A GUERRA EM ANÁLISE

A situação mundial alterou-se qualitativamente com a invasão da Ucrânia pela Rússia. Em poucas semanas, com a guerra como pano de fundo, contradições que se vinham acumulando agudizaram-se e testemunhamos alterações bruscas nas dinâmicas de classe e nas relações entre países. A busca por explicações, análises e a procura de soluções para a crise atual são uma realidade em todos os sectores políticos e sociais por todo o mundo. A esquerda deve entrar a fundo nesses debates.

Uma guerra com duplo carácter

É importante tentar definir a guerra em curso. Esta é uma guerra de agressão imperialista da parte da Rússia à Ucrânia e não temos dúvidas quanto à superioridade militar e económica da Rússia neste embate.

É uma guerra onde o direito da Ucrânia (na sua diversidade) a existir enquanto Estado é posta em causa pela agressão da Rússia, que tem como intuito explorar recursos, força de trabalho, infraestruturas e localização geográfica, bem como abrir uma disputa mais acirrada por áreas de influência.

Mas esta guerra aberta entre o exército russo e ucraniano é também parte de um confronto maior e mais profundo. A disputa imperialista do mundo tem sido o centro dos diferentes processos globais, em que o imperialismo norte-americano tenta por todos os meios manter o seu domínio quase hegemónico sobre o mundo e suas instituições, poder esse que tem principalmente depois da desintegração da União Soviética. Embora existam vários exemplos da decadência dos EUA, o domínio hegemónico deste ainda não foi alterado qualitativamente. Aliás parece que este é o primeiro enfrentamento considerável ao “equilíbrio” anterior, por isso também origina tanta convulsão e até grandes confusões.

Essa disputa estava há algum tempo em cima da mesa. Da guerra comercial entre China e EUA durante os anos Trump à cada vez maior influência externa em conflitos internos dos países, de Hong Kong à Bielorrússia, à guerra na Etiópia, na Líbia, Síria e em muitos outros países. O aumento da militarização não começou com a invasão da Ucrânia – nos últimos anos a maioria dos países iniciou reestruturações nas forças armadas e o orçamento militar global aumentou significativamente. O que vemos, sobretudo a partir dos EUA, é uma política de cerco paulatino à Rússia e China, utilizando vários meios ao seu dispor, incluindo a NATO. Foi um eixo de campanha de Biden, que terá sido fundamental para a sua vitória sobre Trump, com a promessa de unificar o imperialismo ocidental para conter a Rússia e a China.

Fim imediato da invasão russa

Ainda que não dê para compreender a guerra na Ucrânia sem ter em conta o conflito a uma escala global, começamos por condenar a invasão da Ucrânia pelo exército russo e exigimos a retirada das tropas russas.

Entendemos que a guerra é a combinação de uma resposta imperialista e criminosa à expansão da NATO no leste europeu e a “defesa” violenta dos interesses russos na região, que resulta no sacrifício do povo ucraniano e do seu país.

O fim imediato da invasão russa e o apoio à resistência popular na Ucrânia é uma exigência primordial.

Não podemos deixar de referir que a guerra tem provocado uma crise de refugiados, composta por milhares de pessoas que fogem da destruição e da morte – mas chegam-nos notícias que às pessoas racializadas e às pessoas trans têm sido negadas auxílio, refúgio e passagem segura para fora do país, sintomático do racismo e da transfobia que se aprofunda em períodos de grande crise e que reconhecemos nas fronteiras da União Europeia. Juntamos as vozes para exigir passagem segura e acolhimento para todas, todos e todes.

Recuo da NATO

As ações da parte da NATO só têm colocado gasolina na fogueira – uma escalada belicista não garante a paz. Quer na narrativa belicista e da superioridade “ocidental”, quer no aumento imenso da militarização da Europa, a resposta da NATO e dos seus aliados é preparar catástrofes ainda maiores mais à frente. As sanções impostas à Rússia têm o objetivo de isolar o governo russo mas também de impor um isolamento ao país que está a prejudicar essencialmente a população russa (que não tem muita capacidade de intervenção política) assim como a população dos países da NATO – já sentimos estes efeitos. Ao mesmo tempo saem beneficiados os sectores económicos “ocidentais” na disputa pelo mercado mundial. Não precisamos de recuar muito para não ter ilusões da autoridade democrática ou pacifista da NATO. Não fazemos coro com o belicismo da NATO contra o belicismo da Rússia.

Defendemos o recuo da NATO do Leste Europeu, somos contra o aumento dos orçamentos militares e opomos-nos às sanções, que aceleram e aprofundam a escalada do conflito.

Portugal no conflito

Infelizmente o governo português está a ser parte desta escalada militar em curso na participação ativa no reforço histórico da presença militar da NATO no leste europeu e no já prometido aumento do orçamento militar para 2% do PIB. Somos contra esta postura do governo PS/Costa.

Perguntamos: Qual vai ser a política do governo português para enfrentar a crise económica e social? Como impedir que a população que já estava em dificuldades pague o preço da crise? Como controlar os preços que só aumentam? Como impedir a estratégia belicista e construir uma política de paz? São as respostas a estas perguntas que devem estar no centro da ação da esquerda no próximo período.

Soluções à esquerda são urgentes

Novas questões estratégicas levantam-se à esquerda, é importante refletir coletivamente sobre as tarefas colocadas neste período histórico. É urgente criar um terceiro campo que rompa com as saídas belicistas em disputa e levante um movimento solidário, anti-imperialista e internacionalista contra a guerra. A escalada da guerra pode levar a humanidade ao abismo, outro mundo é preciso e é urgente.

A tarefa de construir força e organização social que impeça a barbárie nos próximos anos está nas mãos da esquerda e tem que ser feita de forma unitária, com a mobilização de movimentos sociais, sindicatos e partidos de esquerda capazes de levantar as bandeiras para enfrentar a guerra e os seus efeitos e colocar novos horizontes para a humanidade.

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