C.L.R JAMES: Revolução e o Negro

Publicado a 09 de agosto de 2020 na Left Voice, tradução de David Santos

C.L.R. James escreveu este ensaio em 1939 para o New International, a revista teórica do Socialist Workers Party. Esta breve história da luta negra – desde a Revolução Haitiana até a greve sentada de Flint – retém todo o seu poder hoje. Isto é parte da nossa colecção sobre Marxismo e a Luta Negra.

Cyril Lionel Robert James, mais conhecido pelo seu livro Os Jacobinos Negros sobre a história marxista da Revolução Haitiana, foi também um revolucionário dedicado. Nascido em Trinidad, tornou-se ativo na luta contra o colonialismo da Grã-Bretanha. Foi aí que ele se juntou aos Trotskistas. Durante o seu tempo como militante trotskista nos dois lados do Atlântico, James deixaria a sua marca no pensamento Marxista sobre a libertação Negra nos EUA, particularmente através das suas discussões com Trotsky e os líderes do Socialist Workers Party no México. Mais tarde, romperia com o movimento Trotskista mas continuou a examinar a luta pela Revolução durante a sua vida.

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A história revolucionária do negro é rica, inspiradora, e desconhecida. Os negros revoltaram-se contra os capturadores de escravos em África; contra os mercadores de escravos na travessia do Atlântico. Revoltaram-se nas plantações.

O dócil negro é um mito. Escravos em navios de escravos saltaram borda fora, iniciaram vastas greves de fome, atacaram as tripulações. Há registos de escravos que subjugaram a tripulação e levaram o navio até ao porto, um feito de tremenda ousadia revolucionária. Na Guiana Britânica durante o século XVIII, os escravos negros revoltaram-se, apoderaram-se da colónia holandesa e dominaram-na durante anos. Retiraram-se para o interior, forçaram os brancos a assinar um tratado de paz, e permaneceram livres até hoje. Cada colónia das Índias Ocidentais, particularmente a Jamaica e San Domingo e Cuba, as maiores ilhas, tiveram os seus assentamentos de escravos escapados, audaciosos negros que tinham fugido para a Natureza e que se organizaram para defender a sua liberdade. Na Jamaica, o Governo Britânico, após tentar em vão suprimi-los, aceitou a sua existência com tratados de paz, escrupulosamente observados por ambos os lados durante muitos anos, e depois quebrados pela perfídia britânica. Na América, os negros organizaram quase 150 revoltas distintas contra a escravatura. O único lugar onde os negros não se revoltaram foi nas páginas dos historiadores capitalistas…Toda esta história revolucionária pode aparecer como uma surpresa apenas para aqueles que, qualquer que seja a Internacional, Segunda, Terceira ou Quarta, ainda não ejetaram dos seus sistemas as mentiras pertinazes do capitalismo anglo-saxão. Não é estranho que os negros se tenham revoltado. Seria estranho que não o tivessem feito.

Mas a Quarta Internacional, cujo objetivo é a Revolução, não tem de provar que os negros foram ou são tão revolucionários como qualquer outro grupo de pessoas oprimidas. Isso tem o seu lugar na sua agitação. O que nós como Marxistas temos de ver é o papel tremendo desempenhado pelos negros na transformação da Civilização Ocidental do feudalismo ao capitalismo. É apenas deste ponto de vantagem que seremos capazes de apreciar (e prepararmo-nos) para o papel ainda maior que por necessidade terão na transição do capitalismo para o socialismo.

Quais são as datas decisivas na História moderna da Grã-Bretanha, França e América? 1789, o início da Revolução Francesa; 1832, a Lei de Reforma na Grã-Bretanha 1; e 1865, o esmagamento do poder esclavagista na América pelos Estados do Norte. Cada uma destas datas marcou um patamar definitivo na transição de uma sociedade feudal para uma sociedade capitalista. A exploração de milhões de negros foi um fator básico para o desenvolvimento económico de cada uma destas três nações. É razoável, pois, esperar que a questão Negra não deixe de desempenhar um papel tão importante na resolução dos problemas que cada sociedade enfrenta. Ninguém nos dias pré-revolucionários, contudo, sequer vagamente previu a magnitude da contribuição que os negros viriam a dar. Hoje os Marxistas têm muito menos desculpas para cair no mesmo erro.

