Os antivacinas e o Almirante

O coordenador da Task Force da vacinação, o Almirante Gouveia e Melo, foi ontem abordado em Odivelas por um pequeno grupo de manifestantes antivacinas. O militar, sem a postura fria e séria que supostamente justificaria a sua escolha para o cargo, respondeu: “O negacionismo e o obscurantismo é que são os verdadeiros assassinos.”

Quem sabe da importância da vacinação e o perigo que é o movimento antivacinas pode sentir-se tentado a simpatizar com a reação veemente do Almirante. Quem, mesmo não sendo antivacinas, está preocupado com os laivos autoritários da gestão da pandemia feita pelo governo e por este arrogante militar, irá, quem sabe, empatizar com os manifestantes.

Mas se virmos a questão de forma mais crítica, talvez possamos concluir que o Almirante e os manifestantes são reflexos de um mesmo problema…

Vacinação: essencial, mas não milagrosa

A vacinação global da população, nacional e mundial, é necessária. Urgente, mesmo.

A estratégia deve ser a de eliminar a doença, não a de conviver com ela através de uma suposta “imunidade de grupo”. Para evitar o surgimento de novas estirpes imunes à vacinação, ela tem de ser rápida e global, o que só é possível com a quebra das patentes. Porque enquanto, no planeta e em cada país, houver milhões de pessoas não vacinadas, o vírus continuará a grassar e, em contacto com aqueles que estão vacinados, terá a possibilidade de evoluir e quebrar as barreiras imunitárias criadas pela vacina. Assim, surgirão novas vagas que exigirão novas vacinas, o que enriquecerá ainda mais as farmaceuticas, equanto caímos numa espiral pandémica imprevísivel. (Sim, ao contrário do que rogam os conspiracionistas, é a ausência de vacinação total que mais pode levar as farmaceuticas a lucrar.) Infelizmente, enquanto se persegue um objetivo de vacinação global, medidas restritivas, uso de máscaras e distanciamento social serão necessários – mais nuns momentos, menos noutros.

Ou seja, a vacinação é urgente e vital. Mas não resultará em milagres, ao contrário do que nos prometem.

A abordagem neoliberal à pandemia: autoritarismo…

Posto isto, a desconfiança face à vacina ou a mera indiferença (que em Portugal, apesar de tudo, ainda é pequena) resulta, entre outras coisas, de não ser feita esta pedagogia. Não há, da parte das autoridades, uma abordagem permanente e pedagógica sobre a importância da vacinação; não há uma explicação sobre se pretendem ajudar a eliminar o vírus ou conviver com ele; o argumento mais comummente usado para justificar a vacinação é o da proteção individual e o da retoma liberdade individual, não o da necessidade de erradicar a doença.

A abordagem pedagógica tem faltado e, na sua ausência, tem sobrado o autoritarismo. Não nos referimos à política do certificado digital, que restinge, sobretudo, alguma liberdade de consumo, em restaurantes ou eventos culturais, infelizmente já de si limitada a quem tem posses para a exercer. Nem às várias quarentenas, que não só foram necessárias como foram, em grande medida, exigidas pela população. Estamos a falar, sim, da banalização do Estado de Emergência; das incursões policiais a tiro na Quinta do Mocho; na cerca sanitária ao Bairro da Jamaica ou à comunidades ciganas; ou do recente, desnecessário e ilegal recolher obrigatório. É verdade que os opinion makers que clamam pelo regresso da “liberdade” ou contra o”totalitarismo” nem pestanejaram, na maioria dos casos, quando a população pobre e racializada foi alvo de repressão. Mas, de qualquer forma, o período de pandemia tem sido atravessado por uma reforço dos meios coercivos, que sempre fomentam uma revolta latente.

Tudo isto, enquanto grandes empresas descumpriam impunemente a obrigatoriedade do teletrabalho, gerando até surtos de covid-19. Para não falar da recusa do governo português, como tantos outros, em avançar para a quebra das patentes das vacinas, colocando o lucro das farmaceuticas à frente da vida das populações.

E individualismo…

Ao mesmo tempo, fomenta-se o individualismo, que é o principal combustível da deriva antivacinas.

Veja-se o caso do próprio Almirante Gouveia de Melo. Numa entrevista à Agência Lusa, ele afirmou: “Não tomarei a vacina enquanto não tiver a certeza de que grande parte dos portugueses, na sua maioria, estão vacinados. E se for convocado para tal, vou pensar, com três estrelas já ninguém me obriga a vacinar”. Ainda que a ideia que transparece seja muito heróica ― na verdade populista e politiqueira ― a mensagem é muito perigosa. O que o Almirante diz é que ele, responsável máximo pela vacinação, não se sujeita às prioridades definidas pela campanha de vacinação e que quando for chamado vai “pensar” ― porque a ele, que é Almirante, ninguém o “obriga”. Que moral é que tem depois para acusar de assassinos aqueles que, tal como ele, não querem ser obrigados? Não é que a ideia de vacinação obrigatória seja descabida; deve até ser ponderada. Mas é evidente que, com esta abordagem, só gerará raiva.

Mesmo quando os exemplos são mais positivos, prima uma mensagem das autoridades focada na responsabilidade individual. Cabe a cada um vacinar-se; cabe a cada um não frequentar festas; cabe a cada um proteger-se… Ora a consequência desta responsabilização individual é a ideia que se cabe a cada um vacinar-se, é igualmente decisão de cada não o fazer. A liberdade e a responsabilidade já não estão em travar a doença e proteger a sociedade, mas na proteção individual de cada cidadão, desligado dos seus pares. Remete-se a solução de uma pandemia ― social, coletiva e global, por definição ― à esfera individual.

Autoritarismo, individualismo e a total incapacidade de pôr em causa os grandes interesses económicos, assim tem sido a abordagem do governo à pandemia e à vacinação. A isto chamamos a abordagem neoliberal à pandemia. A frustração social e o ceticismo são fruto dela.

Riscos para o futuro

É certo que a frustação social que alimenta o movimento antivacinas e o negacionismo é ainda ténue no nosso país, se comparada com França, por exemplo. Mas se, como tudo indica, novas vagas surgirem, obrigando a novas restrições, depois de se ter prometido a resolução definitiva dos problemas através da vacinação, a tensão irá aumentar. Os antivacinas irão multiplicar-se.

A apresentação da vacinação como uma responsabilidade individual fomenta a ideia de que é, por isso mesmo, uma escolha individual ― são duas faces da mesma moeda.

O choque entre os antivacinas e o Almirante é o encontro desses dois lados do problema: a abordagem individual, autoritária, não-pedagógica e paternalista a um problema seríssimo. São duas facetas complementares da abordagem neoliberal à pandemia.

O Almirante, ontem colheu, os frutos da sua farda, da sua “guerra” e do seu paternalismo. Mas não lhe fará diferença, pois os frutos podres, quiçá mortais, serão colhidos pelos mais pobres, pelos mais oprimidos e marginalizados, não por ele.

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