É um erro a esquerda ir às ruas no dia 7?

O dia de hoje no Brasil será palco de manifestações de bolsonaristas e da esquerda, a tensão aumenta. Há ameaças de Bolsonaro de que não haverá eleições sem voto impresso e o golpe não é algo que se possa descartar. Neste contexto há na esquerda algumas dúvidas sobre qual a melhor estratégia a adoptar para o dia de hoje. O artigo abaixo publicado originalmente no Esquerda Online procura debater porque é necessário sair à rua.

Estamos a poucas horas dos atos de 7 de setembro, quando o país viverá uma medição de forças nas ruas entre os apoiadores de Jair Bolsonaro, que pedem um novo golpe, e a maioria, que reprova o seu governo e defende a democracia. Os bolsonaristas apostam tudo no dia 07 como uma demonstração de força para tentar reverter o desgaste do presidente, que atinge recordes, e evitar um impeachment. Caravanas estão na estrada, priorizando os atos de São Paulo e Brasília, e um forte esquema de robôs entrou em ação nas redes, para que a mobilização aparente ser maior do que é. A operação fascista está apoiada na ação de lideranças evangélicas, ruralistas e policiais militares, base fundamental do bolsonarismo, e defende um golpe no país.

Por outro lado, a esquerda, que recuperou há alguns meses os atos presenciais, até então restritos a carreatas, necessita mostrar que a oposição à Bolsonaro é maioria nas ruas. Precisa juntar milhares nas ruas de dezenas de cidades. É possível que isso ocorra, repetindo o sucesso dos outros quatro atos realizados desde maio pelo Fora Bolsonaro. Mas nesse momento, isso não está garantido.

Para piorar, nos dias que antecedem os atos, dois temas têm tomado conta dos debates nas redes da esquerda. De um lado, há um temor real, diante da possibilidade de confrontos de rua com os fascistas; de outro, muitas pessoas estão preocupadas que os atos de rua possam servir de “pretexto” para um golpe bolsonarista e consideram que o melhor seria não realizá-los.

O risco de algum tipo de confronto existe, de fato. Por isso, é preciso retomar o cuidado com a segurança, procurar ir acompanhado aos atos, com os devidos cuidados sanitários e, acima de tudo, não aceitar nenhum tipo de provocação dos bolsonaristas. Devemos evitar ao máximo o confronto e construir nossos atos de forma pacífica, em lugares diferentes dos deles, e redobrar os cuidados durante o trajeto ao ato. Na dispersão, evitar confraternizações e garantir o retorno em segurança.

É possível ir às ruas, mesmo com a ameaça bolsonarista. Renunciar às ruas é tudo o que Bolsonaro deseja. É justamente o que ele tem tentado, dia a dia, através da intimidação. Por isso, devemos afastar o medo e irmos com toda a força às ruas nesta terça-feira, mostrando que somos a maioria. Devemos buscar a coragem que o momento nos exige, a mesma coragem que temos tido desde que o governo Bolsonaro foi eleito ou desde que assassinaram nossa companheira Marielle Franco.

O outro tema reaparece volta e meia nos debates, como um fantasma. Há pessoas que estão preocupadas em não dar “pretexto” ao golpe bolsonarista, evitando perigo de confronto. Por isso, não querem ir ao ato do 07 pelo Fora Bolsonaro. É também um temor justo. Mas é um erro deixarmos de ir às ruas por isso. Como se sabe, golpistas não precisam de pretextos reais, eles criam pretextos. Pode implantar uma bomba, fazer um ato terrorista, forjar qualquer situação, como se tentou fazer no episódio da bomba que explodiu no RioCentro, ao final da ditadura militar.

Isso pode ser feito por eles, independentemente de haver ou não um ato de esquerda. Não havia ninguém da esquerda em Juiz de Fora, quando ocorreu o episódio da facada, e isso não impediu que uma grande campanha tentasse ligar Adélio à esquerda e ao PSOL, para garantir a eleição de Bolsonaro. Sabemos que o bolsonarismo e o fascismo não tem limites nesse terreno, e aprenderam com Hitler, que aproveitou o incêndio do Reichstag, em 1933, em Berlim, para avançar com o nazismo.

Deixar de ir às ruas por qualquer um dos motivos é um grave erro. Não estamos diante de mais um ato, de um protesto qualquer. Estamos diante de um momento chave, que terá impacto sobre a conjuntura dos próximos meses e sobre o futuro do governo Bolsonaro, que, apesar de viver seu pior momento, mantém a sua base mais ideológica e segue ameaçando a democracia. Nesse sentido, é um grave erro a postura de lideranças da esquerda, como Lula, que não convocou os protestos, e Freixo, que defendeu os atos em outra data, ajudando a esvaziar o protesto.

Precisamos afastar todos os temores e estarmos nas ruas no dia 07 de setembro em todo o país e no exterior, mostrando que a maioria do povo quer o fim desse governo criminoso e não compactua com saídas golpistas. Somos a maioria e a maioria não pode ceder ao fascismo o protagonismo nas ruas. Esse sim seria um erro fatal.

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