O Negro e a Revolução Francesa

A Revolução Francesa foi uma revolução burguesa e a base da riqueza burguesa era o comércio de escravos e as plantações esclavagistas nas colónias. Que isto fique claro. “A triste ironia da História humana” diz Jaures2, “[são] as fortunas criadas em Bordéus, em Nantes pelo comércio de escravos [que] deram à burguesia o orgulho que precisava de liberdade, e contribuíram para a emancipação humana.” e Gaston-Martin, o historiador do comércio de escravos resumiu assim: apesar da burguesia negociar outras coisas para além de escravos, tudo dependia do sucesso ou fracasso do tráfico.

Assim sendo, quando a burguesia proclama os Direitos do Homem3 em geral, com as reservas necessárias, uma dessas foi que estes direitos não se estendessem às colónias francesas. Em 1789, o comércio colonial francês era de 11 milhões de libras, dois terços do comércio ultramarino da França. O comércio colonial inglês era na altura de apenas 5 milhões. Que preço [tinha] a abolição francesa? Havia uma sociedade abolicionista a qual Brissot, Robespierre, Mirabeau, Lafayette, Condorcet e muitos outros homens famosos pertenceram mesmo antes de 1789. Mas liberais são liberais. Na cara da Revolução, estavam prontos a comprometer-se. Deixariam meio milhão de escravos na sua escravatura, mas pelo menos os mulatos4, homens com propriedade (o que incluía escravos) e educação, deveriam ter direitos iguais aos dos colonos brancos. Os magnatas colonialistas brancos recusaram concessões e eram pessoas com quem se devia ter cuidado, aristocratas de nascimento e casamento, burgueses como as suas ligações comerciais com a burguesia marítima. Opuseram-se a qualquer mudança nas colónias que pudesse diminuir o seu domínio social e político. A burguesia marítima, preocupada com os seus milhões em investimentos, apoiados pelos colonialistas, e contra onze milhões de libras de comércio por ano, os políticos radicais eram impotentes. Foi a Revolução que os pontapeou e os empurrou para a frente.

Primeiro que tudo, a Revolução em França. A ala de direita Gironde do clube Jacobino depôs os Feuillants pró-realistas e chegou ao poder em Março de 1792.

E segundo, a Revolução nas colónias. Os mulatos em San Domingo revoltaram-se em 1790, seguisse meses depois a revolta de escravos em Agosto de 1791. A 4 de Abril de 1792, os Girondinos concederam direitos políticos e sociais aos multados. A Grande burguesia concordou, pois os aristocratas colonialistas, após tentar em vão obter o apoio multado para a independência, decidiram entregar a colónia aos britânicos em vez de tolerar interferência com o seu sistema. Todos estes proprietários de escravos, nobreza francesa e burguesia francesa, aristocratas colonialistas e mulatos, concordaram que a revolta de escravos deveria ser suprimida e os escravos permanecerem na escravidão.

Os escravos, contudo, recusaram-se a ouvir as ameaças, e nenhumas promessas lhes foram feitas. Liderados do princípio ao fim por homens que como eles tinham sido escravos e que não sabiam ler e escrever, eles lutaram uma das maiores batalhas revolucionárias da história. Antes da Revolução, eles apareciam como sub-humanos. Muitos escravos foram chicoteados para que se movessem de onde estavam sentados. A Revolução transformou-os em heróis.

A ilha de San Domingo foi dividida em duas colónias, uma francesa e a outra espanhola. O governo colonial dos Bourbons espanhóis apoiou os escravos na sua revolta contra a República Francesa, e muitos bandos rebeldes juntaram-se ao espanhóis. Os colonialistas franceses convidaram Pitt a tomar conta da colónia, e quando a guerra foi declarada entre a França e a Inglaterra em 1793, os ingleses invadiram a ilha.

A expedição inglesa, bem recebida pelos colonialistas brancos, capturou vila após vila no Sul e no Oeste de San Domingo francês. Os espanhóis, operando com o famoso Toussaint Louverture, um ex-escravo, à cabeça de quatro mil tropas negras, invadiram a colónia a partir do Leste. Os britânicos e os espanhóis conquistaram tanto quanto possível antes que chegasse o tempo de partilhar.

