Uma nova Intifada palestina está surgindo? Notas sobre a resistência contra o plano de “judaização” sionista de Jerusalém Oriental

Imagem: Palestinos formam o desenho do Domo da Rocha com as balas de borracha e granadas disparadas pelas forças de segurança israelenses

Roberto “Che” Mansilla*, do Rio de Janeiro, RJ Publicado em esquerdaonline em: 11/05/2021 04h22

Desde a última quinta-feira (06 de maio) acompanhamos o recrudescimento da violência estatal de Israel contra os palestinos. Esta nova escalada do terrorismo de Estado sionista teve origem na mobilização de moradores palestinos do bairro Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, contra o despejo programado de quatro famílias de suas casas, realizada em conjunto pelo governo de Netanyahu e de grupos extremistas de colonos judeus. Trata-se de mais um capítulo de violações à lei internacional, ao despejar famílias palestinas da área ocupada para dar lugar a colonos ilegais que precisa ser denunciado.

A violência estatal de Israel assumiu uma nova forma de intolerância, desrespeito e até profanação a religiosidade do povo palestino, com a invasão da Mesquita Al-Aqsa, na sexta (07 de maio), um dos pontos mais sagrados do Islã. Após a oração matinal do mês do Ramadã, a polícia israelense atirou bombas, balas de borracha, ferindo dezenas de pessoas que deixavam o local. É, portanto, mais um retrato da barbárie sionista, como parte contínua da Nakba (“catástrofe”) palestina de 1948, que no próximo dia 14 de maio, completará 73 anos.

judaização de Jerusalém: um novo capítulo da limpeza étnica

O despejo de famílias de Jerusalém Oriental faz parte da política de judaização sistemática da parte palestina da cidade, que espera estabelecer um grande projeto de assentamento com 600 unidades habitacionais para abrigar novos colonos sionistas. Está sendo realizada em conjunto pelo governo israelense de Netanyahu de grupos políticos extremista de colonos judeus.

Como diz a jornalista Rita Freire, “a justificativa para a violência em Sheikh Jarrah e na Mesquita de Al-Aqsa parece um jogo de espelhos, em que o Estado ocupante atua para trocar de narrativa com o povo ocupado”.

Fica evidente, portanto, a continuação do projeto sionista de impor o apartheid aos palestinos, ignorando as decisões das Nações Unidas, dos tribunais internacionais e da Liga Árabe. Mas para Israel isso é um mero detalhe, uma vez que não mede esforços em caracterizar as fundações do complexo de Al-Aqsa como “local sagrado para os israelenses” que tem o projeto, inclusive, da demolição da sagrada mesquita, como parte da disputa do sionismo por Jerusalém. Isso pode ser visto no documentário Caminho para a judaização de Al-Aqsa, em que apresenta argumentos de grupos extremistas judaicos como sedimentação política para esse terrível projeto (mais um de limpeza étnica) e que os levaram a obter uma porcentagem significativa das cadeiras no parlamento (Knesset).

Todas as agressões que Israel fez (e continua fazendo) na Palestina ocupada são deliberadas para deslocar os palestinos de suas próprias terras e substituir a população nativa para atender a demanda de uma nova leva de colonos. De acordo com Jamal Ghait, o colonialismo sionista procura intensificar seus projetos racistas e esvaziar as aldeias, bairros e a cidade de Jerusalém e seus arredores, além do Vale do Jordão como um “esforço contínuo e sistemático para alterar sua demografia através de um processo de supremacia judaica e falsificação da história”(5)

É importante lembrar que os planos de judaização de Jerusalém tem muitas décadas (6) e o estabelecimento do Muro do Apartheid (2004), que separa uma extensa área de habitantes palestino (com cerca de 100 mil habitantes) é apenas um dos episódios desse processo, embora haja outros mais recentes, como o plano de Israel para judaizar a educação em Jerusalém. (7)  A limpeza étnica da Palestina, com raízes em 1948, continua até hoje.

Uma nova (velha) profanação

Além do novo capítulo do colonialismo do Estado israelense, o que mais chamou a atenção e provocou reações em vários lugares do mundo foi o desrespeito e a profanação feita pelo sionismo, na invasão pela polícia israelense à Mesquita Al-Aqsa, um dos locais mais sagrados para o islã. Vale lembrar que não foi a primeira vez que uma provocação dessas ocorreu. No final de setembro de 2000, Ariel Sharon, à época porta-voz do partido direitista de oposição (ao governo do trabalhista Ehud Barak), invadiu a Esplanada das Mesquitas, escoltado por policiais e soldados fortemente armados, numa clara provocação e desrespeito a religiosidade dos palestinos. Sharon, à época disse: “Sob um governo Likud [a mesquita de Al-Aqsa] permanecerá sob soberania israelense”. A reação foi a segunda Intifada palestina (revolta popular) que durou cinco anos e resultou em 3000 palestinos mortos (o número de soldados israelenses mortos foi de 1.000). (8)

Mas agora houve uma incursão à Mesquita Al-Aqsa em Jerusalém (dia 07 de maio) onde a polícia, com bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha feriu 10 pessoas que deixavam o local sagrado, após a oração matinal. E novamente a reação foi imediata. Jovens palestinos responderam jogando pedras e garrafas na polícia. Alguns foram presos. Mas a situação não se acalmou 200 palestinos ficaram feridos e outras dezenas foram presas. Israel, por sua vez, informou que um soldado foi ferido! O final de semana foi bastante tenso com relatos de uma enorme e desproporcional violência estatal israelense. No sábado (08), de acordo com a ONG Crescente Vermelho pelo menos 90 palestinos ficarem feridos e 14 foram levados ao hospital.

