João Cotrim Figueiredo – O negacionista funcional

Negacionismo, segundo a Porto Editora, é a atitude de quem afirma que algo não é verdadeiro ou não existe e a rejeição da validade de conceitos apoiados por consenso científico ou empiricamente verificáveis. Assim, aplicando ao caso pandémico, será negacionista a pessoa que negue a existência da pandemia ou que esta não seja mais que uma “gripezinha”, mas também o é quem seja contra o confinamento ou contra a vacina como métodos de mitigação das piores consequências da doença. Devido à quantidade de informação constante que recebemos acerca da pandemia de Covid-19, a maior parte de nós identifica facilmente pessoas que se enquadrem nestes parâmetros. Felizmente, em Portugal, temos poucos negacionistas. Ainda assim, apesar de serem poucos, verificamos um crescimento maior nos segundos, ou seja, aqueles que não negando a existência doença e as suas potenciais consequências, não aceitam, por mais evidências e consenso científico que o suporte, que o confinamento, em determinados períodos é bastante recomendável. Nomeadamente aqueles períodos em que os hospitais não suportam um elevado ritmo crescente de internados. Felizmente, quanto à vacinação, esse negacionismo é bastante residual, pelo que não será o foco deste artigo.

Já quando falamos da emergência climática, verificamos também os mesmos graus de negacionismo. Continua a haver os negacionistas que negam o problema, ou seja, aqueles para os quais não há aquecimento global, ou que consideram que sejam apenas as variações normais que, ao longo da história do nosso planeta, foram acontecendo, isto é, existem, mas não são causados pela ação humana. Por outro lado, temos aqueles que, dizendo não negar o problema, insistem que as atividades humanas que nos levaram até este ponto terão que continuar até que, através dessa própria atividade e do desenvolvimento que daí advém, consigamos resolver o problema.

Estes segundos são os denominados negacionistas funcionais e um ótimo exemplo de alguém que verifica essas características, em ambas as questões, é João Cotrim Figueiredo, cabeça de lista por Lisboa e líder da Iniciativa Liberal. Tal pode ser amplamente verificado no debate da última sexta-feira com Isabel Sousa Real, líder do PAN, e foi constrangedor observar o que deveria envergonhar qualquer pessoa que se diga não negacionista e cogite votar neste partido.

Claro que as razões económicas, como o contorcionismo das explicações para “demonstrar” que será mais barato prestar, através do privado, um mesmo serviço que bons SNS ou sistemas de Educação — os últimos bastiões para privatizar. Pouco importa que a matemática simples demonstre (agora sem aspas) que o custo da prestação do serviço, somado ao lucro que dará aos privados, serão sempre maiores que apenas o custo da prestação do mesmo, como se poderia verificar num serviço público que não tem fins lucrativos. Mesmo entrando em fatores subjetivos, como a suposta melhor qualidade da gestão do setor privado, continua a não ter lógica. Por que razão ele, o super gestor, caso estivesse no poder, não conseguiria que a qualidade da gestão do serviço público fosse igual ou superior à do privado? Controlando o setor público poderia sempre beneficiar de enormes economias de escala e experiência adquirida ao longo de décadas, entre outros fatores exclusivos à gestão estatal… Mas adiante, sobre a parte económica, já me detive neste artigo de há um ano, aquando da candidatura de Tiago Mayan Rodrigues à presidência da República.

Voltando ao negacionismo funcional de Cotrim Figueiredo, focando na parte climática, causou vergonha alheia verificar que conseguiu, nos 6 minutos do debate que dedicou ao tema, proferir as seguintes afirmações, totalmente absurdas, as quais aproveito para desmontar, uma a uma:

Afirmação 1: “As pessoas têm que perceber que (…) as funções que o PAN propõe, e muitos outros partidos com agendas ambientais mais radicais, conduzem obrigatoriamente ao empobrecimento dos países, especialmente aquelas que têm a ver com a proteção das alterações climáticas baseadas na redução das emissões.”

A grande parte das emissões provêm da queima de combustíveis fósseis para produção de energia. Combustíveis esses que Portugal não produz, estando, assim, totalmente dependente do seu preço determinado pelos países que o produzem. Logo, é atirar areia para os olhos afirmar perentoriamente que Portugal empobreceria se substituísse estas fontes de energia por fontes de energias renováveis, virtualmente infinitas e que, após montada a rede, apenas têm o custo de manutenção da mesma. O mesmo raciocínio aplica-se à maioria de países, visto que apenas uma pequena minoria extrai combustíveis fósseis. 

Quem empobreceria seriam, isso sim, as poucas multinacionais que controlam e arrecadam a larga maioria dos lucros provenientes do petróleo e outros combustíveis fósseis e que, para manterem essa posição dominante, criam guerra e pobreza em todo o mundo, como podemos constatar em Cabo Delgado. São essas multinacionais que Cotrim Figueiredo quer proteger da pobreza. Não o povo português.