“Nestes assuntos,” escreveu o ministro britânico, Dundas, ao governador da Jamaica, “quanto mais tivermos, melhores serão as nossas pretensões.” A 4 de Junho, Port-au-Prince, a capital de San Domingo, caiu entretanto outra Expedição Britânica tinha capturado a Martinica, Guadalupe e outras ilhas francesas. Excetuando por um milagre, o comércio colonial da França, o mais rico do mundo, estava nas mãos dos inimigos e seria usado contra a Revolução. Mas aqui as massas francesas puseram uma mão.

A 10 de Agosto de 1792, iniciou-se a Revolução triunfante em França. As massas de Paris e os seus apoiantes por toda a França, em 1789 indiferentes às questões colonialistas, atacavam agora num frenesim revolucionário todos os abusos do antigo regime e nenhuns dos tiranos era tão odiados como os “aristocratas de pele”

Foi a generosidade revolucionária, o ressentimento pela traição das colónias  aos inimigos da Revolução, a impotência face à Marinha Britânica que assolaram a Convenção(3). A 4 de Fevereiro de 1794, sem um debate, foi decretada a abolição da escravatura negra e finalmente foi dada sanção à revolta negra

As notícias foram chegando de alguma forma às Índias Ocidentais francesas. Victor Hugues, um mulato, uma das grandes personalidades produzidas pela Revolução, conseguiu furar o bloqueio britânico e transportar a notícia oficial da libertação aos mulatos e negros das ilhas das Índias Ocidentais. Então ocorreu o milagre. Os negros e os mulatos vestiram-se com as cores revolucionárias e cantaram canções revolucionárias e viraram-se contra os espanhóis e os britânicos, os seus aliados de ontem.

Com pouco mais do que a França revolucionária como apoio moral, expulsaram os britânicos e os espanhóis das suas conquistas e levaram a guerra até ao território inimigo. Os britânicos após cinco anos de tentativas de reconquista das colónias francesas, foram finalmente expulsos em 1798.

Poucos souberam da magnitude e da importância desta derrota conseguida às mãos de Victor Hugues nas ilhas mais pequenas e de Toussaint Louverture e Rigaud em San Domingo. Fortescue, o historiador conservador do exército britânico, estima uma perda total para a Grã-Bretanha de 100 000 homens. Contudo em toda a guerra peninsular, perdeu de todas as causas – mortos em batalha, doença, deserções – apenas 40 000 homens. O sangue britânico e o tesouro britânico foram derramados profusamente na campanha das Índias Ocidentais.

Esta foi a razão da fraqueza da Grã-Bretanha na Europa durante os anos críticos de 1793-1798. Deixemos o próprio Fortescue falar: “o segredo da impotência da Inglaterra nos primeiros seis anos da guerra, pode-se dizer, estão nas duas palavras fatais – St. Domingo.”

Historiadores britânicos culpam sobretudo a febre, como se San Domingo fosse o único sítio no mundo onde o Imperialismo Europeu teve febre.

Quaisquer que tenham sido as negligências ou distorções de historiadores futuros, os próprios revolucionários franceses sabiam o que a questão negra significava para a Revolução.

A Constituinte, a Legislatura e a Convenção foram repetidamente lançadas na desordem por debates colonialistas. Isto teve graves repercussões na luta interna bem como na defesa revolucionária da República. Jaures diz; “Sem dúvida, sem os compromissos de Barnave e todo o seu partido na questão colonial, a atitude geral da Assembleia após a fuga para Varennes teria sido diferente”. Excluindo as massas de Paris, nenhuma porção do império francês teve, relativamente ao seu tamanho, papel tão grandioso na Revolução Francesa como o meio milhão de negros e mulatos nas remotas ilhas das Índias Ocidentais.

A Revolução Negra e a História Mundial

A Revolução Negra em San Domingo chocou na sua fonte uma das correntes económicas mais poderosas do Século XVIII

Com a derrota dos britânicos, o proletariado negro derrotou o Terceiro Estado Mulato numa sangrenta guerra civil. Imediatamente após, Bonaparte, representante dos elementos mais reacionários da nova burguesia francesa, tentou restaurar a escravatura em San Domingo. Os negros derrotaram uma expedição de cerca de 50 000 homens, e com a assistência dos mulatos, levaram a Revolução à sua conclusão lógica. Mudaram o nome de San Domingo para Haiti e declararam a independência da ilha. A Revolução Negra teve um profundo efeito na luta pelo fim do comércio de escravos.

