O que podem os socialistas aprender com o #MeToo?

Parte 01 de 02

Publicado originalmente no site Socialist Worker, escrito Elizabeth Wrigley-Field traduzido por Clara Sandra.
Nota de tradução: Escolhi seguir uma tradução masculina para o agressor e feminina para a sobrevivente tanto na especificidade do caso em questão como nas partes em que a autora fala em situações abrangentes. De referir que tenho conhecimento que existem casos de violação por parte de mulheres e que não se pretende desta forma descurar ou inviabilizar; mas que essa não é a maioria e estatisticamente os casos de violação de homens por mulheres são residuais.

Desde a  revelação devastadora da forma grosseira com que militantes da nossa liderança nacional – incluindo a nossa então organizadora nacional – lidaram com  uma acusação de agressão sexual, a nossa organização está abalada.

Estamos furiosos e tristes, e a recém eleita direção pela nossa recente convenção tomou uma série de medidas imediatas incluindo expulsões e suspensões que são mencionadas na carta enviada aos militantes da ISO do Comitê Diretivo na semana passada.

Estamos no processos de criação de uma comissão nacional do movimento #MeToo (decidido na convenção) com o intuito de documentar testemunhos das nossas militantes, ex-militantes e aliados do movimento de forma a compreender onde a nossa cultura e os nossos processos/procedimentos têm que ser alterados. (Fui uma das apoiantes desta comissão e faço parte do grupo que tem a tarefa de a organizar/criar.)

Também formamos uma convenção política de militantes e ex-militantes que irá liderar a nossa resposta a esta crise em coordenação com a nossa recém eleita direção.

Estas respostas imediatas são meramente um início no processo de compreensão sobre como permitimos que isto acontecesse, o que significa a forma como organizações socialistas precisam de atuar para arrancar a cultura de violação do âmago das nossas organizações, e como se pareceria um movimentos socialista que centralizasse os sobreviventes.  

Estas são questões para a esquerda como um todo e precisam de ser respondidas em diálogo com outras organizações e tradições políticas. Mas nós temos a responsabilidade de iniciar e fomentar esse diálogo.

Este artigo pretende iniciar uma vertente desse diálogo. Acredito que uma forma de compreender o que a nossa organização fez de completamente errado em 2013 e o melhor da nossa resposta em 2019 – e como nunca mais repetir a primeira e fortalecer a segunda – é articulando as lições do movimento #MeToo.

Uma nota pessoal sobre 2013

Em 2013, eu vivia na mesma cidade que o violador – Madison, Wisconsin – e nós éramos bons amigos até ao dia em que o nosso núcleo da ISO teve conhecimento da acusação de violação na qual eu acreditei de imediato.

Senti-me mal pela sobrevivente e por ter falhado em perceber o caráter do meu amigo. Também senti medo, pessoalmente, pois acreditava que o violador tinha uma chave da minha casa e receei que após o termos expulso, como assumi que faríamos, ele procurasse retaliação.

Nunca li a carta de qualquer uma das partes (eram confidenciais), mas não senti que era necessário para acreditar nas alegações. Meses antes tínhamos assistido à queda do Partido Socialista Trabalhista Inglês por terem coberto uma violação, os meus camaradas e eu vimos com horror e comprometemo-nos pessoalmente e como organização: Nós faremos/seremos melhor que isto.   

No entanto, embora tenha acreditado imediatamente que a acusação era verdadeira, ao longo de vários meses fui relutantemente convencida pelos nossos processos que talvez não fosse. A nossa liderança/coordenação nuclear usou a pretensão de confidencialidade e protecção da sobrevivente (cujos interesses é agora óbvio que nunca importam) para esconder informações importantes, incluindo uma votação dos camaradas que tínhamos eleito para tratamento da situação, em que a expulsão do violador foi unanimemente aceite.

No final do nosso processo eu acreditei que cerca de 15 dos meus camaradas, incluindo camaradas mulheres com quem tinha intimamente trabalhado em iniciativas feministas anteriormente, tinham visto ambas as cartas e teriam cada um, em 5 grupos separados que não tinham contato com os outros concluído que não existiam indícios suficientes para expulsar o violador. Agora sei que isso não é verdade.

