Um novo ciclo à esquerda marcado pela unidade

Marcelo Rebelo de Sousa cumpriu com a ameaça de dissolver a Assembleia da República no caso do Orçamento de Estado para 2022 não ser aprovado e marcou já  eleições para o dia 30 de janeiro de 2022.

O presidente, timoneiro da direita, deu assim a possibilidade a esta voltar a disputar o poder antes do fim da legislatura, tentando passar as culpas da crise para a esquerda. Embora a direita esteja a viver uma crise, sobretudo no PSD e CDS, decorrente da sua reorganização, estes setores não deixam de olhar para as eleições como uma oportunidade de voltar ao poder, mesmo que tenham que contar com o apoio do partido neofascista Chega.

A queda do Governo PS pode marcar o fim de um período em que o PCP/PEV e o BE deram apoio ao Governo (embora o BE tivesse votado contra OE de 2021, construindo já uma postura diferente face ao PS desde 2019). O fim desta solução governativa, que se iniciou em 2015, abre assim um novo ciclo político no país e à esquerda devemos também pensar qual a melhor forma de derrotar a direita e extrema-direita.

Neste sentido, ganha importância uma reflexão à esquerda sobre qual a melhor estratégia a adotar para este novo ciclo político.

Uma das hipóteses é o BE e PCP voltarem à estratégia que seguiram até 2015, ou seja, apresentarem-se como partidos de oposição pela esquerda, sem diálogo entre si, apoiando-se nas mobilização e amplificando-as, mas sem disputar ser governo. Recordar que este tipo de estratégia hoje dá-se num ambiente político em que se perspetiva uma queda da esquerda em termos eleitorais nas próximas eleições, levando em conta as duas últimas eleições (Presidenciais e Autárquicas) e as sondagens.

Outra hipótese estratégica é a esquerda retomar o apoio ao PS. Passado estes 5/6 anos, em que a esquerda aprovou Orçamentos de Estado apresentados pelo PS, sabemos bem os limites que esta estratégia nos afigura. Não colocamos em causa o acerto que foi BE e PCP terem viabilizado em 2015 o Governo PS para que a direita — Passos Coelho e Paulo Portas — não se mantivesse no poder, o que permitiu travar e até reverter parte da austeridade. Salientamos que, apesar desse acerto, concordamos com o que PCP e BE apontaram na última discussão de orçamento quando evidenciaram os limites e insuficiências desta solução, mais conhecida por Geringonça. Também se pode esperar que António Costa saia da liderança do PS e venha a ser substituído por um líder de esquerda. O problema desta última solução é que nunca aconteceu o PS ter um líder de esquerda com que a esquerda possa contar. Além disso, todas estas estratégias são perigosas uma vez que não dependem da esquerda e porque o PS já mostrou que não irá além do que ofereceu neste último orçamento.

Para um novo ciclo, a esquerda tem que ousar, optar por uma nova estratégia, colocar-se como alternativa, criar uma polarização à esquerda de combate à direita e extrema-direita e em alternativa ao PS. Para esta estratégia é necessário o diálogo construtivo entre BE, PCP, PEV, CGTP e diversos movimentos sociais (antirracista, climático, feminista e LGBTQI+) no terreno das lutas mas também nas eleições. E, se BE e PCP se apresentarem a eleições sem qualquer diálogo, esta movimentação conjunta desejável torna-se muito mais difícil. Porém, a unidade não pode ser um slogan político que serve de arma de arremesso entre os partidos e grupos de esquerda. As propostas de unidade devem ser reais, porque a unidade é hoje uma necessidade da classe trabalhadora na sua diversidade, face ao recrudescimento da direita e da extrema-direita. Caso fosse possível, o diálogo entre BE e PCP deveria ser já construído em torno das eleições antecipadas, mas, caso não haja tempo útil para o fazer, um sinal de que há intenção de concertar esforços e entendimentos para nos fortalecer nas ruas e no parlamento seria já um passo mobilizador.

Este entendimento à esquerda é importante até mesmo para situações em que se tenha que negociar com o PS – juntos, o BE e o PCP terão mais força para defender os nossos direitos e permitir avanços, até uma alternativa para o país. A criação de espaços de elaboração e atuação coletiva à esquerda são urgentes.

Unidade para quê?

  • Para construir um programa que responda aos problemas da maioria da população e lute por aplicá-lo.
  • Para batalhar por um governo que resolva os problemas estruturais que nos estão colocados, a crise climática, social, económica e pandémica, que ganhe a maioria para um projeto de sociedade diferente daquele que existe hoje.
  • Um acordo em torno da transição energética, mantendo os empregos, uma alternativa que permita investir nos serviços públicos e aumentar salários, que rompa a lógica de um endividamento constante enquanto a nossa qualidade de vida é atacada.

O PS não está disposto a enfrentar qualquer interesse instalado. Mesmo num período de maior estabilidade económica e forçado por não ter maioria absoluta, como foi o início da Geringonça, o governo PS apresentou muitas dificuldades em avançar mesmo no mais básico e sem nunca mexer nas questões estruturais. Com a crise económica na sequência da pandemia podemos esperar ainda menos do PS, é o próprio Costa que o diz. Só a esquerda à esquerda do PS pode ser a força que dê esperança (e com isso possibilidade de vitórias) a quem não consegue ver hoje uma solução melhor do que a Geringonça, combatendo a direita e dando uma alternativa positiva à crise atual.

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