Da hecatombe eleitoral à alternativa estratégica: sete notas para um balanço à esquerda

Muito já se escreveu e mais ainda se escreverá sobre os resultados das eleições de 30 de Janeiro. Não sendo estas notas nem uma resposta rápida, nem uma reflexão profunda, ficam como contributo a um debate que necessariamente se abrirá à esquerda.

Primeira nota: Desde 2019, duas tendências de fundo têm cruzado a vida política nacional: a primeira é a resiliência do Governo PS, mesmo atravessada a pandemia, e a sua gestão de centro-esquerda que favorece os grandes interesses do mercado ao mesmo tempo que garante a estabilidade social através de concessões mínimas às classes populares; e a segunda, a recomposição da direita, numa radicalização ultraliberal e neofascista, que por vezes se expressa numa dinâmica autofágica, impedindo-a de disputar o poder, e noutras assume a forma de complementaridade, tornando-a um perigo real. Ambas as tendências se expressaram nestas eleições, mas por diversos motivos foi a primeira que vingou. A segunda, no entanto, não deixou de existir e expressa-se nos resultados do Chega e da IL, anunciando perigos futuros. As oscilações das sondagens, das análises e das táticas dos partidos explicam-se pela existência real destas duas tendências políticas e pelas tentativas de adaptação a elas. Destaca-se a ausência de uma terceira tendência: de polarização à esquerda, expressando a vontade popular de ganhar direitos ― e isto, apesar dos anos recentes não terem sido um deserto de lutas sociais, ao contrário do que alguns dizem, basta pensar nas lutas antirracistas e climáticas e sindicais, entre outras.

Segunda nota: Do ponto de vista da esquerda, o resultado é muito duro. Porém isso não pode apagar o facto de que a direita foi derrotada. O voto de última hora que deu uma imerecida maioria absoluta a Costa foi um voto na estabilidade. Mas uma estabilidade em que os direitos sociais não são atacados, em que o desemprego é baixo, em que a extrema-direita é mantida longe do poder. Costa capitalizou a memória popular contra a austeridade, ainda associada às direitas. Essa recusa que hoje se expressou no PS, pode e deve ser canalizada para as lutas sociais que só as esquerdas combativas podem representar. Só assim ela poderá passar de recusa do mal pior à luta por uma vida melhor, só assim os ecos progressivos das lutas contra a direita e a austeridade não se irão diluir em desilusão, abrindo caminho ao revanchismo ultraliberal e neofascista.

Terceira nota: As esquerdas, BE e PCP, vêem-se agora numa situação muito complicada ― mas não desesperada. A explicação dos resultados obtidos é necessária para poder construir uma orientação estratégica para o futuro. Se isso for feito o recuo da esquerda pode ser revertido; caso não seja assim, um cenário de prolongada marginalização da esquerda não pode ser excluído. Pelo que toda a seriedade é necessária: um debate amplo, crítico e fraternal será determinante, isento da autofagia fracional, assente no comodismo do «nós avisámos». É para essa elaboração coletiva que queremos contribuir.

Quarta nota: Evitar unliateralidades é essencial neste balanço à esquerda. Concluir que tudo se resume ao chumbo do Orçamento para 2022 e que, consequentemente, este deveria ter sido aprovado é um erro. Desta posição resulta, logicamente, que BE e PCP deveriam aprovar sempre orçamentos do PS para evitar crises e danos eleitorais, o que os levaria a uma subalternização definitiva que terminaria sempre com uma maioria absoluta do PS ou um regresso da direita. A opinião oposta, de que as bases populares castigaram a esquerda pela sua colaboração com o PS é mais superficial ainda, dado que essas mesmas bases votaram, grande parte, em Costa, pois queriam, na verdade, mais colaboração com o Governo.

Quinta nota: Não obstante, é correto encontrar as raízes deste resultado na política dos anos anteriores. Independentemente das opiniões, não há ninguém que não o faça. Indo além das unilateralidades, o problema parece ter resultado de uma confusão entre tática e estratégia. Em 2015, a sustentação dada pela esquerda a um Governo minoritário do PS, foi, inicialmente, um gesto defensivo e tático, correto: convergia com a necessidade de afastar a direita do poder e derrotar a austeridade. Porém, a gestão dessa convergência no médio-prazo, transformou a tática em estratégia. Ou seja, na ausência de uma proposta de fundo que apontasse para a disputar do poder pela esquerda, em alternativa à direita e ao PS, a gestão do mal menor tornou-se, ela mesma, uma perspetiva de fundo. Não por escolha assumida, mas por não se enunciar um outro caminho futuro. No extremo-oposto, a extrema-direita resistiu ao voto útil no PSD, entre outras coisas, por enunciar um rumo estratégico de disputa do poder. A esquerda deixou de fazer isso. Então, o chumbo do Orçamento e a quebra definitiva com o PS apareceu como um salto no vazio: não estava ao serviço de uma estratégia alternativa, preparada e enunciada com tempo, que apresentasse a esquerda como ferramenta útil não apenas para derrotar a direita, mas inclusive para superar o situacionismo do PS. A capacidade de construir, agora, essa proposta estratégica determinará se a esquerda conseguirá fazer do atual recuo uma dificuldade conjuntural ou se ele se vai consolidar como derrota de longo prazo.

Sexta nota: Olhando para a direita, a derrota de Rio não pode apagar os perigos que se acumulam. A força demonstrada pelo Chega confirma: há uma corrente neofascista de massas consolidada em Portugal. É um cancro mortal em crescimento rápido. Serão necessárias doses fortes de quimioterapia política para o derrotar, mas também ousadia para o extirpar pela cirurgia: só a mobilização de uma maioria social nas ruas pode derrotar o neofascismo. Essa maioria tem de ser plural, unindo diversos setores, tão ampla quanto possível, mas para se opor ao neofascismo pelo vértice tem de mobilizar quem é o seu alvo principal. A coragem de dar centralidade ao combate antirracista torna-se assim questão de vida ou de morte para a esquerda e, até, para a democracia. Não há volta a dar. A par deste, outras frentes se devem abrir contra a direita, nomeadamente para resgatar uma juventude seduzida pelo ultraliberalismo, nesse sentido a disputa ideológica é também determinante, assim como a mobilização social ao redor de temas como o clima, a precariedade e a habitação, que tanto dizem à juventude.

Sétima nota: Daqui resultam algumas pistas, provisórias, para a construção de uma orientação vencedora para a esquerda. Aprofundar o perfil antirracista, assim como feminista, pela justiça climática e LGBTQI+ é determinante. A luta antifascista, alicerçada nesta pluralidade de combates, será um eixo central de confronto. Naturalmente, a oposição às derivas do PS não é excluída por tudo isto, mas para além de fiscalização, a oposição deve refletir uma alternativa estratégica. Como várias personalidades já assinalaram, a convergência da esquerda ― Bloco, PCP, movimentos sociais e sindicais, independentes ― volta a estar em cima da mesa. Nas lutas, isso será certamente uma realidade. Mas só da capacidade de, sem diluir a diversidade, apontar uma força comum para destronar o rotativismo ao centro, em torno de um programa de reformas anticapitalistas, pode nascer o que no período recente faltou e levou à hecatombe eleitoral. A situação da esquerda no pós-eleições é defensiva, mas se jogarmos para o empate a derrota será certa. O problema que se coloca à esquerda é aquele que, na verdade, nunca se ausentou: constituírem-se como alternativa política para disputar o poder. A unidade, uma vez mais.

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