Eleições em Madrid: a vitória da direita trumpista

Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madrid e dirigente do PP, obteve uma vitória contundente nas eleições da Comunidade de Madrid. Estas tiveram um aumento na participação, tendo a abstenção diminuido cerca de 12%, em comparação com 2019.

As eleições madrilenas foram antecipadas por Ayuso sob o pretexto de falta de confiança no Ciudadanos (C´s), seu parceiro de governação nos últimos dois anos em Madrid. A quebra de confiança deu-se na sequência do C´s se unir ao Partido Socialista (PSOE) na apresentação de uma moção de censura para derrubar o PP na comunidade de Murcia.

Na verdade, foi uma jogada de mestre de Ayuso, que perspectivou que poderia crescer junto do eleitorado do C´s, dado a queda eleitoral  que este teve nas últimas eleições regionais na Galiza e Catalunha. Já tinhamos assistido ao seu desaparecimento do parlamento catalão e galego há uns meses e agora em Madrid. O C´s passou de 26 deputados (2019) para nenhuma representação parlamentar. Em 2 anos, passou de um partido com responsabilidades governativas para o quase desaparecimento.

Por sua vez, a candidatura do PP conseguiu 44.72% dos votos, duplicando a sua representação eleitoral e passando de 30 para 65 deputados. Obteve mais 897 mil votos em relação às eleições de 2019. Ayuso conseguiu que o PP crescesse “à custa” do C´s, tendo chegado ainda a uma parte do eleitorado do PSOE.

Estas eleições foram marcadas por uma campanha eleitoral extremamente polarizada. Esse ambiente de polarização e agressividade foi sendo pavimentado pela candidata do PP, Isabel Díaz Ayuso, que é muitas vezes comparada a Trump  – teve como slogan da sua campanha “Socialismo ou Liberdade”, tendo depois alterado para “Comunismo ou Liberdade”, com a entrada de Pablo Iglesias nas eleições.  Ayuso, que teve um gestão vergonhosa da pandemia, utilizou o cansaço existente na população em relação às medidas restritivas impostas pelo Governo Estatal do PSOE e Unidas Podemos (UP), para se colocar como a defensora da “liberdade”. Na verdade, uma “liberdade” individual, puramente egoísta e que, em concreto, era colocada pela própria e seus apoiantes como “a liberdade de poder ir tomar uma cerveja a uma esplanada”.

A par de Ayuso, a campanha de Rocio Monastério do Vox, partido de extrema-direita, acicatou ainda mais a radicalização da direita. À boa moda do neofascismo, a campanha do Vox foi seguindo uma linha de provocação, marcando o ínicio da sua campanha para Vallekas, conhecido bairro operário.  Esta atitude despoletou manifestações antifascistas, reprimidas por violência policial[1]. Na campanha eleitoral houve, inclusive, ameaças de morte através do envio de  cartas com balas no seu interior a Pablo Iglesias e à sua família,  bem como a ministros do actual Governo[2], que Rocío Monasterio se negou a condenar chegando a sugerir que eram uma invenção do Governo Estatal do PSOE e UP. O Vox lançou ainda um cartaz vergonhoso, em que fomenta o ódio contra crianças imigrantes, separadas dos seus pais em campos de detenção.

O Vox conquistou 9,13% dos votos e apenas mais um deputado, totalizando 13 deputados e crescendo cerca de 42 mil votos. Mas conseguiu o feito de radicalizar a direita, sobretudo o PP, normalizando as suas ideias.

Ayuso e Rocio Monasterio lideraram a radicalização da direita no Estado Espanhol e estão dependentes uma da outra para formar a governação na comunidade de Madrid. Ayuso precisa que o Vox se abstenha, pelo menos, para que PP governe ou então integre mesmo o governo. Após a contagem dos votos, Rócio Monastério colocou-se de imediato à disposição para facilitar a tomada de pose de Ayuso[3].