Afirmação 2: “Os países que mais plástico reciclam e tratam são exatamente os países mais ricos”

A quantidade de plástico reciclado por um país não é um indicador diretamente relacionado com um menor impacto ambiental. É, sim, um indicador que consomem muito plástico. Por outro lado, os países mais ricos ou do Norte Global, além da responsabilidade histórica que têm nas emissões de C02 e outros gases de efeito estufa (GEE) são também os que, ainda hoje, mais GEE emitem per capita, como é sobejamente reconhecido. Trazer este argumento para o debate seria o equivalente a sugerir que os EUA seriam o país com melhores políticas tem relativamente a armas de fogo, caso fossme, em simultâneo, o país que mais pessoa salva com ferimentos de bala. Não tem nenhuma lógica.

Afirmação 3: “Se Portugal quer, de facto, ter uma política ambiental consistente e capaz de resolver os problemas ambientais do futuro, tem que começar por crescer economicamente, porque senão não terá recursos para tal”

Supondo que todo o mundo aplicava esta máxima e sendo Portugal, para Cotrim Figueiredo, um dos países que precisaria de crescer mais a nível económico e, consequentemente, continuar a produzir emissões, o que dizer de países do Sul Global? Continuariam a emitir durante 200 anos? Terá Cotrim Figueiredo lido as manchetes relativas ao último relatório do IPCC? Saberá que, segundo este mesmo relatório, teremos que ser neutros em carbono até ao ano de 2050, sendo já estas consideradas estimativas conservadoras?
É realmente preocupante que esta categoria de afirmação possa ser proferida sem haver um choque e repúdio generalizado, nomeadamente vinda de alguém que lidera um partido e que diz não ser negacionista.

Afirmação 4: “Só a menção da palavra emergência climática já faz parte duma agenda. Parece que estamos perante algo que é preciso tratar como uma urgência tal que todos os custos são justificados. Não são. Há um problema de alterações climáticas. A IL não é negacionista. É um problema sério, mas as resoluções, nomeadamente aquelas que tendem a ser mais radicais têm um custo económico brutal e ele próprio, à la longue, produtor de problemas ambientais.”

Segundo o relatório do IPCC, se continuarmos com o mesmo nível de crescimento de emissões, enfrentaremos eventos climáticos que levarão à extinção da espécie humana (e muitas outras espécies), porém, para Cotrim Figueiredo, tentar prevenir as consequências devastadoras que justificam esta urgência, não justifica todo e qualquer custo.

Afirmação 5: “Muitas vezes os planos de intervenção para correção das alterações climáticas estão a ser usados como uma espécie de substituto da luta de classes e como forma de atacar a economia de mercado e de facilitar a intervenção do estado numa série de setores.”

Felizmente o movimento pela luta ambiental, nas últimas décadas, passou de um ambientalismo baseado na atitude individual, ou seja, na promoção de melhores práticas de consumo individual, para outro que entende que o problema é estrutural, tentando ir à raiz do problema, ou seja, às relações de produção. Rapidamente se chegou à conclusão que o problema é sistémico, ou seja, causado pelo capitalismo e pelos seus determinantes de constante crescimento e depredação do meio ambiente, quer através do próprio extrativismo, quer através do consumo que este gera, principalmente, como já foi dito, através da queima de combustíveis fósseis. Além disso, como sabemos, não há uma distribuição igualitária dos produtos essenciais, o que obriga a uma produção bem acima das necessidades e consequente desperdício e há um incentivo constante para o consumo de bens supérfluos. Tudo isto porque o planeamento da produção tendo em vista apenas suprir as necessidades da população e evitar o desperdício é algo incompatível com o ideal capitalista. Mesmo ao nível da produção, que tenta obviamente ser efetuada com o menor custo possível, ou seja, ser mais eficiente, toda e qualquer poupança de recursos para obter a mesma quantidade de produto final representará também uma poupança de capital. Ora, mais uma vez, conforme a teoria capitalista, este capital libertado terá  obrigatoriamente que ser empregue em novos investimentos que, por seu turno, gerarão mais emissões. Por isso, sim, aqui terei que dar razão a Cotrim Figueiredo e percebo a sua preocupação: a fase decadente do capitalismo em que vivemos será, muito provavelmente, atacada pelo movimento pela justiça climática, ou ecossocialista, associado a todos os setores oprimidos que, cada vez mais, se apercebem que na raiz do problema que diariamente os oprime está, invariavelmente, o capitalismo. Luta laboral, luta antirracista, luta anti-xenofobia, luta feminista, luta LGBT e luta pela justiça climática sem luta de classes não chegam à raiz do problema. Como disse Chico Mendes: Ecologia sem luta de classes é jardinagem.

Termino com um conselho para Cotrim Figueiredo que, provavelmente devido aos afazeres da pré-campanha, ainda não terá tido tempo de visualizar o filme do momento: Don’t Look Up. Se precisar de alguém para lhe explicar a metáfora, estarei à sua disposição.

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