fraco da história. O fracasso das tentativas de unidade também reduziu seriamente a credibilidade das estruturas de esquerda aos olhos das pessoas. Ou seja, a união é de grande importância, por um lado, e, por outro, é difícil ter tanto impacto quanto antes. Existem exceções como o Türkiye İşçi Partisi (Partido dos Trabalhadores da Turquia), mas ainda não foi testado a sério. A maioria dos conceitos abstratos não faz muito sentido para o cidadão comum, o principal é explicar como esses conceitos influenciam as nossas vidas e o que pode fazer com que “nós/pessoas” percamos ou ganhemos. O TİP inicia o seu programa a descrever a gravidade da situação. Estamos em uma encruzilhada ‘afiada’, além disso, a nossa provação ainda não acabou, e a encruzilhada é mais aguda e mais problemática do que algumas das encruzilhadas anteriores. Segundo o TIP, a forma de se livrar do regime terá que ser através de uma verdadeira “vingança”. Aqui, alguns setores de cidadãos que foram vitimados pelo governo (alguns deles historicamente) são considerados como os trabalhadores explorados, as mulheres, os jovens, os pensionistas, os curdos, pessoas de diferentes orientações sexuais, activistas climáticos, cientistas etc. O apelo do TIP não é apenas para os partidos políticos, mas para todos os cidadãos e coloca-se pronto para marchar junto com qualquer um que se esforce para uma verdadeira libertação, um restabelecimento no qual o povo será o sujeito.

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