E, nesta segunda-feira, 10, foi um dia ainda mais sangrento para os palestinos. Foram atacados pelas forças de segurança de Israel durante toda a manhã, enquanto o regime sionista exaltava “o Dia de Jerusalém” que comemora a invasão de Jerusalém Oriental em 1967, que é habitualmente pretexto para marchas nacionalistas pelo local. A cidade ocupada foi posteriormente formalmente anexada por Israel num movimento que permanece não reconhecido pela comunidade internacional.

Até o momento em que escrevo 8 mil palestinos protestavam no Portão de Damasco, em Jerusalém Oriental e havia mais de 278 feridos na manhã dessa segunda-feira, no complexo da Esplanada da Mesquita. (9) E também a Faixa de Gaza estava sob bombardeio e já havia relatos de várias duas dezenas mortes de palestinos, incluindo crianças.

O início de uma nova Intifada palestina?

Talvez seja cedo para afirmar que estamos diante de uma nova Intifada, levante autônomo dos palestinos contra a ocupação israelense, um exemplo de ação direta, consciente e mobilizadora, sobretudo de jovens.

Mas há uma série de fatos importantes, cujos acontecimentos que estamos assistindo em Jerusalém Oriental injetaram ânimo, coragem e vitalidade na causa palestina. Há, de fato uma situação explosiva, depois de anos de relativo silêncio e invisibilidade por parte da mídia dominante.

Destaco cinco pontos que podem servir de uma reflexão, para a retomada de um novo ascenso da resistência palestina:

  1. Como me disse Waldo Mermelstein, é a primeira vez, em anos, que os palestinos de todo o território de Israel se mobilizam pelo tema da expulsão definitiva dos habitantes desalojados pelos colonos. Vieram centenas de jovens da Galileia e de Jaffa, onde também ocorreram manifestações.
  2. A luta de massas dos palestinos cobra sua conta dos governos árabes. É preciso que estes tenham posicionamento mais claro sobre a questão palestina, mesmo aqueles governos que tem algum tipo de relação (ou conciliação) com o governo sionista. A Jordânia, por exemplo, condenou os ataques bárbaros israelenses. Mas terá de fazer mais, pois é a guardiã oficial dos locais sagrados do Islã em Jerusalém.
  3. A causa palestina se espalha, apesar da censura. Há informações de que o Instagram fechou algumas contas de ativistas que transmitiam vídeos da Palestina e da Mesquita de Al-Aqsa, e isso mostra que as corporações mundiais não respeitam nada além da linguagem do poder.
  4. Os palestinos de Jerusalém deixaram claro que a cidade é uma larga linha que não pode ser tocada e que eles estão dispostos a mais corajosa resistência por ela. A cidade é parte da capital histórica da Palestina una e indivisível. Se a ocupação avança, o confronto será inevitável.
  5. E por fim, mas não menos importante. A situação dos palestinos constitui uma nova possibilidade de um diálogo árabe-árabe, para unificar visões e objetivos estratégicos, reunir povos e fazer avançar num projeto nacional além, de ser uma força resistente para barrar a expansão dos assentamentos e até tentar isolar internacionalmente os planos de Netanyahu, ao menos temporariamente. E isso já aconteceu pois o seu governo foi obrigado a impedir a marcha tradicional que a extrema-direita faz em Jerusalém há anos e que, costuma passar pelos bairros palestinos gritando “morte aos árabes”, obrigando outro percurso.

Há uma luta de vida ou morte para o povo palestino, decidido a sobreviver e conquistar a libertação de sua terra ocupada, a despeito das perdas que enfrenta todos os dias sob a ocupação. Israel tem a força de um estado tecnológico, militarizado, rico e protegido por potências mundiais, mas exibe pés de barro ao erguer-se sobre uma política de apartheid, que vai sendo reconhecida (e precisamos ajudar nesse propósito) na cena internacional.

Toda a solidariedade à resistência do povo palestino por sua libertação!

* Professor de História da rede municipal do RJ e militante da Resistência/PSOL.

NOTAS

1 – Um tribunal israelense de Jerusalém determinou que algumas famílias devem deixar suas casas até o dia 1º de agosto. Ao todo, é esperado que 58 residentes, incluindo 17 crianças, sejam deslocados. Ver https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/2021050717475443-ante-tensao-em-jerusalem-paises-europeus-se-unem-pedindo-fim-do-avanco-de-assentamentos-israelenses/ (Consultado em 10.05.2021)

2 – Sobre a Nakba e seu terrível significado para os palestinos, ver https://esquerdaonline.com.br/2020/05/15/72-anos-da-criacao-do-estado-de-israel-por-que-precisamos-denuncia-lo/

3 – https://www.monitordooriente.com/20210509-o-que-israel-pretende-com-os-ataques-a-al-aqsa-e-sheikh-jarrah/ (Consultado em 10.05.2021)

4 –  https://www.youtube.com/watch?v=WV38fTtLJ4k (Consultado em 10.05.2021)

5 – https://www.monitordooriente.com/20210429-israel-ataca-os-palestinos-para-expulsa-los-de-sua-propria-terra/ (Consultado em 11.05.2021)

6 – Para maiores informações desse antigo assédio sionista sobre Jerusalém Oriental ver a importante reflexão de Waldo Mermelstein no Esquerda Online (Consultado em 10.05.2021)

7 – Veja https://www.monitordooriente.com/20190416-a-judaizacao-do-ensino-em-jerusalem/ (Consultado em 10.05.2021)

8 – https://www.monitordooriente.com/20190928-relembrando-a-segunda-intifada/ (Consultado em 10.05.2021)

9 – Maiores detalhes inclusive com várias imagens da violência israelense ver esta notícia 

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