Eleições locais na Grã-Bretanha: Derrota do “Novo Labour” e aumento da crise federativa

Artigo de M. Musse, Londres (UK), publicado originalmente no Esquerda Online

Novo Labour – pós Jeremy Corbyn

O Partido Trabalhista Britânico (Labour) teve seu primeiro grande teste após a guinada radical ao centro ocorrida no início do ano passado – quando o “moderado” Sir Keir Starmer assumiu a liderança do partido, sucedendo a direção Corbynista. O termo “moderado” está grifado em aspas, pois apesar de disputar a liderança com um discurso em que dizia defender a mesma agenda do manifesto de Corbyn (apenas com um tom mais “moderado”), o que se viu foi um giro acelerado ao perfil social-liberal identificado com o ex Primeiro Ministro Tony Blair – tanto na questão programática, na ausência de qualquer oposição de fato à condução da pandemia pelo governo Boris Johnson, na perseguição e expulsões de lideranças da esquerda do partido (incluindo o próprio Jeremy Corbyn) e na relação com os movimento sociais.

As eleições locais na Inglaterra

No dia 6 de maio de 2021, o Reino Unido viveu eleições de conselhos locais (“municipais”) na Inglaterra, e eleições para os parlamentos da Escócia e do País de Gales. Foi um processo eleitoral de grande porte, pois as eleições que estavam previstas para maio do ano passado foram adiadas pela pandemia, e se acumularam com as cadeiras em disputa já previstas para 2021. Além disso, houve uma eleição complementar (by-election) no distrito de Hartlepool – onde o Labour nunca havia perdido desde que o distrito foi criado, há 62 anos.

O resultado foi considerado um desastre por toda a imprensa e analistas, e pela própria direção Trabalhista. O Labour manteve a prefeitura de Londres e das maiores cidades inglesas (com exceção parcial de Sheffield, onde perdeu a maioria absoluta do Conselho), mas foi muito mal em outras partes do país. O partido perdeu a cadeira parlamentar de Hartlepool, com uma margem considerável, para o candidato do Partido Conservador. Quando terminávamos esse artigo, ainda faltavam cerca de 5% das regiões declararem seus resultados, mas os números atuais refletem o quadro. Nas “prefeituras” (Conselhos Locais) os Tories conquistaram 60, obtendo um acréscimo de 12 – o Labour obteve 44, oito a menos que antes da eleição. Analisando os números de “vereadores” (Conselheiros Locais), os Tories obtiveram 2.247 (acréscimo de 245), e o Labour ficou com 1283 (redução de 307). Vale destacar nesse ponto a performance dos Verdes (Green), que pulou de 52 para 123 (mais que dobrou), ficando em terceiro lugar (à frente dos tradicionais LibDem), na corrida para a prefeitura de Londres. E a do UKIP, partido de extrema direita que chegou a ser apontado como o de crescimento mais dinâmico no país (e uns dos mais na Europa) após o referendo do Brexit e que já vinha definhando, acabou perdendo todas as eleições – caindo das 48 cadeiras que ainda detinha para zero. O novo partido de Nigel Farage (liderança original do UKIP), que se chamava Brexit Party e mudou seu nome para Reform UK, manteve sua pequena representação de duas (02) cadeiras em todo o país.

A direção Trabalhista respondeu ao resultado dizendo que “o partido não se renovou o suficiente”, ou em outras palavras, que vai acentuar ainda mais seu giro à direita. E Sir Starmer já começou afastando da função a Secretária Geral do partido, Angela Rayner – uma das poucas no alto escalão trabalhista que tinha alguma identificação (mesmo que pouca) com a liderança Corbynista anterior. 

Resultados na Escócia e País de Gales

Na Escócia, o grande vitorioso foi o Partido Nacionalista Escocês (SNP), de centro-esquerda, obteve uma grande votação e aumentou sua maioria no parlamento do país em uma cadeira – ficando a apenas uma vaga da maioria absoluta. Os Conservadores (Tories) não tiveram qualquer alteração, o Labour perdeu duas cadeiras e os Verdes ganharam duas. A principal bandeira do SNP é a independência da Escócia (saída do Reino Unido), que se materializa na realização de um novo referendo de independência – o que tem forte oposição do governo central (Londres) e do Partido Conservador na Escócia, e vinha gerando atritos entre a Primeira Ministra escocesa (First Minister) Nicola Sturgeon e o Primeiro Ministro britânico Boris Johnson. 

Assim que a os resultados foram anunciados, ainda na madrugada de sábado para domingo, Sturgeon declarou que “estas eleições são um claro mandato dos escoceses por um novo referendo de independência”, e que já estava articulada uma maioria absoluta dentro de Holyrood (como é chamado o parlamento escocês) junto aos verdes e alguns parlamentares trabalhistas para a realização do referendo. Vale recordar que houve um referendo em 2014, onde o Sim (pela independência) liderava as pesquisas até que a União Europeia declarou, a poucas semanas do pleito, que não poderia aceitar a Escócia por ser uma dissidência de um país do bloco – e o Não acabou vencendo por 55% a 45%). E que no referendo do Brexit, a população Escocesa votou majoritariamente contra a saída. Embora as pesquisas de opinião apontem um apoio de cerca de 40% dentre os escoceses pela independência do país, os resultados do SNP (e dos Verdes, que também são pela independência) e a situação política e econômica do país com o Brexit e a pandemia colocam esta como uma possibilidade bastante real.

No País de Gales, houve pouca alteração. O Labour, que já tinha maioria aumentou sua bancada e agora tem a maioria absoluta do parlamento galês. O Plaid Cymru (nacionalista, de centro-esquerda, pela independência) e os Conservadores também cresceram, às custas do UKIP que perdeu todas as suas cadeiras (ocupava 12% do parlamento galês). O LibDem manteve a cadeira que já ocupava, e esta é toda a composição do parlamento no País de Gales.

