A cómoda marginalidade política

“Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência” – MARX, Karl; ENGELS, Friedrich em “A Ideologia Alemã

I can’t explain, you would not understand, this is not how I am I have become comfortably numb” – Comfortably Numb, Pink Floyd

A vida colectiva, conduz-nos ao movimento dinâmico da militância. Um movimento diário, que pode parecer calmo quando agita águas profundas ou pode parecer frenético, quando na realidade está agrilhoado.

Na militância política à esquerda, pelo menos em alguns círculos, é muito comum ouvir-se que determinado grupo ou indivíduo está acomodado, face a determinadas circunstâncias. A “acomodação” traduz-se na ideia de que uma organização ou indivíduo estão estagnados e acomodados à sua vida social, o que se demonstra, por exemplo, no trabalho que se desempenha, na existência de filhos, na condição material, etc; e que essas circunstâncias da vida são pressões para que se abandone a defesa de uma revolução socialista. Assim, e segundo esse pensamento, é estabelecida a relação causa-efeito de que indivíduos com uma vida minimamente estável terão como consequência a adaptação, de forma conformada, à vida que levam, não estando dispostos a dedicar-se a algo que ponha em causa essa “estabilidade”.

Na verdade, esta ideia de acomodação serve muitas vezes para explicar o abandono da militância ou abandono do partido de que fazia parte o indivíduo ou o grupo que, entretanto, saiu.

O epíteto de “acomodação” é muitas vezes utilizado por organizações ou indivíduos que nunca se consideram acomodados, e tem o propósito de desqualificar a opinião política dos seus oponentes em debates, quando estes não pensam como eles. No campo da esquerda revolucionária, dizer a alguém ou a um grupo que está acomodado é o mesmo que dizer que abandonou a perspetiva revolucionária da sociedade. Em qualquer debate político tático, usar essa ideia preconcebida é fazer um cordão sanitário à volta dos alvos desse epiteto.

Pensar sobre isto pode parecer esdrúxulo, mas é urgente refletir sobre o que significa a acomodação à esquerda. É necessário reflectir se a acomodação está intimamente ligada ao exposto acima ou, por outro lado, à ideia de desistência de se ser útil à classe trabalhadora e, consequentemente, à disputa pelo poder. Na minha perspectiva, concordo com a segunda hipótese. Esta última ideia está também ligada à adaptação ao regime democrático-burguês e ao sistema capitalista, que é o que à esquerda acaba por se debater mais e reflectir. Mas, tal como referido, existe uma forma de “acomodação”, a mais ignorada, que corresponde à desistência pela disputa pelo poder na perspectiva marxista – à desistência de procurar chegar às massas e a ter influência política. Haverá maior acomodação do que a esquerda que desiste de tentar transformar a realidade? Ou que desiste de ter política e apenas recorre ao enunciar de princípios?

A “acomodação” à vida no capitalismo pode também manifestar-se quando uma organização política é marginal. Essa marginalidade política é bastante perniciosa, mas acaba por ser muito cómoda para quem sofre dela: quem não tem que responder quotidianamente aos problemas concretos da classe trabalhadora pode, do alto da sua própria “acomodação”, citar e proclamar os maiores princípios. Não tem que responder à realidade, basta adotar uma postura de comentarista dessa mesma realidade, sem se posicionar no tabuleiro.

Uma vida ou existência marcada pelo isolamento e marginalidade só pode gerar mecanismos degenerativos e, consequentemente, mesmo que inconscientemente, a levar na prática ao abandono da visão estratégica pela tomada do poder. Ai, a revolução social passar a ser vista como algo a fazer um dia, bem distante, e inconscientemente, gera a descrença na luta para transformar a realidade. Esta é uma das consequências da adaptação à marginalidade, e isso é visível, infelizmente, em muita da esquerda mundial e até portuguesa.

Qualquer organização marginal justifica a sua existência tentando demonstrar que existe e está “viva”: a autoafirmação permanente, ao mesmo tempo que ataca e olha para as outras organizações de esquerda como inimigos. Invariavelmente, a marginalidade política tem como consequência o sectarismo e está ligada, sobretudo e como consequência, a pequenas organizações.

A marginalidade política é funesta, mas é cómoda. Não há que fazer política, logo, não há chatices. É fácil, basta apenas recitar princípios ou transformar questões táticas em princípios. O foco destas organizações torna-se então “não desaparecer” e apostar na sua própria auto afirmação. Desta forma, a sua prática acaba subjugada a uma compreensão errada de que a construção é necessariamente a sua auto afirmação. Haverá maior acomodação do que desistir de disputar o poder e se “auto contentar” em captar 2, 3 ou 10 pessoas no movimento? 

Este tipo organizações vêm como imperativo, algo quase de princípio, a necessidade de convocar a manifestação antes de outra organização, levar o máximo de bandeiras ou pancartas que se consiga, tornando-se este o centro da sua participação, seja numa manifestação ou greve. Dentro da mesma lógica, qualquer atividade que essa organização não controle passa automaticamente a ser errada, com vários defeitos que, inevitavelmente na sua óptica, “levarão a água ao moinho do reformismo” ou da organização “inimiga”. A preocupação com a luta em causa passa para segundo plano, apenas importa a auto afirmação da organização. Nenhuma organização é imune à marginalidade e sobretudo à acomodação. A acomodação à marginalidade é uma pressão tão forte que a grande maioria das vezes as próprias organizações nem se dão conta. Ou então arranjam auto-justificativas para a situação de isolamento surgindo as inevitáveis ideias do “somos poucos, mas bons”, “somos poucos pela nossa intransigência”, acabando por sugerir uma pureza equivalente a estar isolado. E se alguém questiona a situação em que tal organização se encontra, rapidamente se vê atacado e caluniado, demonstrando também como a marginalidade acaba por degenerar o próprio regime interno das organizações. A marginalidade política degenera tudo e, embora seja cómoda porque apenas há que continuar com as tarefas rotineiras, não há que fazer politica, nem embrenhar-se nas massas, nem ser confrontada directamente pela classe trabalhadora e os seus sectores oprimidos, no que toca a decisões tomadas dentro da realidade, pois assim se pode continuar  com a ideia de “consciência e mãos limpas”, afastando-se paulatinamente do verdadeiro objectivo duma organização e da militância socialista que é lutar e defender o programa da revolução socialista, acomodando-se à dinâmica frenética agrilhoada.

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