Podemos melhor fazer esta estreita ligação seguindo o desenvolvimento da abolição no Império Britânico. O primeiro grande golpe ao domínio conservadorista (Tory) da Grã-Bretanha (e já agora do feudalismo em França) foi dado pela Declaração da Independência em 1776. Quando Jefferson escreveu que todos os homens são criados iguais, ele estava a escrever a sentença de morte da sociedade feudal, na qual os homens por lei eram divididos em classes desiguais. Crispus Attucks, o negro, foi o primeiro homem morto pelos britânicos na guerra que se seguiu. Não foi um fenómeno isolado ou casual. Os negros pensaram que ao lutar nesta guerra, poderiam ganhar a sua própria liberdade.. Foi estimado que dos 30 000 homens no exército de Wahsington, 4000 eram negros. A burguesia americana não os queria. Eles próprios impuseram-se. Mas negros de San Domingo também lutaram na guerra.

A monarquia francesa veio em assistência à Revolução Americana. E negros das colónias impuseram-se na Força Expedicionária Francesa. Dos 1900 tropas franceses que recapturaram Savannah, 900 eram voluntários da colónia francesa de San Domingo. Dez anos depois, alguns destes homens -Rigaud, André, Lambert, Beauvais e outros (alguns dizem Christophe também) – com a sua experiência política e militar estarão na frente entre os líderes da Revolução de San Domingo. Muito antes de Karl Marx escrever, “Trabalhadores do mundo, uni-vos,” a Revolução foi internacional.

A perda das colónias esclavagistas americanas retirou muito algodão da burguesia britânica. Adam Smith e Arthur Young, arautos da revolução industrial e da escravidão assalariada, já estavam a pregar contra o desperdício da escravidão. Surdos até 1783, os burgueses britânicos agora ouviam, e olhavam novamente para as Índias Ocidentais. As suas próprias colónias estavam falidas. Estavam a perder o comércio de escravos para os franceses e para os rivais dos britânicos. E metade dos escravos franceses que eles compravam iam para San Domingo, a Índia do Século XVIII. Porque haveriam de continuar com isto? Em três anos, a primeira sociedade abolicionista foi formada e Pitt começou a clamar pela abolição da escravatura – ”a bem da Humanidade, sem dúvida” diz Gaston-Martin, “mas também, que fique claro, para arruinar o comércio francês.” Com a guerra de 1793, Pitt, ansiando pela possibilidade de conquistar San Domingo foi-se calando sobre a abolição. Mas a revolução negra matou as aspirações tanto da França como da Grã-Bretanha.

O tratado de Viena em 1814 deu à França o direito de recapturar San Domingo: os haitianos juraram que prefeririam destruir a ilha. Com o abandono da esperança de reconquistar San Domingo, os britânicos aboliram o comércio de escravos em 1807. A América seguiu em 1808.

Se o interesse britânico nas Índias Orientais foi um dos grandes arsenais financeiros da nova burguesia (daí os ataques de Burke, porta-voz Whig, contra Hastings e Clive), o interesse nas Índias Ocidentais, embora nunca tão poderoso como em França, foi uma pedra angular da oligarquia feudal. A perda da América foi o princípio do seu declínio. Mas para a Revolução Negra, San Domingo tê-los-ia fortalecido enormemente. A burguesia britânica reformista combateu-os, o elo mais fraco na cadeia oligárquica. Uma grande revolta de escravos na Jamaica em 1831 ajudou a convencer aqueles que tinham dúvidas. Na Grã-Bretanha, “Melhor emancipação a partir de cima do que a partir de baixo” antecipou o Czar trinta anos mais cedo. Um dos primeiros atos dos reformistas vitoriosos foi abolir a escravatura nas colónias britânicas. Mas para a Revolução Negra em San Domingo, abolição e emancipação poderiam ter sido adiadas por mais trinta anos.

A abolição não chegou a França até a Revolução de 1848. A produção de açúcar de beterraba, introduzida em França por Bonaparte, cresceu exponencialmente, e colocou os interesses do açúcar de cana, baseado na escravatura na Martinica e na Guadalupe, cada vez mais na defensiva. Um dos primeiros atos do governo revolucionário de 1848 foi abolir a escravatura. Mas tal como em 1794, o decreto era apenas o registo de um facto existente. Tão ameaçadora era a atitude dos escravos em mais do que uma colónia que o governo local, de forma a evitar a Revolução Servil, proclamou a abolição sem esperar pela autorização de França.