O esvaziamento do Novo Labour

O resultado eleitoral na Inglaterra não se deu principalmente por fortalecimento do governo Boris Johnson ou por falta de perspectiva de lutas sociais no país. Pelo contrário, por mais que o Reino Unido tenha respondido a crise econômica potencializada pela pandemia com um enorme pacote de resgate e tenha conseguido imprimir um ritmo de vacinação muito mais acelerado que no restante da Europa – e esses são pontos que Johnson obviamente tenta capitalizar – ainda pesa muito o grande número de mortes no país devido a Covid, o mais alto da Europa, que em grande parte se deu por erros do governo na condução da pandemia. Recentemente, vazou na imprensa que Boris Johnson teria dito “preferir pilhas de corpos pelas ruas que um novo lockdown”, antes do governo decretar um novo lockdown em dezembro de 2020. 

No terreno das lutas sociais, alguns processos sugerem que, conforme o processo de mobilidade vá se desenvolvendo (o que já começa a acontecer), é possível que o país volte a viver processos de mobilizações de trabalhadores, jovens, e setores oprimidos. As mobilizações antirracistas no segundo semestre de 2020, embaladas pela explosão social nos EUA, estiveram entre as maiores da Europa e foram gigantes por todo o país. Recentemente, o Kill the Bill, mobilizações contra uma medida que dá mais poderes repressivos à polícia (o que foi o gatilho para enormes protestos na França há poucos meses) ocorreram em diversas cidades, e prometem crescer mais. E uma greve de motoristas de ônibus em Manchester contra o processo de precarização de suas funções (a empresa queria demitir e recontratar em piores condições, o chamado Fire&Hire) enfrentou os empresários e políticos locais e foi finalmente vitoriosa – a empresa cancelou o processo e readmitiu os motoristas demitidos e punidos nas nove semanas de greve. Sem falar na mobilização virtual dos professores e trabalhadores da educação, que enfrentou o governo em uma queda de braço que polarizou o país e fez Boris Johnson recuar e só abrir as escolas quando o processo de vacinação estivesse mais avançado entre os trabalhadores do setor. O Labour, através de sua direção, esteve completamente desligado (e às vezes contrário) de todos esses processos. Um dirigente do Unite (um dos maiores sindicatos do país) esperou o fechamento das urnas para denunciar que Sir Starmer se recusou a assinar uma carta lançada pelo sindicato exigindo a proibição do modelo Fire&Hire.

Tampouco o resultado na Inglaterra reflete uma melhoria econômica para a população. O distrito de Hartlepool, onde o Labour ganhou a cadeira com mais de 50% nas duas últimas eleições, está com uma taxa de desemprego na casa de 10% e é diretamente atingido pela pandemia. O esvaziamento do Labour se deu pelo partido, ao invés de fazer oposição a Johnson em suas políticas econômicas e de condução da pandemia, direcionou todos os seus esforços a perseguir e expulsar ativistas e a esquerda do Partido. Esteve mais preocupado em mostrar à grande burguesia que estava se livrando do perfil anticapitalista e de ruptura, e voltando a ser alinhado com o status quo. E sinaliza que vai, ao invés de mudar a trajetória após esses resultados ruins, vai usá-los como justificativa para aprofundar ainda mais esse rumo, distanciando-se dos 99% da população e da orientação “para a maioria” (For the Many Not The Few), mais necessária hoje do que nunca.

Próximos passos

Logo após o resultado das eleições, e como é praxe na cultura política britânica em casos de significativas derrotas eleitorais, entrou na ordem do dia a permanência (ou não) de Sir Keir Starmer na liderança do Partido Trabalhista. Starmer impôs uma guinada ao partido absolutamente diferente do que ele prometeu na campanha pela liderança, há pouco mais de um ano. Promoveu um processo de expurgos e perseguições a ativistas e dirigentes históricos do Partido como há muito não se via. Mudou o caráter do Partido, de uma oposição sistemática a um apêndice dos Tories no parlamento e na vida política do país. Se afastou de movimentos sociais, das lutas dos trabalhadores e da juventude, das lutas dos oprimidos, das lutas das nacionalidades dentro do próprio Reino Unido – como escoceses, irlandeses e galeses. E entregou um resultado desastroso nas primeiras eleições que apresentou esse “novo perfil”.

Momentum conclama Starmer a “mudar a linha” rumo aos manifestos e perfil do Partido dos anos anteriores. Um dos principais dirigentes da época Corbynista, John McDonnel chamou Starmer de “covarde”, quando este tirou Angela Reyner de suas funções pela derrota eleitoral e exigiu que este assumisse suas responsabilidades. Mas Sir Starmer não vai sair por si só. Seu projeto é de longo prazo, e sustentado por setores do próprio imperialismo britânico, como alternativa “social liberal” a eventuais crises e deslizes de seus representantes clássicos, os Tories, como ocorreu em passado recente. Terá de ser removido.

Para isso, é preciso haver um processo unificado na esquerda, envolvendo os ativistas, sindicatos, correntes e agrupamentos – de dentro e fora do Labour – para fomentar as lutas sociais que começam a se desenhar. Para que se façam mais lutas como a dos professores, mais campanhas como a de defesa do NHS (Sistema de Saúde), mais greves como a dos motoristas de Manchester, mais lutas de rua como o Kill the Bill. E construírem uma alternativa política, de saída para a crise – que resgate e atualize os manifestos do Labour nos três anos anteriores à pandemia. E isso passa também por exigir desde já a saída de Sir Keir Starmer da liderança do Partido Trabalhista, a conformação de novas eleições internas, para uma nova direção baseada nesses compromissos e nos movimentos sociais.

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