Esquerda: após a hecatombe, o tipping point

Entre as muitas análises e autópsias que se vão elaborando, o essencial pode-se resumir em dois pontos. A esquerda foi, nestas últimas Legislativas, atingida por um projéctil que ela própria disparou em 2015 ao avançar para a Geringonça e esta nunca deveria ter acontecido com perspectiva estratégica, mas apenas e puramente táctica. Isto é, o acordo assinado em 2015 deveria ter servido unicamente para derrubar o governo da direita, permitindo um governo PS, mas fazendo-lhe oposição desde o momento seguinte; ao invés de se deixar comprometer por medidas mínimas e conjunturais que não permitiam vislumbrar um projecto alternativo de esquerda e o combate à direita que hoje cresce e se restrutura para os extremos. No fundo, o que se pede no pós-eleições, só que agora em circunstâncias e com condições muito mais precárias. 

Costa assinou em 2015 o que lhe permitiria garantir uma maioria absoluta em futuras eleições, apesar das perdas nas Autárquicas. Este momento eleitoral foi uma pedrada no charco para testar tendências e tácticas, em que a BE e CDU tiveram perdas consideráveis. Vejamos a Amadora. Com uma candidatura radicalizada do PSD encabeçada por uma figura mais próxima do Chega do que da “moderação” social-democrata de Rio, a direita cresceu um pouco e o PS conseguiu a maioria absoluta com o voto útil contra a direita à custa da CDU e do BE. Exactamente o que aconteceu nas Legislativas, nestas com o adicional do crescimento do Chega e da IL, que deixaram de ser epifenómenos eleitorais e que se conseguiram afirmar com uma base social cada vez mais sólida. O fenómeno Amadora nas Autárquicas permitia antever os resultados da esquerda em 2022. Porém, muito poucos atentaram a esta possibilidade.

A maioria absoluta pedida por Costa não foi por acaso nem um acto risível de desespero. Foi a tradução das intenções da própria burguesia que, após dois anos de crise pandémica, já não tolerava um governo PS apoiado pelos partidos à sua esquerda, e que agora pedia uma solução estável com PS e/ou PSD (isto é, que permitisse aprovar medidas a seu favor e a transferência dos fundos do PRR) sem recorrer ao empecilho da esquerda. Neste sentido, não lhe foi dada a devida importância e as sucessivas manifestações de intenção de cooperação de CDU e BE com o PS, ao contrário de 2015, não evitaram nem a maioria absoluta do PS nem o crescimento da direita mais radical nos planos financeiro e social. 

A orfandade de CDU e BE do pós-Geringonça traduziu-se na aposta inicial em eixos que, embora relevantes, não permitiam a suficiente e clara distinção face ao PS. Isto conjugado pelas intenções de construir a Geringonça 2.0 e inicial recusa de abordar o combate contra a direita, tornou-se numa tempestade perfeita. Com isto, se a crise da CDU já é antiga e agora atinge um ponto máximo, os objectivos do BE de permanecer como 3.a força política e de impedir tanto o bloco central como a maioria absoluta saíram frustrados, pois nos próximos quatro anos a classe trabalhadora, com todas as incongruências que tal representa, votou em massa num governo PS com maioria absoluta e mais ao centro (isto é, disfarçadamente à direita), tirando espaço ao PSD mas não evitando o crescimento da direita mais radical.

A esquerda deverá tirar ilações da nova realidade que se construir desde dia 30, mas que já se preparava há muito.  As perdas, não sendo irreparáveis, já trazem, como acontece à direita, uma legião de comentadores e de políticos transformados em comentadores com críticas a direcções e pedidos de demissão, quando o mais importante são as políticas, os eixos e projectos estratégicos que, dados os resultados, não passam pelo PS.

Se agora o Bloco de Esquerda e o PCP estão mais despidos parlamentar e institucionalmente, a esquerda em conjunto deve refletir criticamente, unir-se numa Frente Única e investir naqueles eixos políticos que serão atacados e/ou não terão tanto espaço de debate parlamentar. Um governo PS maioritário implicará necessariamente um maior escrutínio, combinando as ruas com o Parlamento. Se a fiscalização eficaz no Parlamento pela esquerda está limitada, a direita reforçada e radicalizada terá um palco privilegiado para o fazer de forma muito mais impactante e consequente. Tal obriga a que a prestação parlamentar não seja descurada, mas reforçada e auxiliada pelo trabalho exterior. Existem centenas senão milhares de associações, activistas e intelectuais com trabalho feito e propostas muitas vezes proferidas à margem do debate político em áreas do racismo, do feminismo, da luta climática e do trabalho. Estes eixos não terão tanto espaço no Parlamento. É necessário trazer estes temas e figuras políticas de relevo para a frente com consciência das dificuldades que a esquerda enfrenta, passando a construir um programa alternativo ao do PS e da direita sem a condescendência do LIVRE, pois este momento é o tipping point da esquerda em Portugal que joga a sua sobrevivência nos próximos anos. Dificilmente teremos outra oportunidade.

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