Mobilização nos call-centers Randstad/Manpower conquista aumento salarial

Numa nota divulgada hoje nas redes sociais, o Sindicato dos Trabalhadores de Call-Center (STCC) dá conta de uma importante vitória. Trata-se de um acordo celebrado com as multinacionais Randstad e Manpower (as duas gigantes do outsourcing em Portugal e no mundo) que garante um aumento salarial de mais de cem euros para cerca de novecentos e cinquenta trabalhadores. Esta conquista abrange os trabalhadores destas empresas que prestam serviço para a Concentrix, uma grande multinacional da área dos call-centers que, por sua vez, tem na Apple um dos seus principais clientes.

Tudo começou há poucas semanas, na sequência de um anúncio feito pelas entidades patronais de que iriam cortar um prémio ― nome enganador dado a uma parte do salário, um subsídio, que por ser fixo não pode ser cortado ― auferido mensalmente pelos trabalhadores. O tiro rapidamente saiu pela culatra. Uma efervescência de revolta percorreu centenas de trabalhadores que, indignados, contataram o STCC. Uma parte deles era já sindicalizada, por via de batalhas anteriores, sobretudo no call-center de Braga. Porém, a luta expandiu-se, alcançando uma maioria de trabalhadores de Braga e do Porto (hoje em teletrabalho). Desta onda de revolta rapidamente emergiram novos ativistas que foram eleitos delegados sindicais pelos seus pares. O STCC convocou plenários via Zoom, como tem feito em vários casos desde o início da pandemia, a que compareceram cerca de quatrocentos trabalhadores. Nestes, foi convocada greve para dia 29 de setembro.

Um vulcão adormecido

Desde logo se percebeu que havia explodido um vulcão adormecido. Meses e anos de indignação causada por baixos salários, ritmos alucinantes e pelo assédio moral transformaram-se em exigência e reivindicação: os trabalhadores não só recusaram o corte do prémio, como exigiram aumentos salariais! Neste processo, uniram-se os trabalhadores contratados pela Randstad e pela Manpower, todos os que prestam serviço à Concentrix. Isto impediu as habituais manobras divisionistas e obrigou, pela primeira vez, que ambas as empresas se sentassem, simultaneamente, à mesa com o STCC.

Naturalmente, as entidades patronais começaram por recusar qualquer concessão. Mas a pressão da base, organizada, juntamente com a persistência do STCC quebrou a resistência das empresas. Além da ameaça de greve, os trabalhadores organizaram aquilo que o STCC chamou «desobediência civil»: passaram a desligar-se do atendimento à hora certa, em massa, recusando-se a esticar os seus horários como é habitual acontecer nas horas de almoço e ao fim do dia. Ao mesmo tempo, o STCC manteve a ameaça de greve sempre durante as negociações e as empresas perceberam que se daria uma paragem maciça.

Entaladas, rapidamente Manpower e Randstad começaram a ceder. A nota do STCC relata este rápido recuo das entidades patronais. Segundo o sindicato a abertura para um aumento no dia 17 de setembro «era de “0”, para no dia 23 em nova reunião pedirem-nos entre “6 a 8 semanas para poderem analisar” sem se comprometerem com qualquer valor. E literalmente de um dia para o outro, a dia 24, vêem-se obrigadas a aumentar o salário de todos os trabalhadores em 100 euros!» Provou-se determinante a tenacidade do STCC ao não recuar perante a promessa de «análise» feita pelas empresas.

Uma vitória retumbante

A proposta foi levada aos trabalhadores em nova ronda de plenários, tendo sido aprovada. Assim, foi conquistado um aumento de cem euros que, como diz o STCC, «é um aumento efectivo no salário base, que é exactamente aquela componente que todos nós sabemos que não pode ser “retirada” ou “reduzida”, sob qualquer pretexto. Além deste aumento, Randstad e Manpower ainda vão aumentar o subsídio de alimentação com efeitos já este mês de Setembro, em 1,63 euros (para 7,63 euros diários) o que mensalmente se traduz em mais 35 euros para todos estes trabalhadores!». A greve foi, assim, desconvocada dada a retumbante vitória dos trabalhadores e sindicato.

No atual contexto é, sem dúvida, uma vitória formidável! Ela foi possível porque, ao contrário do que acontece recorrentemente, a mobilização não foi de apenas um grupo radicalizado de trabalhadores, mas do conjunto. Isso foi potenciado pela orientação do STCC de sindicalizar massivamente e estimular a auto-organização democrática dos trabalhadores, com plenários para decidir a luta e a eleição de delegados sindicais. Foi, obviamente, também fruto de anos de luta do STCC, nomeadamente em diversas batalhas contra a Randstad, em particular nas campanhas Concentrix.

Trata-se de um exemplo de que é possível lutar e vencer, mesmo em contexto de pandemia e de teletrabalho. O STCC já se comprometeu e expandir esta luta a outros trabalhadores, nomeadamente aqueles contratados pela Randstad e Manpower que prestam serviço a outras empresas clientes. Fica para o futuro não apenas o exemplo, mas ímpeto de alargar a luta a todo o setor e não só.

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