Na realidade, o nosso comité disciplinar nacional foi intimidado a reverter, por motivos processuais, a votação da qual nunca fomos informados; o nosso comité nacional de apelações recebeu instruções destinadas a produzir uma conclusão de evidências insuficientes; os nossos militante de Madison, incluindo o suposto defensor do sobrevivente, acreditavam em mitos sobre como são as verdadeiras histórias de violação; e a nossa organizadora nacional estava mais preocupado em fazer tudo desaparecer do que em fazer a coisa correta.

Passei 6 anos com sentimentos de culpa por ter aparentemente ofendido o meu amigo por presumir que ele seria culpado sem ter ouvido o seu lado da história, mas simultaneamente voltando a questionar-me mas não era a resposta correta? Não é assim que eu quero responder novamente?

Nunca consegui compreender como conjugar esses dois pensamentos e esse conflito assombrou-me durante 6 anos, até há pouco mais que uma semana atrás, quando recebi o documento da denunciante, e vi as peças que me haviam sido escondidas e soube imediata e irrevogavelmente que a acusação tinha sido verdadeira todo aquele tempo.

Isto faz parte da história: como os nossos processos servem para fazer muitos de nós duvidar do nosso próprio julgamento e de coisas que sabemos serem verdade.

Acreditar na sobrevivente

Acredito que muitos fios de política incorreta foram entrelaçados no processo que resultou no desaparecimento da acusação de violação em 2013, apesar do profundo alarme de muitos de nós que sabíamos dela. O primeiro fio que devemos começar a desvendar é a cultura de violação.

O ex-militante que acredito ser um violador escreveu um e-mail impressionante para alguns de nossos militantes quando tudo foi divulgado na semana passada.

O e-mail (que nós na ISO não continuamos a partilhar para evitar causar qualquer dano adicional à sobrevivente) parecia-me ter sido projetado para obter credibilidade de uma série de ideias difundidas sobre violação: que a violação é sempre violenta de uma maneira óbvia; que nunca é cometida por pessoas carismáticas e que professam valorizar as mulheres; que tirar vantagem de uma mulher que bebeu é diferente de outras formas de violar o consentimento; que as mulheres inventam alegações de violação em resposta à raiva após o sexo consensual. Todas essas ideias são mentiras.

Trágica e irritantemente, acredito que a resposta de alguns ex-militantes do núcleo da ISO em Madison ecoou mitos sobre violação e isso influenciou a maneira como eles avaliaram a plausibilidade do relato do violador e da sobrevivente.

Através de conversas que tive durante a última semana com pessoas que estavam no núcleo da ISO de Madison em 2013 – conversas que fomos impedidos de ter na altura – agora sei que alguns então militantes – que eram centrais para o processo da ISO de determinar o que tinha acontecido tinham sido fortemente influenciados pela suposição errada que os sobreviventes de violação reconhecem imediatamente o que lhes aconteceu e entendem o acontecimento da mesma forma ao longo do tempo.

O movimento #MeToo trouxe para a discussão pública as experiências das sobreviventes, e essas experiências deixam claro que essa suposição simplesmente não é o caso.

As sobreviventes têm muitos motivos para se protegerem de providenciar um relato completo do que lhes foi feito, incluindo por vezes em novas interações com seus violadores. Às vezes, emoções positivas que elas têm sobre seus violadores (muitas sobreviventes foram violadas por pessoas de quem gostavam ou amavam) e, às vezes, medo de danos futuros, tornam difícil reconhecer a extensão das ações dos seus violadores.

Por vezes, quaisquer que sejam os significados que atribuímos ao que significa ser sobrevivente de violação são bagagem que resistimos a incorporar em nossa conceção de nós mesmos.

Temos que desconstruir muito do que aprendemos sobre violação, violadores e sobreviventes de violação, e aprender com o que as sobreviventes  nos ensinam.

Total respeito pelas sobreviventes, mas sem ceder ao sigilo.

Uma das minhas crenças mais profundas é que todas nós possuímos as nossas próprias histórias. #MeToo destacou como as formas específicas com que as instituições respondem à violência sexual podem nos forçar a violar princípios esses princípios básicos.

Tenho experiência pessoal com esta questão: o mais suja que já me senti foi quando, na minha qualidade de professora, recentemente preenchi um formulário para relatar ao escritório da minha universidade que lida com violações do Título IX a agressão sexual que uma aluna da minha aula me revelou, mas não consentiu que fosse divulgado daí em diante.

