O legado de bell hooks

bell hooks faleceu esta semana, aos 69 anos, deixando no mundo, nas mentes e na militância de muitas pessoas uma impressão firme da sua existência e resistência. Nascida Gloria Jean Watkins, adoptou o pseudónimo bell hooks em homenagem à sua bisavó materna e fez da sua vida um contributo teórico e prático para o movimento de libertação das mulheres negras, com vista à superação das divisões por raça, género, orientação sexual, classe etc.

bell hooks foi autora, teórica, educadora queer negra feminista interseccional – desde muito cedo debruçou-se sobre as intersecções de raça, género, classe e outras realidades para entender e explicar as relações sociais, culturais, económicas vivenciadas no sistema capitalista e no seu próprio dia a dia. Partiu da sua perspectiva feminista para enriquecer os debates e os movimentos, especialmente através dos seus escritos. Uma das suas obras mais conhecidas “Ain’t I A Woman” (Não serei eu uma mulher), inspirada na fala de Sojourner Truth em 1851, que ela própria classifica como “uma carta de amor de mim para mulheres negras”, moldou gerações de feministas negras e de militantes nos movimentos sociais e ainda hoje continua a ter impacto. Outra referência é o livro “Feminist Theory from Margin to Center”, que interpela quem luta por mudanças radicais a focar-se nas raízes sistémicas da opressão de forma a entender a necessidade imprescindível de diversificar as pautas, os espaços e os corpos que aí se cruzam, numa dura e merecida crítica ao movimento feminista por girar em torno de mulheres brancas, educadas, de classe média alta (bell hooks intervém fortemente no período da segunda vaga feminista nos EUA). bell hooks e outras feministas argumentavam que o sexismo e o racismo permeiam todos os cantos da sociedade e que as narrativas dominantes de poder glorificam visões de vida heteronormativas e brancas (1).

As suas críticas e contributos sempre contiveram um viés anticapitalista, precisamente pelo entendimento que bell hooks construiu sobre as raízes dos sistemas de opressão, juntando a estas percepções os próprios limites das reformas que são possíveis de alcançar no capitalismo, por ser um sistema baseado na dominação, exploração e opressão, nunca podendo atender de forma igualitária às necessidades de todas as pessoas.  

Sobre a construção de organizações e a possibilidade de uma militância interseccional deixa-nos muitas pistas, como por exemplo no livro Pensamentos Feministas em que escreve: “Para nos confrontarmos mutuamente de um lado e de outro de nossas diferenças, temos de mudar a ideia acerca de como aprendemos. Em vez de ter medo do conflito, temos de ter meios de usá-lo como catalisador para uma nova maneira de pensar, de crescimento”. 

As suas reflexões sobre o papel dos homens são também muito marcantes, sem nunca diminuir a seriedade do abuso masculino ou negar a responsabilidade masculina por ações de exploração, mas entendendo que “a dor que os homens experimentam pode servir como um catalisador chamando a atenção para a necessidade de mudança” (2), ou seja, não era apologista do separatismo nem colocava os homens como o principal “alvo a abater” e interpretava o papel da masculinidade tóxica, das atitudes, crenças e práticas machistas como sintoma da organização dominante. 

Mesmo em tempos recentes hooks continuava a intervir ativamente na vida política e militante, fazendo frente ao feminismo mainstream liberal junto com muitas ativistas, entrando até em polémicas com figuras reconhecidas com Beyoncé ou Hillary Clinton, explicando que a nossa batalha não é por dominação igualitária mas sim por uma agenda interseccional das lutas, nunca abdicando de dizer que “a dependência do feminismo dominante em mulheres brancas, de classe média com as porta-vozes profissionais obscurece o envolvimento, liderança e centralidade das mulheres racializadas e mulheres pobres no movimento pela libertação das mulheres” (3).

bell hooks, com mais de trinta livros publicados sobre diversos temas, como crítica à cultura, memórias, poesia, literatura infantil, sempre partiu da sua postura feminista antirracista e intersecional para interpretar o mundo, dando ferramentas importantes para muitas gerações de ativistas. Deixa-nos com um legado forte, firme e também dialogante, para que possamos construir com e sobre ele as formas de luta, as demandas e a militância quotidiana através de uma visão global, interseccional e revolucionária. 

(1) https://www.jacobinmag.com/2016/02/aschoff-socialism-feminism-clinton-sandberg-class-race-wage-gap-care-work-labor

(2) https://feminisminindia.com/2021/01/06/bell-hooks-indian-feminism/

(3) https://www.plutobooks.com/9780745316635/feminist-theory/

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