O ultra-liberalismo de Moedas e o racismo de Suzana Garcia no PSD de Rio

As eleições autárquicas aproximam-se e, como é costume, irão reflectir não só a vida política de cada cidade ou freguesia, mas também do país como um todo. Veremos uma tentativa do PS de consolidar a sua força, para dar oxigénio ao Governo. A esquerda, Bloco e CDU, terá de aproveitar para se afirmar como alternativa. A direita procura ganhar força como oposição, mas travará uma guerra intestina, entre as novos e velhos partidos. O PSD tenta manter a hegemonia no seu campo político, dependendo disso a sobrevivência de Rui Rio à frente do partido. O CDS tenta apenas sobreviver. Essa tentativa de, cada uma à sua maneira, manter posições face ao avanço do Chega e da Iniciativa Liberal, fez com que celebrassem um acordo nacional para se coligarem em grande parte do país. Iniciativa Liberal e Chega procuram afirmar-se num terreno em que ainda não foram testados e que é mais difícil para eles – ainda que, caso tenham sucesso, possa ajudar a que ganhem raízes locais. Escusado será dizer que o papel da esquerda é combater a direita, em particular o neo-fascismo, ao mesmo tempo que apresenta uma alternativa ao PS, que também na gestão autárquica governa para os interesses privados e não para a maioria da população.

As incoerências de Rio

As apostas iniciais do PSD para estas eleições servem de barómetro da pressão ultra-reacionária que atravessa a direita e de como, qual cata vento sem princípios, Rui Rio se tenta manter à tona. Vejamos por exemplo as suas apostas em cidades como Lisboa, a Amadora, Porto e Gaia.

No Porto, Rio escolhe aquele que foi o seu “vice” quando foi presidente dessa Câmara Municipal, Vladimir Feliz. Figura sem renome nacional, é um autarca profissional de longa data. Expressa o cinzentismo conservador de Rio e a pose de centro-direita moderado. Mas a pretensa coerência moderada do líder do PSD começa a esbroar-se ao atravessarmos o Douro. Em Gaia, a aposta é Antonio Oliveira, antigo futobolista, treinador e selecionador nacional, comentador futeboleiro e maior acionista individual do Futebol Clube do Porto. Rui Rio, que se tinha afirmado como alguém que não mistura política e futebol, não só mostra o valor nulo da sua palavra como cede à captura da política daquela região pelo poderio económico de um dos grandes clubes nacionais. A norte, nada de novo.

Se nas duas margens do rio Douro já vimos a incoerência dos critérios do PSD, em Lisboa vemos uma terceira abordagem. Carlos Moedas é candidato à Câmara Muncial de Lisboa e foi apresentado como a grande aposta, não só para Lisboa como na estratégia autárquica do PSD em todo o país. O ex-Secretário de Estado Adjunto de Passos Coelho apostou em federar toda a direita (exceptuando o Chega) para derrotar o delfim de Antonio Costa, Fernando Medina. Além do CDS, conseguiu o apoio de uma constelação de mini-partidos que mal existem na prática. Não conseguiu o apoio da Iniciativa Liberal, que em menos de um mês já apresentou um candidato que logo desistiu e, depois deste, um segundo nome. Moedas é um nome de má memória, um protótipo ultra-liberal do passismo, que foi um dos rostos da austeridade e das privatizações – foi um dos responsáveis pelas negociações com a Troika, que valeu ao país os piores anos da sua história recente. Antes de ser governante, trabalhou para o vampiresco Goldman Sachs. Depois de ter ajudado a vender o país foi premiado com um cargo europeu. A sua escolha pode ser uma aposta de Rui Rio para aplacar os seus adeversários internos, ansiosos pelo regresso a uma orientação mais agressivamente neoliberal. Trata-se de uma jogada arriscada, pois pode dar protagonismo a um futuro contendor interno. Ainda que tenha contra si a má memória dos tempos da Troika, não deixa de ser uma ameaça ao reinado de Medina em Lisboa. Cabe à esquerda desmascarar o projecto privatizante de Moedas sem com isso ceder um centímetro a Medina, antes e depois das eleições – o atual presidente tão pouco está isento de ceder às pressões da finança e da especulação imobiliária. Uma alternativa de esquerda em defesa de uma cidade para a maioria trabalhadora, apostada nos serviços públicos, no direito à habitação na justiça climática e no combate ao racismo é a melhor forma de derrotar a direita com um projecto oposto ao do PS.

Suzana Garcia: a ultra-direita desponta no PSD

No concelho vizinho da Amadora, o PSD mostra outra face da mesma moeda. A Concelhia da Amadora do PSD indicou a avogada Suzana Garcia como candidata à Câmara Municipal. Esta opção é em tudo uma tentativa de mimetizar a política neo-fascista do Chega na cidade mais multicultural do país. Suzana Garcia tornou-se conhecida como comentadora da TVI, em que se cavalgou o mediatismo através de ataques racistas a Mamadou Ba ou da defesa da castração física para pedófilos. Não só é um discurso igual ao do Chega, como foi defendida publicamente pelo líder deste partido neo-fascista. A direcção do PSD ainda não aprovou esta proposta da Concelhia da Amadora, que além de uma expressão das pulsões de ultra-direita que percorrem o partido, é, em grande medida, uma chantagem a Rui Rio. O PSD já chegou a acordo com o Chega nos Açores, assim como Rio mostrou um entusiasmo inesperado com os resultados de Ventura nas eleições presidenciais, pelo que não é impossível que cedam a esta pressão. Mas se o fizerem, a postura de oposição sensata de centro-direita, que Rio adopta quando quer e consegue, fica ainda mais fragilizada. Independentemente da decisão final, este dilema é sinal da pressão de ultra-reacionária e racista que percorre a direita portuguesa. A resposta da esquerda deve ser construir uma polarização oposta: anti-racista, popular e assente em propostas anti-capitalistas pelo reforço dos serviços públicos e do direito à habitação. Na Amadora, em que a gestão autárquica do PS tem alimentado a paranóia securitária que abre portas à violência policial, para enfrentar a direita é preciso apresentar uma alternativa também ao partido de António Costa – como aliás em todo o país.

A face populista e a ultra-liberal convivem com as pulsões racistas de extrema-direita no PSD de Rui Rio, que ora se quera afirmar como oposição responsável, ora cede às alas mais reacionárias. São sinais de uma direita em mudança em que as pressões para uma ultra-direitização parecem vingar cada vez mais, protagonizadas pelos novos partidos ou encontrando expressão dentro do PSD. Se a serpente já não pode ser esmagada no ovo, pois a cobra fascizante já eclodiu com força, como vimos nas presidenciais, pode ser fortemente golpeada nestas eleições autárquicas. Combater todas as faces do PSD faz parte desse combate, sem esquecer o confronto frontal com o Chega, que também se procurará reforçar. O PS, no Governo e nas autarquias, é uma muralha de papel contra estas forças, porque também ele cede à tendências privatizantes, fica aquém na defesa dos serviços públicos e abre portas à marginalização racista enquanto fecha os olhos à violência policial. Candidaturas fortes da esquerda, com laços com os movimentos sociais e propostas que combatam a direita e sejam alternativa ao PS, podem e devem ganhar terreno nestas eleições.

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