A posição da minha universidade é que deixar de relatar as agressões dos alunos viola seus direitos civis (e, portanto, como funcionários da universidade podemos perder os nossos empregos se não enviarmos estes relatórios); muitas feministas discordam. Acredito que, quando alguém teve o controle sobre seu corpo e a sua vida retirado, é imperativo que retenha o controle sobre sua própria narrativa.

Na investigação de 2013 em Madison, este respeito pela privacidade foi usado contra nós. Claro, estávamos certos em respeitar a confidencialidade do sobrevivente. Mas nosso respeito por esse direito foi pervertido pelo nosso núcleo de liderança para nos impedir de falar uns com os outros sobre a acusação sob o artifício de proteger a sobrevivente.

Em conversas na semana passada, tornou-se óbvio para mim que se aqueles de nós que vivem na cidade do violador que instintivamente acreditaram na acusação tivessem sido capazes de encontrar e falar uns com os outros ou com os  do comité disciplinar e do comité de apelação que investigou , teria sido claro para muitos de nós o que estava a acontecer.

No entanto, fico com muitas questões sobre o que significa proteger as histórias das sobreviventes, de manter essas histórias no seio do menor número de pessoas quando é isso que a sobrevivente quer, sem abrir espaço que para que uma mão cheia de pessoas possam agir sem terem consequências reais, e para aqueles que podem discordar, serem mantidos no escuro com apenas fragmentos de informações que só fazem sentido quando [e se] são encaixados.

Muito do movimento #MeToo tem sido sobre dizer em voz alta aquilo que antes era só sussurrado, e sobre pessoas a agir em conjunto, inspiradas e solidariedade umas pelas outras e que só podem fazer isso porque as histórias finalmente foram trazidas à luz. Estou a pensar particularmente nas muitas sobreviventes que se chegaram à frente por sentirem solidariedade com outras sobreviventes que acusaram o mesmo agressor. Esse entendimento de solidariedade, geralmente entre completas estranhas, foi para mim um dos aspetos mais inspiradores do #MeToo.

Na comissão #MeToo que estamos a organizar, uma das coisas que estamos a explorar – apreendido das discussões de campanhas dentro do campus sobre agressão sexual que muitos de nós da ISO fizemos parte – são formas de dar às sobreviventes e aquelas que experimentaram comportamentos sexistas um maior controlo sobre as suas histórias.

Muitas de nós temos a experiência de ignorar o que parecem ser pequenas ofensas cometidas por pessoas que presumimos serem bem-intencionadas, mas que sentiríamos de forma diferente se soubéssemos que o que vivenciamos faz parte de um amplo padrão de comportamento.

A comissão #MeToo espera ouvir muitas experiências em que a pessoa que relata a agressão não pretende qualquer compensação em particular mas somente registar a situação como algo que não deveria ter acontecido.

E se, quando uma camarada relata estas experiências, pudesse deixar registada a intenção de contacto, quando existem relatos de outras sobreviventes com experiências com o mesmo abusador/violador? E se essas camaradas pudessem decidir, em conjunto, se a ofensa é pequena, e como deveria ser tratada?

Começar com a verdade e o dano causado, não com regras e procedimentos.

Uma leitura de onde erramos é que nosso processo era obcecado por procedimentos e não pela verdade ou pela mitigação de danos.

As regras são importantes: elas podem apaziguar os nos piores instintos. As regras dizem-nos quais as características de uma situação são relevantes e que respostas devem ser acionadas. Acreditar nas sobreviventes é uma regra que nos diz que o nosso julgamento sobre situações individuais provavelmente será distorcido por mitos na violação,, lealdade pessoal e o que desejamos que seja verdade, mas que podemos tentar ignorar esses impulsos.

A nossa regra na ISO de que, sempre que uma acusação severa é feita contra um membro, suspendemos imediatamente até que saibamos o que aconteceu, é uma boa regra (uma que agora acredito que nem sempre seguimos). Seja o que for que venhamos a mudar, vamos manter essa.

Mas a nossa veracidade não é com as regras, é  com a verdade. O nosso mais alto princípio deveria ser a busca pela verdade de todas as formas que forem consistentes com os nossos princípios. Então, por exemplo, a nossa comissão #MeToo não deve abordar as pessoas procurando histórias de maneiras que possam traumatizá-las ou violar sua privacidade – violando os princípios de não causar mais danos às sobreviventes e respeitar o fato de todos terem as suas próprias histórias – mas devemos disponibilizar todos os meios para ouvir histórias difíceis de ouvir.