O negro e a Guerra Civil

1848, o ano seguinte à crise económica de 1847, foi o início de um novo ciclo de revoluções em todo o Mundo Ocidental. As revoluções europeias, o Cartismo na Inglaterra, foram derrotadas. Na América, o conflito irreprimível entre o capitalismo no Norte e o sistema esclavagista no Sul foi protelado pela última vez pelo Compromisso do Missouri de 18506. Os desenvolvimentos políticos que se seguiram à crise económica de 1857 tornou mais um compromisso impossível.

Foi uma década de luta revolucionária por todo o mundo nos países colonialistas e semi-colonialistas. 1857 foi o ano da primeira guerra de independência Indiana, comumente apelidada de forma errada como o motim indiano. Em 1858, começou a guerra civil no México, que terminou com a vitória de Juarez, três anos depois. Foi o período da Revolução Taiping na China, a primeira grande tentativa de quebrar o poder da dinastia Manchu. Norte e Sul na América continuarem em direção ao seu confronto predestinado relutantemente, mas os negros revolucionários ajudaram a precipitar a questão. Durante duas décadas antes da Guerra Civil, abandonaram o Sul aos milhares. A organização revolucionária conhecida como o Underground Railway, com audaz eficácia e com experiência, drenou a propriedade humana dos donos de escravos. A lei do escravo fugitivo de 1850 foi uma última tentativa desesperada pelo Governo Federal de parar esta abolição ilegal. Dez Estados do Norte responderam com leis de liberdade pessoal que anularam as penalidades pesadas da lei de 1850. A mais famosa figura de todos os brancos e negros que fizeram o Underground Railway foi Harriet Tubman, uma negra que tinha ela própria escapado à escravidão. Ela viajou 19 vezes para o Sul e ajudou os seus irmãos e as suas esposas e trezentos outros escravos a escapar. Ela fez as suas depredações em território inimigo com um prémio de 40 000 dólares sobre a sua cabeça. Josiah Henson, o Uncle Tom original, ajudou quase duzentos escravos a escapar. Nada enfureceu mais os donos de escravos do que a drenagem de vinte anos no seu sistema económico já falido.

É desnecessário detalhar aqui as causas desta que é a maior guerra civil da História. Cada aluno negro sabe que a última coisa que Lincoln tinha em mente era a emancipação dos negros. O que é importante é que, por razões tanto internas como externas, Lincoln tinha de os trazer para a luta revolucionária. Ele disse que sem emancipação o Norte poderia não ter vencido, e ele tinha provavelmente razão. Milhares de negros lutavam do lado do Sul, esperando ganhar a sua liberdade desta forma. O decreto da abolição desfez a coesão social do Sul. Não foi só o que o Norte ganhou mas, como Lincoln apontou, o que o Sul perdeu. Do lado do Norte 220 000 negros lutaram com tal bravura que foi impossível fazer com tropas brancas o que foi feito com eles. Eles lutaram não apenas com bravura revolucionária mas com frieza e disciplina exemplares. Os melhores de entre eles estavam plenos de orgulho revolucionário. Eles lutavam por igualdade. Uma companhia empilhou armas a frente da tenda do seu oficial comandante num protesto contra discriminação.

Lincoln foi também conduzido à abolição pela pressão da classe trabalhadora britânica. Palmerston queria intervir pelo lado do Sul mas teve oposição do gabinete de Gladstone. Levada por Marx, a classe trabalhadora britânica opõe-se tão vigorosamente à guerra que foi impossível realizar um comício pró-guerra em qualquer sítio em Inglaterra. Os Tories britânicos ridicularizaram a ideia de que a guerra era pela abolição da escravatura: não o tinha dito Lincoln tantas vezes? Os trabalhadores britânicos, contudo, insistiam em ver a guerra como uma guerra pela abolição, e Lincoln, para quem a não-intervenção britânica era uma questão de vida e de morte, decretou a abolição de forma tão súbita que demonstrava a sua relutância em dar um tal passo revolucionário.

