Por um movimento anti-imperialista contra a guerra

A agressão militar à Ucrânia alterou em poucos dias todo o cenário político europeu e até mundial. Os eventos escalam a uma velocidade impressionante, empurrando nações e governos numa espiral belicista cujo horizonte final ― ainda longínquo, mas não fictício ― é a guerra em larga escala, com contornos de conflito nuclear. Um cenário apocalíptico, portanto.

A guerra já está entre nós

Travar esta escalada é hoje a maior prioridade dos povos do mundo, de quem vive do seu trabalho e deseja a paz, das esquerdas e de todas e todos os cidadãos com aspirações solidárias e democráticas. Uma oposição frontal à agressão russa é o primeiro passo para este combate, mas isso é insuficiente. Para quem vive do lado dito ocidental do mundo, nos países da NATO e da UE, é ingénuo e contraproducente não ir além da oposição ao imperialismo russo. Sem uma postura internacionalista, crítica e contra todos os imperialismos ― começando pelos mais próximos, os que nos governam diretamente, ― os anseios pela paz serão transformados no combustível de uma gigante máquina de guerra. É o que já está a acontecer.

Nos últimos dias sucederam-se acontecimentos até aqui impensáveis. Factos que normalmente seriam repudiados, passaram incólumes, sendo até aplaudidos. Não na Rússia, nem na Ucrânia, mas na União Europeia e em Portugal.

Após anos em que se discutia ferozmente a chamada política do cancelamento e a «censura» do politicamente correto, a censura real, não eufemística começou a ser aplicada: a retirada do ar da Russia Today é censura de guerra e como a guerra, sabemos como começa, mas não onde acaba. A par disto, na Europa do défice zero, o financiamento militar disparou em poucos dias. A UE, pela primeira vez, vai financiar a compra de armas; a Alemanha, pela primeira vez em décadas, vai aumentar brualmente o seu orçamento para o esfoço de guerra (mais do que todo o orçamento militar russo!).

A onda belicista tem também repercussões em Portugal. As ofensas e agressões a cidadãos russos são exemplo do crescimento do veneno xenófobo e nacionalista que é o alimento de todas as guerras. Outra face desse sentimento é a histeria antiesquerda. Instigada pela comunicação social, a associação bizarra da Rússia de Putin com a esquerda tem sido fomentada, inspirando a violência. A sede do PCP de Beja foi vandalizada, militantes de esquerda foram agredidos na manifestação pela paz de dia 27 de fevereiro e, como corolário, o neonazi Mário Machado veio apelar à destruição das sedes comunistas. Aliás, o entusiasmo dos neofascistas com esta histeria é sintomático, mas eles apenas surfam a onda criada pelos governos e as direções de jornais e TVs. A deturpação consciente das posições de BE e PCP no parlamento europeu, por parte do DN foi apenas o exemplo mais evidente desta campanha. Outros editorialistas aproveitam para ajustar contas com a esquerda ― para estes, a guerra é apenas o pretexto, a sua agenda é outra.

A voragem de sanções contra a Rússia é instrumental a esta escalada. Não é que sanções dirigidas a oligarcas e governantes russos não sejam merecidas ― já o eram antes da guerra. Mas a onda sancionatória serve como uma frente de guerra que arrastou já países supostamente neutros, como a Suíça, a Finlândia e a Suécia.

Contra a guerra e a escalda belicista, juntar forças!

A agressão russa é, desta forma, aproveitada pelos países da UE e da NATO para militarizar os seus estados e disciplinar a sociedade civil, ultrapassando, a cada dia, barreiras que seriam, em tempo de paz, intransponíveis. Lutar contra a guerra é lutar contra esta escalada. Sem isso, qualquer oposição à ofensiva russa é apenas a escolha de um lado na guerra, não a luta contra ela. Da mesma forma, é impossível lutar contra esta escalada sem se opor terminantemente à ofensiva russa, exigindo a retirada imediata das suas tropas da Ucrânia.

Contra a maré belicista, estamos na defensiva. Sim, o paradoxo é este: os que desde a primeira hora estão contra todos os imperialismos e condenaram a agressão russa, remam agora contra a maré! Isso diz muito sobre o presente momento e sobre os passos que devemos dar.

É urgente e necessário construir um movimento contra a guerra, independente das agendas dos Governos ― ocidentais e, claro, russo ―, internacionalista e contra todos os imperialismos. A base desse movimento pode ser construída a partir de alguns pontos mínimos e essenciais: a oposição à agressão russa; a exigência da retirada das tropas russas da Ucrânia; a defesa de uma paz em que nenhuma das partes resulta humilhada, nem nenhuma impõe a sua vontade. Isso implica a retirada da NATO do Leste Europeu, o recuo da escalada militar e o respeito pelos estatutos de neutralidade ― rumo ao fim da NATO. Será um movimento que se opõe ao governo de Putin, em solidariedade com o povo ucraniano, mas também russo. Será um movimento que exige da UE, e sobretudo do governo português, uma postura pela paz, contra a presente escalada para a guerra. A criação desta plataforma é essencial. Sem ela, as justas aspirações pacifistas de milhões de cidadãos serão rapidamente transformadas em combustível para a guerra. Daí resultará não só um mundo mais perigoso, como uma sociedade mais autoritária, intolerante e agressiva ― terreno fértil para políticas de ódio.

Há atores para este movimento. À esquerda, o Bloco tem tido uma postura correta contra a agressão russa, sem deixar de denunciar o imperialismo ocidental. Movimentos vários têm tido posições neste sentido, além de terem uma tradição internacionalista: é o caso do movimento climático, antirracista, feminista, pró-Palestina, entre outros. Mesmo o PCP, ainda que mantenha uma posição hesitante na condenação da agressão russa, deve ser fraternalmente desafiado a fazer este caminho. A posição da CDU na Câmara Municipal de Setúbal, que governa, em que «condena a agressão militar russa», ou a posição de personalidades ligadas ao PCP, como Manuel Loff ― «A invasão da Ucrânia ordenada por Putin é uma grosseira violação do Direito Internacional e traz riscos gravíssimos para a paz mundial.» ― demonstram que pode haver acordo no essencial.

Uma frente com esta base poderia ocupar as ruas e o espaço público, colocando uma cunha entre os genuínos sentimos pacifistas da população e o esforço belicista feito para os capturar. Com esta orientação, poder-se-iam repetir, por exemplo, iniciativas como o grande comício contra a guerra do Iraque na Aula Magna, em 2003. Unir aqueles e aquelas que sempre estiveram contra a guerra infinita é hoje vital, para travar a corrida para o abismo bélico para onde os governos e a classe dominante nos conduzem alegremente.

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