Que posição devemos ter face às sanções?

Contributos para um debate em curso

A posição da esquerda internacionalista e anti-imperialista na atual guerra na Ucrânia deve partir alguns princípios pétreos:

  • a condenação à invasão russa;
  • a exigência da retirada das tropas russas;
  • o reconhecimento da soberania da Ucrânia e o direito dos seus habitantes, na sua diversidade, a disporem de si mesmos;
  • a oposição ao envio de tropas e de interferência militar no conflito por parte dos países da NATO;
  • a denúncia do papel agressivo e expansionista da potências ocidentais e na escalada belicista em curso.

De forma mais simples, estas ideias têm-se expressado em apelos como «Nem Putin, nem Nato» ou «Contra todos os imperialismos», sempre que precedidos da exigência da retirada das tropas russas. Estas são as considerações basilares, os princípios de uma posição pela paz. A partir daqui, há que assumir que estamos perante um cenário complexo, em constante mutação, e em que há diversos elementos a serem pensados criticamente de forma a construir uma resposta sólida pela paz, internacionalista e anti-imperialista. E que, portanto, há entre aqueles que lutam contra os imperialismos e pela paz, nuances. Estas não devem impedir que a esquerda se una, para encabeçar um combate consequente contra a guerra, e tampouco devem ser abafadas ― a pior coisa que podemos fazer é importar para as nossas fileiras o ultimatismo unanimista que os governos querem impor à sociedade a pretexto da guerra.

Dessa forma, as linhas que se seguem discorrem sobre uma dessas nuances. Uma que não é totalmente secundária porque tem vindo a tomar um papel importante no debate público. Trata-se da questão das sanções económicas à Rússia. Independentemente da posição que tenhamos face às mesmas, é certo que não podemos simplesmente alinhar com a onda sancionatória liderada pelo imperialismo norte-americano e pela UE sem antes parar para pensar.

O leque de sanções em curso é grande. Os EUA baniram toda a importação de petróleo e gás russos e a UE fala em fazê-lo faseadamente até ao final do ano. A Alemanha suspendeu, indefinidamente até ver, a construção do gasoduto Nord Stream 2. No terreno financeiro, a Rússia foi banida do Bank of International Settelments, usado pelos Bancos Centrais para transações financeiras; além disso, sete bancos russos foram expulsos do sistema SWIFT que assegura também as transações internacionais e os ativos dos bancos russos foram também congelados. Alguns países, como o Reino Unidos, avançaram com outras limitações específicas a bancos russos. Além disso, uma série de sanções a milionários russos individuais foram postas em prática. Somam-se a estas, a proibição dos voos de companhias aéreas russas em diversos países enquanto várias multinacionais ocidentais (Starbucks, Coca-Cola, MacDonalds, etc.) se retiram do mercado russo. Estas são as sanções mais significativas, havendo outras em curso. Além da Rússia também a Bielorússia tem sido alvo de sanções.

O objetivo é, nas palavras de Risi Shunak, alto responsável britânico pelo tesouro público, «devastar a economia russa». É certo que a esquerda não tem de ter uma posição de princípio contra sanções económicas a determinados países, em determinadas situações. O movimento internacional pró-Palestina há muito que desenvolve uma campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções ao estado de Israel e um movimento semelhante visando a África do Sul ajudou na derrota do Apartheid. Mas a atual ofensiva em curso não é comparável a estes casos. Desde logo porque a onda de sanções atuais não é impulsionada de baixo para cima, em oposição aos principais imperialismos, mas pelo contrário, é imposta, de forma ultimatista, pelas principais potências, nomeadamente os EUA, sem consultar os povos. Mas mais que isso: estas sanções são parte de uma guerra em curso perigosa e injusta e não se tratam de ações de legítima defesa do povo ucraniano contra a invasão russa, mas de uma escalada do imperialismo ocidental.

As sanções são atos de guerra. Não da legítima guerra defensiva do povo ucraniano, mas da guerra inter-imperialista entre o bloco ocidental e a Rússia ― a mesma guerra que está a sacrificar o povo ucraniano em defesa de interesses que lhe são estranhos, uma guerra militarmente iniciada pela Rússia, mas preparada durante anos também pela NATO. Um dos comentadores que mais se tem destacado pela total vacuidade na análise televisiva da guerra, Pedro Marques Lopes, acertou, no entanto, no que diz respeito às sanções. Afirmou ele na Sic Notícias que não se sabe totalmente qual o efeito económico das sanções e que podem ter tantos efeitos nefastos na economia russa como nos países que se lhe opõem. Mas, segundo ele, o principal efeito das sanções será «moral» e não apenas o povo russo, mas os povos dos países da NATO devem sacrificar-se em prol desse «efeito moral». Mais claro não poderia ser. Trata-se de uma afirmação de guerra, parte moral e política de uma escalada imperialista que implica austeridade de guerra a ser suportada por quem menos tem de ambos os lados das linhas de combate. De resto, já se estão a sentir esses efeitos. A desvalorização abrupta do rublo pesará sempre sobre o povo russo, o mesmo que se tem corajosamente manifestado contra a guerra (e pode até ter o efeito de levar a uma reação de unidade nacional em defesa de Putin, como tende a acontecer nestes casos). A retirada das multinacionais ocidentais do território russo deixará também milhares de pessoas em situação de desemprego. Nos países da União Europeia, nomeadamente em Portugal, os efeitos já se começam também a fazer sentir, sobre a forma de inflação ― que pesa sobre quem trabalha e é oportunisticamente aproveitada pelos especuladores.

Como base nesta análise não fará mais sentido à esquerda, como parte da construção de um movimento internacionalista e anti-imperialista pela paz, opor-se a esta escalada? Não será que as sanções, a militarização da Europa e o aumento dos gastos militares, a censura crescente e a ofensiva política sobre a esquerda são partes de uma só escalada? Assim, lutar pela paz e decretar guerra à guerra implica a oposição a toda esta escalada, o que inclui uma oposição às sanções. Evidentemente, isso não significa não denunciar a hipocrisia dos governos e empresas que, embandeirando na vertigem da guerra económica, querem salvaguardar os seus interesses, poupando determinados sócios russos e mantendo o amor ao seu capital.

Uma oposição à guerra económica imperialista não significa menos solidariedade como o povo ucrâniano, nem significa que não condenamos veementemente a invasão russa, exigindo a cada momento a retirada imediata das tropas russas. O apoio ao povo ucraniano passa por não ceder a uma guerra, militar e financeira, entre blocos imperialistas que estão dispostos a usar um país soberano como peça dispensável do seu xadrez de morte.

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