A abolição foi declarada em 1863. Dois anos depois, o movimento dos camponeses russos, tão jubilosamente saudado por Marx, assustou o Czar a ponto de decretar a emancipação dos servos. O Norte conseguiu a sua vitória em 1865. Dois anos depois, os trabalhadores britânicos conquistaram a segunda lei de reforma7, que deu franquia aos trabalhadores nas cidades. O ciclo revolucionário terminou com a derrota da Comuna de Paris em 18718. Uma vitória aí e a história da Reconstrução teria sido muito diferente

O negro e a Revolução mundial

Entre 1871 e 1905, a Revolução proletária esteve adormecida.

Em Africa, os negros lutaram em vão para manter a sua independência contra as invasões imperialistas. Mas a Revolução Russa de 19059 foi a precursora de uma nova era que começou com a Revolução de Outubro de 1917. Enquanto que meio milhão de negros lutaram com a Revolução Francesa de 1789, hoje a Revolução Socialista na Europa tem como potenciais aliados mais de 120 milhões de negros em Africa. Onde Lincoln teve de procurar uma aliança com uma população escrava isolada, hoje milhões de negros na América penetraram profundamente na indústria, lutaram lado a lado com trabalhadores brancos em piquetes, ajudaram a barricar fábricas com greves sentadas, tiveram um papel na luta e nos confrontos de sindicatos e partidos políticos. É apenas através deste espetáculo de perspetiva histórica que podemos plenamente apreciar as enormes potencialidades revolucionárias das massas negras de hoje.

Meio milhão de escravos, ouvindo as palavras Liberdade, Igualdade e Fraternidade gritadas por milhões de franceses a muitos milhares de milhas de distância acordaram da sua apatia. Eles ocuparam a atenção da Grã-Bretanha durante seis anos e para uma vez mais citar Fortescue, “praticamente destruíram o exército britânico.” E os negros de África hoje? Isto é um esboço simples do registo.

África Ocidental Francesa: entre 1926-1929, 10 000 fugiram para as florestas pantanosas para escapar a escravidão francesa.

África Equatorial Francesa: 1924, revolta. 1924-1925, revolta, 1000 negros mortos. 1928, Junho a Novembro, revolta no Sangha superior e Lai10 1929, uma revolta que durou 4 meses; os Africanos organizaram um exército de 10 000.

África Ocidental Britânica: 1929, uma revolta de mulheres na Nigéria, 30 000 em números; 83 mortos, 87 feridos. 1937, greve geral na Costa do Ouro. Lavradores, a que se juntaram estivadores e camionistas.

Congo Belga: 1929, revolta no Ruanda Urundi; milhares de mortos. 1930-1931, revolta de Bapendi, 800 massacrados num único local, Kwango.

África do Sul: 1929, greves e motins em Durban; o Bairro negro foi inteiramente cercado por tropas e bombardeado por aviões.

Desde 1935, houve greves gerais, com alvejamentos de negros, na Rodésia, em Madagáscar, no Zanzibar11 Nas Índias Ocidentais, houve greves gerais e ações de massas como nunca vistas antes desde a emancipação da escravatura há cem anos. Incontáveis foram mortos e feridos.

Acima temos apenas uma seleção. Os negros em África foram enjaulados e espancados contra as barras continuamente. É o proletariado europeu que tem a chave. Que os trabalhadores da Grã-Bretanha, França e Alemanha digam “De Pé, Ó vítimas da fome” tão alto quanto os revolucionários franceses disseram Liberdade, Igualdade, Fraternidade que forças podem conter estes negros? Todos os que sabem qualquer coisa sobre África sabem isto.

Mr. Norman Leys, um funcionário médico governamental no Quénia durante vinte anos, um membro do Partido Trabalhista Britânico, e sobretudo um revolucionário tal como o falecido Ramsay MacDonald, escreveu um estudo sobre o Quénia em 1924. Sete anos mais tarde ele voltou a escrever. Desta vez intitulou o seu livro “Uma última chance no Quénia”. A alternativa, ele disse, era a Revolução.

Em Caliban na África, Leonard Barnes, outro socialista diluído, escreve o seguinte: “Assim é que o branco sul africano e o nativo que ele mantém cativo se vão afundando fatalmente na corrente, descendo pelos rápidos a montante da grande catarata, ambos puxados por uma hora omnipotente.” Isto é a Revolução, embrulhada em papel prata.