Com esta vitória de Ayuso, a viragem à direita e radicalização do PP, que sempre conviveu no seu interior com franquistas, pode vir a consolidar-se de forma ainda mais efectiva a nível nacional. O excelente resultado de Ayuso em Madrid poderá abrir a possibilidade desta vir a disputar a liderança do PP. Desde 2018 que José Maria Aznar, ex-primeiro ministro e ideólogo da direita espanhola, através da fundação que dirige, vem preparando o caminho para o que chama de recomposição da direita[4] – mais não é do que normalizar a extrema-direita e integrá-la numa coligação com PP para governar o país. As declarações de Ayuso e Pablo Casado, actual presidente do PP, foram no sentido de pensar as  implicações nacionais decorrentes do resultado das eleições de Madrid, afirmando que é “o começo de um novo capitulo na história de Espanha”, o que demonstra a possibilidade do PP voltar ao poder desta vez com a extrema direita (Vox). Abascal, presidente do Vox, no seu discurso pós-eleições chegou a exigir a marcação de eleições gerais no país, dado a “mudança de ciclo”[5].

O PSOE foi o principal derrotado. Apesar de Ángel Gabilondo, candidato do PSOE, ter ganho as eleições de Madrid em 2019, embora não tenha governado por falta de maioria, a verdade é que a sua campanha não despertou muito entusiasmo, sendo que durante a campanha a descida da votação era já esperada. O PSOE obteve 16,85% dos votos, passando de 37 deputados para 24, uma descida de 13 deputados e de cerca de 276 mil votos, que poderá estar ligada com algum desgaste do Governo Estatal do PSOE na gestão da pandemia. Ayuso utilizou bastante a gestão da pandemia para entrar em confronto com o governo do PSOE e UP.

À esquerda do PSOE, a grande novidade e vitorioso da noite foi o Más Madrid, que é o partido regional do Más País. Este partido surgiu há cerca de ano e meio, de uma cisão com o Podemos. A sua campanha foi liderada pela médica Mónica Garcia, que obteve 16,97% dos votos e 24 deputados. A subida de 4 deputados e de 138 mil votos em relação a 2019, juntamente com a descida do PSOE, fez com que Más Madrid ficasse à frente do PSOE em termos de votos. A campanha do Más Pais foi centrada nos temas do feminismo, ecologia e no combate à gestão de Ayuso da pandemia.

Devido à sua importância, estas eleições fizeram com que Pablo Iglesias saísse de Vice-Presidente do Governo do Estado Espanhol para se apresentar como  candidato da UP em Madrid. Os motivos que levaram à decisão de Iglesias prenderam-se com a possibilidade, tendo em conta as sondagens em Março, das UP não entrarem sequer no parlamento da Comunidade de Madrid. Não esqueçamos que nas eleições galegas, a UP ficou sem representação parlamentar. Pablo Iglesias conseguiu 7,21% dos votos, subindo de 7 para 10 deputados, e mais 80 mil votos do que em 2019. Contudo, este não foi um resultado positivo, sobretudo se tivermos em conta resultados anteriores da UP, em que chegou a obter 26 deputados em 2015. O desgaste que a UP tem vindo a demonstrar nas eleições regionais, bem como nas sondagens, apesar do crescimento em Madrid, fez com que Pablo Iglesias tenha apresentado a sua demissão no final da noite eleitoral. Pablo Iglesias disse que iria afastar-se da política e que não queria ser um tampão ao surgimento de novas lideranças. Esta demissão vai seguramente abrir um período de crise e reflexão na UP.

Em resumo, a esquerda foi a derrotada da noite. É importante no Estado Espanhol a esquerda faça uma reflexão sobre a sua participação no governo e, sobretudo, que se unifique para combater a extrema-direita e o extrema-centro. Para isso, é urgente a construção de uma frente de partidos, independente da burguesia. 


[1] https://www.publico.es/politica/vallecas-balance-agresiones-policiales-llama-movilizacion-antifascista-viernes.html

[2] https://www.publico.pt/2021/04/23/mundo/noticia/vox-duvidou-ameacas-morte-iglesias-incendiou-campanha-madrid-1959824

[3] https://www.tsf.pt/mundo/extrema-direita-anteve-mudancas-em-espanha-com-resultados-nas-eleicoes-de-madrid-13684853.html

[4] https://vientosur.info/el-ayusimo-y-vox-tienen-un-gran-acuerdo-recortar-derechos-laborales-sociales-y-democraticos/?fbclid=IwAR3CBD7MQWO0bQQa0aL6UYarSlo0I9bJrx6fYEbEFXWAah90dOJthOSRrnY

[5] https://www.europapress.es/nacional/noticia-abascal-pide-elecciones-generales-cambio-ciclo-madrid-avisa-vox-saldra-todas-20210504225605.html

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