Foi o ódio racista quem matou Bruno Candé e só a unidade nos poderá salvar

No dia 25 de Julho de 2020, em plena luz do dia e numa das avenidas mais movimentadas de Moscavide, Bruno Candé, com 39 anos, foi executado friamente por Evaristo Marinho, com 79 anos . O ex soldado de Portugal nas guerras coloniais impostas nos territórios africanos subjugados para exploração disparou 6 tiros contra Bruno, 4 deles fatais, após ameaçar várias vezes e após proferir injúrias racistas como “Vai para a tua terra preto! Tens a família toda na senzala e devias também lá estar!”.

O tribunal de Loures condenou o assassino a 22 anos e nove meses de prisão efetiva por homicídio qualificado e posse ilegal de armas. A sentença atribuída a Evaristo se torna histórica na medida em que consta na declaração proferida pelo magistrado que o assassinato foi perpetrado por motivos de “ódio racial”.

Ainda assim, a sentença nos deixa com uma sensação amarga de meia vitória. Isso porque, apesar da conquista coletiva que foi constar a motivação de ódio racial, o Bruno não voltará. Não só o Bruno não voltará como Portugal segue sendo um país racista com poucas políticas para garantir que não haja mais vítimas de crimes racistas pelas mãos de ninguém: nem de Evaristos e nem da polícia. Por outro lado, a sentença não nos tira a derrota de ver ainda o racismo a ser tratado como problema comportamental ou individual, retirando da discussão não só a problematização do papel do império português no tráfico de pessoas para escravização como também o papel do estado português no assassinato de Bruno Candé através da mão pesada e impiedosamente racista do indivíduo que disparou 6 tiros com uma pistola que lhe foi confiada e com o conhecimento que lhe foi dado pelo estado para matar pessoas negras na guerra colonial.

O problema do racismo é um problema que massacra, mata e retira qualidade de vida às pessoas não-brancas mas é, sobretudo, um problema da branquitude pelo que estar comprometida e envolvida com a luta antirracista do ponto de vista de uma pessoa branca e europeia não pode ser na condição de “aliada”, deverá sempre ser na condição de quem compreende que a única saída coletiva é assumir a luta contra o racismo como uma luta de todas.  Mas a unidade na luta contra o racismo não poderá, como não pode nenhum dos aspetos que se prendem com o debate sobre o tema, se focar na unidade centrada nas individualidades de quem luta, também as organizações das trabalhadoras deve assumir essa necessidade como central nos momentos vários do combate político contra os discursos populistas da direita e extrema-direita.

Por isso, pelo nosso avanço conjunto, vale festejar as meias vitórias, mas com a compreensão de existe ainda muito trabalho pela frente.

Nem mais uma vítima da violência racista! Nem pelas mãos do estado e nem pela mão de Evaristos!

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