A Revolução assombra este inglês conservador. Ele escreve outra sobre os Bantu, “Eles agacham-se no seu canto, nutrindo uma raiva e desesperando tateando por um plano. Não estarão muitos anos a tentar decidir. O tempo e o destino, mais predominantes que os rastrilhos do Afrikaner, estão a empurrá-los de trás. Algo tem de ceder; não serão o tempo ou o destino. Alguma reconstrução social e económica abrangente tem de ocorrer. Mas como? Pela razão ou pela violência?…

Ele coloca alternativas que são na verdade uma. A mudança ocorrerá, pela combinação da violência e da razão.

“Temos uma falsa ideia do negro”

Voltemos outra vez à Revolução de San Domingo com os seus somíticos meio milhão de escravos. Escrevendo em 1789, precisamente o ano da Revolução, um colonizador disse que eles eram “injustos, cruéis, bárbaros, semi-humanos, traiçoeiros, enganosos, ladrões, bêbados, orgulhosos, preguiçosos, sujos, desavergonhados, invejosos até à fúria e cobardes.”

Três anos depois Roume, o comissário francês, notou que mesmo lutando com os Realistas espanhóis, os revolucionários negros, organizavam-se em secções armadas e corpos populares, rigidamente observando todas as formas de organização Republicana. Eles adotaram slogans e gritos de guerra. Eles nomeavam chefes de secções e divisões que através desses slogans podiam chamá-los e mandá-los de volta a casa de uma ponta a outra da província. Eles obtiveram de entre as suas profundezas um soldado e um estadista de primeira ordem, Toussaint Louverture, e líderes secundários plenamente capazes de se comparar aos franceses na guerra, na diplomacia e na administração. Em dez anos, eles organizaram um exército que lutou contra o exército de Bonaparte ao mesmo nível. “Mas que homens estes negros são! Como eles lutam e como eles morrem!” escreveu um oficial francês recordando a última campanha 40 anos depois. No seu leito de morte, Leclerc, cunhado de Bonaparte e comandante-chefe da Expedição Francesa escreveu para casa, “Temos…uma falsa ideia do negro.” E novamente, “Temos na Europa, uma falsa ideia do país em que lutamos e dos homens contra quem lutamos…” Temos de saber e refletir sobre estas coisas hoje.

Ameaçados durante toda a sua existência pelo imperialismo, europeu e americano, os Haitianos nunca foram capazes de superar a amarga herança do seu passado. Contudo a Revolução de meio milhão não só ajudou a proteger a Revolução Francesa mas deu ela própria início a grandes revoluções. Quando os revolucionários da América Latina viram que meio milhão de escravos podiam lutar e vencer, eles reconheceram a realidade do seu próprio desejo de independência. Bolívar, derrotado e doente, foi ao Haiti. Os Haitianos trouxeram-no de volta à saúde, deram-lhe dinheiro e armas com as quais ele navegou até ao continente. Ele foi derrotado, voltou ao Haiti, foi mais uma vez bem recebido e apoiado. E foi do Haiti que ele navegou em direção a sua última campanha, que resultou na independência de cinco estados.

Hoje 150 milhões de negros, integrados na economia mundial infinitamente mais do que os seus antepassados de há cem anos, ultrapassarão em muito a obra do meio milhão de San Domingo na obra de transformação social. Os levantamentos contínuos em Africa; a recusa dos guerreiros etíopes em submeter-se a Mussolini; os negros Americanos que se voluntariaram para lutar em Espanha na Brigada Abraham Lincoln, como Rigaud e e Beauvais se tinham voluntariado para lutar na América, temperando a sua espada contra o inimigo além-mar para usar contra o inimigo em casa – estes relâmpagos anunciam a tempestade. O preconceito racial que agora nos barra o caminho irá ser subjugado pelo impacto tremendo da Revolução Proletária

Em Flint, durante a greve sentada de há dois anos, 700 brancos sulistas, mergulhados desde a infância em preconceito racial, deram por si cercados no edifício da General Motors com um negro entre eles. Quando chegou o momento da primeira refeição, o negro, sabendo quem e o que é que os seus companheiros eram, manteve-se na retaguarda. Imediatamente, foi proposto que não deveria haver discriminação racial entre os grevistas. 700 mãos ergueram-se juntas. Face ao inimigo da classe, os homens reconheceram que o preconceito racial era algo subordinado que não deveria perturbar a sua luta. O negro foi convidado a tomar o melhor assento primeiro, e após a vitória ter sido conquistada, na marcha triunfal para o exterior da fábrica, foi lhe dado o primeiro lugar. Isto é o prognóstico do futuro. Em África, na América, nas Índias Ocidentais, numa escala nacional e internacional, os milhões de negros ergueram as suas mãos, levantaram-se dos seus joelhos e escreveram alguns dos mais colossais e brilhante capítulos da história do Socialismo Revolucionário.

