Devia a esquerda ter-se coligado a Medina para travar Moedas?

A noite eleitoral de ontem foi marcada por uma surpresa: a vitória da coligação de direita que, na capital, derrotou Fernando Medina e interrompeu um ciclo de quatorze anos de governação do PS. Quem se lembra da participação de Carlos Moedas, o vencedor da noite, no famigerado governo de Passos Coelho e de Paulo Portas tem razões para se preocupar. Não é, no entanto, motivo para desesperar.

Não obstante, há quem assevere que a culpa deste resultado é da esquerda ― BE e PCP ― que, ao recusar os supostos convites de Medina para uma coligação pré-eleitoral por ele liderada, abriu caminho à direita. Assim, a culpa da derrota do PS, que dirige o país e a capital, não seria sua, mas da esquerda. Este balanço é conveniente para o PS e, como já foi argumentado, é errado. Ele assenta em equívocos e ― pior ― aponta para um beco sem saída, chantageando a esquerda para aceitar uma submissão permanente ao PS em nome do perigo iminente da direita.

Medina vendeu Lisboa

A Governação do PS, não apenas nos últimos quatro anos, mas nos últimos quatorze, não foi de esquerda. Foi uma Governação em que a cidade, em particular as suas zonas nobres, foram valorizadas em prejuízo ― e não em benefício ― da população. Sobretudo da sua população menos abastada ― não apenas os desesperadamente pobres, mas a juventude trabalhadora, as classes médias assalariadas e muitos reformados. A monocultura do turismo e do alojamento local e a conversão da cidade num recetáculo de capital especulativo estrangeiro mais não foram do que um grande processo privatizante. Mesmo alguns benefícios ― como o reforço de jardins, de ciclovias ou de alguma oferta cultural ― serviram o processo de gentrificação em que o Estado investe no espaço público de forma a valorizar os imóveis privados. Foi assim que o PS expulsou uma parte da sua base social para a periferia (veio a beneficiar disso em Almada, quiçá na Amadora), pagando agora o preço. Outra parte do seu eleitorado, sem lugar nesta nova Lisboa, não se sentiu motivado a votar; outra ainda terá fugido para a direita e a extrema-direita.

Uma parte dos eleitores, provavelmente, castigou Medina votando CDU. Esta migração à esquerda tem sido insinuada para responsabilizar o suposto sectarismo da esquerda pela derrota de Medina. Mas ela foi, infelizmente, marginal. O PS perdeu, face a 2017, 23 329 votos; a CDU reforçou-se em apenas 1 113; o BE, inclusive, desceu um pouco. É falsa, portanto, a explicação adiantada por António Costa de que os votos perdidos pelo PS teriam ido para a CDU.

Foi a governação à direita de Medina que o derrotou. As pontuais medidas de esquerda que o executivo lisboeta concretizou nos últimos anos ― nomeadamente no apoio a pessoas em situação de sem-abrigo, na gratuitidade dos manuais escolares, entre outras ― foram resultado da aliança pós-eleitoral feita com o BE (bem ou mal, é outro assunto) em 2017. Mas essa aliança só foi possível porque o BE impôs a sua força através de uma candidatura e de um programa próprios. Se se tivesse diluído previamente numa coligação nem isso alcançaria.

1 + 1 nem sempre são 2

É verdade que a soma dos votos de Bloco, CDU e PS, à partida, daria a vitória a Medina. Contudo, é errado, inocente ou perverso reduzir balanços eleitorais a aritmética simples. Há exemplos que o comprovam. Vejamos o caso do Livre, que, sim, aceitou uma coligação pré-eleitoral com Medina. Não acrescentou nada à candidatura do PS, nem em votos nem em políticas de esquerda. Nas legislativas e nas europeias de 2019, o Livre obteve mais de 22 mil votos em Lisboa, votos esses que se esfumaram e de nada serviram a Medina ― é verdade que são eleições diferentes, mas aparentemente nem uma parcela mínima dos votos do Livre serviu para combater a direita nestas eleições. BE e CDU veriam esfumar-se grande parte dos seus votos se seguissem pelo mesmo caminho.

Já no espetro oposto, na direita e na extrema-direita, vemos que as candidaturas da Iniciativa Liberal e do neofascista Chega não enfraqueceram o resultado de Moedas. Ainda que sejam campos políticos opostos e não possamos transpor dinâmicas automaticamente da direita para a esquerda, é demonstrativo de como diversas candidaturas numa área política podem ter uma dinâmica complementar, não apenas concorrencial.    

Juntar Forças… à esquerda

Não obstante, não era, teoricamente, impossível uma aliança PS, BE e CDU que, certamente, conquistaria a maioria na autarquia. Mas, ao contrário do que propalam agora Medina e apaniguados para sacudir a água do capote, não foi a esquerda que a impediu: foi a arrogância, a autossuficiência e a sobranceria do edil. Mais: foi a sua total incapacidade de aceitar um programa mínimo que tocasse, ainda que parcialmente, nos grandes interesses instalados em Lisboa que empurrou a esquerda para longe. Uma aliança de esquerda teria de ser de esquerda. Mesmo que o programa de tal coligação se baseasse em cedências, elas teriam de ser feitas de parte a parte. E a CDU e o BE têm, nacional e localmente, provado ser capazes de ceder ― possivelmente até de mais. A culpa da divisão recai, de novo, sobre o PS.

Dirão alguns que tudo isto é certo, mas não é pragmático: para travar a direita há que engolir sapos. O resto seriam utopias.

Foram, no entanto, as exageradas dietas de batráquios que aqui nos trouxeram. É escusado lembrar que durante os últimos quatorze anos não faltaram acordos com o PS em Lisboa. Em 2007, através do já esquecido José Sá Fernandes, eleito pelo BE que, primeiro, se coligou pós-eleitoralmente com Costa, passando, depois, de armas e bagagens para sua corte. Anos mais tarde, em 2017, deu-se o acordo entre Bloco de Esquerda e Medina. Pelo meio, houve a diluição do Movimento Cidadãos por Lisboa, de Helena Roseta, no executivo Camarário que levou ao apagamento de uma importante defensora do direito à habitação. Para não falar, no plano nacional, da prolongada aliança entre PS, PCP, PEV e BE a que se chamou Geringonça.

Destas experiências algumas conclusões se podem tirar. Uma é que, em determinados momentos, alianças pontuais, efémeras, com o PS podem ser justas e necessárias para travar a direita. Mas igualmente importante é verificar que coligações prolongadas com aquele que é, e não vai deixar de ser, um defensor dos grandes interesses privados não só enfraquecem a esquerda, como não contribuem para travar a direita.

Não somos daqueles que culpam a esquerda, e a sua aproximação excessiva ao PS, pelo surgimento da extrema-direita ― isso é simplismo para efeitos de propaganda. Contudo, tampouco concluímos o inverso. O ímpeto que a direita e a extrema-direita podem ganhar após estas eleições só pode ser combatido por uma esquerda forte que se saiba unir em torno de causas que movam milhares de pessoas: a habitação, o emprego, a justiça climática, o antirracismo, os serviços públicos. Todas essas causas são, para o Costa e Medina, trocos: foi, por isso, do bolso roto do PS que caiu Moedas.

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