Quando acreditamos piamente que as nossas regras são uma barreira para descobrir a verdade, então [para o diabo] com as regras.

Mas a abordagem adotada pela nossa organizadora nacional em 2013, e por meio dela a abordagem adotada pelo representante do Comité Diretivo no comité disciplinar e por todo o comité de apelações, foi precisamente o de privilegiar as regras acima da verdade.

A certa altura, essa organizadora enviou uma carta à comissão disciplinar expondo os supostos erros do órgão, como justificativa para retirar a determinação do que fazer dos companheiros que (agora sabemos) já haviam votado para expulsar o violador e dar autoridade em vez disso, para um novo órgão (o comité de apelações) que operaria com uma competência radicalmente limitada.

Esta carta soa como um esboço de Monty Python – particularmente uma parte que faz uma análise ao estilo de Bill Clinton dos significados do passado e do futuro para argumentar que o comité disciplinar estava errado ao tentar perceber com os camaradas de Madison se a pessoa acusada de violação também tinha uma história de usar predatoriamente sua posição na ISO para encontrar parceiras sexuais.

As instruções dadas por aquela organizadora ao comité de apelações enfatizaram muito o fato de a sobrevivente se ter recusado a participar do processo da ISO além de nos contar a sua história – como se não pudéssemos avaliar a plausibilidade óbvia de suas afirmações sem também ouvi-la dizer “Não, ele está mentindo” sobre as mentiras que seu violador contou sobre ela em seu próprio relato. (Esperar isso dela, claro, é monstruoso.)

Então, uma leitura é que aspetos do nosso processo estavam tão focados em seguir um processo bizarramente legalista (elaborado e realizado por pessoas sem nenhum conhecimento jurídico real) que eles perderam de vista a tarefa diante de nós, que era decidir se temos bons motivos para pensar que essa pessoa já não deve ter permissão para participar do nosso grupo.

Por muitos anos, essa mesma organizadora nacional, que interveio para revogar a decisão do comité disciplinar neste caso, também usou do seu julgamento pessoal, sem qualquer procedimento (ou responsabilização) para passar veredictos sobre qualquer alegação que chamasse à atenção da nossa secção nacional.

Na realidade, a sua intervenção neste caso de 2013 foi, em si mesma, uma violação das nossas regras, dado que o objetivo do novo corpo disciplinar nacional era ser independente do nosso Comité de Direção.

Para parafrasear um(a) camarada minha numa conversa recente sobre este paradoxo, sempre falamos no pressuposto que o que define a burocracia é a sua obsessão por procedimentos em detrimento daquilo que é sensato ou correto. Mas, honestamente, não são as burocracias geralmente definidas exatamente por esta aplicação seletiva das regras – inflexível quando isso serve aos interesses de suas autoridades, mas muito mais flexível quando convém às autoridades que assim o sejam?

Acredito que o que as regras realmente fizeram foi fornecer um verniz de legitimidade ao interesse dos nossos organizadores em enterrar o caso e proteger a organização de perdas: uma perda de legitimidade, de um membro energético e talvez de outros em nossa liderança que o apoiaram veementemente.

As regras abriram caminho, como costumam fazer, para mudar a conversa. Tudo o que nos foi dito sobre o andamento do caso foi organizado em torno da questão de saber se o comité disciplinar havia seguido os seus próprios procedimentos. O que se perdeu foi a questão de saber se nosso membro havia violado alguém.

Isto também é reconhecido no movimento #MeToo mais amplo. No seguimento das exposições de sobreviventes atrás de sobreviventes vimos a discussão a ser alterada para questões procedimentais: “Porque não expôs isto mais cedo? Como podemos acreditar em ti se não tivemos um processo legal?” E aprendemos também a resistir a essa ofuscação.

Esta é uma dualidade de pensamento que está no centro do problema que tivemos na ISO: nós estávamos a seguir o nosso processo – só que não estávamos. Eu penso que isto se relaciona fortemente com outra dualidade que o movimento #MeToo expôs brilhantemente: não nos podemos dar ao luxo de perder pessoas valiosas – mas nunca parámos para pensar sobre aquelas que estávamos a perder por causa dessas pessoas.

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