Fonte: New International, Vol. V No. 12 (Whole No. 39), Dezembro 1939 / Transcrição: Marxists Internet Archive

Notas:

1) As Leis de Reforma em Inglaterra foram uma série de leis e decretos aprovados entre 1832 e 1928 que estenderam o direito de voto a setores que tinham sido excluídos das eleições. O regime eleitoral continuou não democrático, contudo foi apenas em 1918 que os requisitos de propriedade foram eliminados, e em 1928 as mulheres conquistaram o direito de voto.

2) Jean Jaures (1859 -1914) foi um socialista francês, deputado pelo Partido Socialista francês e fundador do jornal l’Humanité, mais tarde órgão oficial do Partido Comunista Francês. (NT)

3) A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi ratificada a 26 de Agosto de 1789 pela Assembleia Constituinte Nacional Francesa.

4) Mantemos a expressão mulatos, optando por uma tradução direta de mulattoes, no original. Tendo completa noção das conotações negativas desta expressão, pela sua possível origem etimológica e, sobretudo, pelas suas implicações sociais e políticas, optamos por respeitar o carácter histórico do texto de CLR James. Mantemos a expressão em itálico em toda a tradução, para assinalar esta opção de tradução. (NT)

5) A Convenção foi o corpo criado pela Revolução Francesa para dirigir o país. Formou corpos tais como o Comité de Segurança Pública e o Comité de Segurança Geral. A Convenção foi dirigida principalmente pelos Jacobinos, a ala esquerda da Revolução, e durou de Setembro 1792 a Outubro 1795. Foi sucedida pelo Directório, que foi dominado pela Grande Burguesia e os sectores conservadores da Revolução.

6) Há uma discrepância com o termo usado aqui. No texto de James está escrito “Missouri Compromise of 1850.” O “Missouri Compromise refere-se a legislação passada em 1820 que foi mais tarde substituída pelo “Compromise de 1850” ao qual James se refere aqui. O “Compromise of 1850” foi uma série de leis passadas pelo Congresso dos Estados-Unidos em Setembro de 1850 para aplacar as tensões políticas entre os Estados livres e os Estados esclavagistas, em relação aos territórios conquistados na Guerra contra o México (1846-1848).

7) Passada pelo Parlamento Britânico em 1867, esta lei concede aos trabalhadores o direito de voto. A sua aprovação dobrou o número de eleitores de um para dois milhões.

8) Em Paris, trabalhadores organizados tomaram controlo da cidade e criaram o primeiro governo de trabalhadores da História. O domínio pelo povo durou dois meses e meio até ter sido esmagado pelo governo de Thiers, que executou mais de 20 000 trabalhadores parisienses.

9) Em 1905, na primeira Revolução Francesa, os trabalhadores de Petrogrado criaram Soviets (conselhos) que foram os órgãos de poder do proletariado. A Revolução de 1905 foi derrotada pelo Czar, mas ficou conhecida como o ensaio geral que preparou a Revolução vitoriosa de 1917, liderada pelo Partido Bolchevique de Lenine que estabeleceu a primeira república de trabalhadores da História.

10) A bacia superior do rio Sangha e a cidade de Laï pertencem à Africa Equatorial Francesa. Os conflitos aos quais James se refere foram parte da rebelião Kongo-Wara que durou até 1931

11) Madagáscar e Zanzibar são antigas Colónias Britânicas que mantiveram os seus nomes após a independência. A Rodésia do Sul foi uma colónia britânica a partir de 1888, que é agora o Zimbabwe. A Rodésia do Norte foi um território colonizado pelos britânicos em 1911, que é agora a Zâmbia. A 22 de Maio de 1935, a primeira greve geral rebentou na Rodésia do Norte nas minas de cobre. As exigências de jumentos de salários, melhores condições de trabalho e o fim da discriminação racial. Foi reprimida pelo exército, levando a 28 mortes e muitos detidos.

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