Se os principais sindicatos de base em Itália se conseguissem unir, poderemos ter em Itália uma Frente Única

Texto baseado na participação em debate de Nicola De Prisco a 26 de Fevereiro de 2021.

Parte da crise em Itália foi aberta há uns meses pelo governo Conte. Este governo anterior era apoiado pelo Partido Democrático, de centro-esquerda, o principal partido da burguesia imperialista italiana. Apoiava este governo também o Movimento 5 Estrelas, com maioria parlamentar. Este é uma força preponderantemente pequeno-burguesa e populista, mas de um populismo diferente das forças nacionalistas de Direita. O M5S procurava reunir membros da pequena burguesia radicalizada, ambientalista, com elementos da retórica de esquerda, e também proferia palavras de ordem nacionalistas de Direita. Em 2008 teve mais de 30% em eleições, mas hoje está reduzida a 14% e recentes sondagens dão-lhe menos. O antigo governo tinha aparentemente uma grande força e consenso popular. Guiseppe Conte era o líder mais popular e tinha o apoio da grande parte da burguesia capitalista italiana, mas o apoio popular só poderia ser volátil, e a sua força era, portanto, aparente. A sociedade italiana está dividida por uma pequena burguesia empobrecida e radicalizada pela crise, cujo processo de afirmação teve um entrave. Em Itália havia a tendência das massas de juntar-se ao Presidente em funções, agora como factor de maior segurança face à crise pandémica. Mas o processo de radicalização da classe média e pequeno-burguesa continua. Assim explico a fraqueza estrutural do governo Conte mas também a do futuro governo Draghi.

O antigo governo Conte tentou auxiliar e conter a raiva da pequena burguesia com ajudas económicas, mas estas são insuficientes e de facto nos passados Outubro e Setembro ocorreram fortes confrontos nas principais cidades italianas, manifestações de massas principalmente pequeno-burguesas, como do sector dos restaurantes, bares e actividades turísticas, sectores mais afectados e fechados pela pandemia. Nestas mobilizações existiam também sectores organizados de proletários e de desocupados. Havia palavras de ordem também progressivas como a exigência de que o governo pagasse de forma consistente a estas actividades antes de as fechar. Mas também haviam reivindicações reaccionárias. Negavam o Covid, bem como a necessidade de fechar as actividades comerciais, e minimizavam os efeitos da pandemia. Neste contexto, o proletariado industrial italiano está bastante parado. No início da pandemia, em Março de 2020 aconteceram greves operárias importantes para pedir medidas de segurança nas fábricas contra o perigo de contágio. A partir desse momento, o governo disponibilizou uma enorme quantidade de dinheiro, isto é, empréstimos bancários que agravam a dívida pública italiana a ser paga posteriormente pelos trabalhadores. As medidas do governo Conte limitaram-se ao “bloqueio de despedimentos” (na realidade apenas parcial porque não considerou os muitos que não tinham contrato permanente) e ao aumento do CIGO (Cassa Integrazione Guadagni Ordinária): trabalhadores teoricamente não vão trabalhar nos dias em que estão no “CIGO” e recebem um subsídio reembolsado pelo Estado, até que tenham de voltar a trabalhar normalmente para a empresa. Na verdade, foi demonstrado que muitas empresas usavam o CIGO, mas ainda faziam os trabalhadores trabalhar. Tudo isso com o apoio dos principais sindicatos. Essas medidas têm contribuído, junto com o medo do contágio e da direcção sindical, para a paralisação da classe trabalhadora das grandes fábricas. A minha interpretação é que a operação do partido Itália Viva de Renzi de pôr fim ao apoio ao governo Conte seja reflexo desta instabilidade social no seio da pequeno-burguesia e dos sectores médios muito numerosos e da luta interna da burguesia para dividir o dinheiro do fundo de recuperação de 209 mil milhões de euros. Uma parte do fundo de recuperação consiste em empréstimos a taxas de juros e a outra parte não é reembolsável. O BCE emitiu uma série de dívidas europeias, fez uma parceria com a banca privada e o dinheiro terá de ser pago à custa dos trabalhadores. Esta política de emissão de dívida é semelhante à de Draghi no BCE. A nomeação de Draghi é uma garantia da gestão do dinheiro do ponto de vista do grande capital, sem mediação de diversos actores políticos com interesses eleitorais, fazendo concessões. Mas também é verdade que Conte teria feito o mesmo, como já estava a fazer. Esta crise não foi determinada pelos de cima, nem desejada pelo grande capital, e esta solução era a melhor para a crise que não queriam. No próximo ano haverão muitos milhões de euros para investir e portanto será uma política económica ampla marcada pelo investimento para aumentar as margens de lucro dos capitais em Itália, com reformas como a digitalização que reduzirão os custos da força do trabalho da parte dos empresários.

O governo Draghi nasce também como a última arma da actual classe burguesa italiana para defender a governabilidade dentro do pântano institucional no parlamento burguês. É um governo que expressa o grande capital italiano e europeu, mas que neste momento no Parlamento tem o apoio de todos os partidos. Da Direita da Liga do norte de Salvini, à Esquerda burguesa do Ministro da Saúde Roberto Speranza, do partido Livres e Iguais (LeU). Este é um partido liberal-democrático, actualmente o mais à esquerda no arco parlamentar. Uma assembleia de membros do LeU votou contra o apoio ao governo Draghi, e inclusivamente um vulto do partido no Parlamento votou contra o apoio ao governo. Mas este é um voto que exprime o apoio ao antigo governo, que é visto pela Esquerda liberal-democrática como possível aliança de centro-esquerda.

A Liga de Salvini é um partido que nasce no início de 1990 e que nestes 30 anos já governou a nível regional e nacional e desde então, apesar de ter uma base social pequeno-burguesa, já se integrou no médio e grande capital em Itália. Neste momento Salvini continua a descer, continuando como primeiro partido em Itália, com 23% nas sondagens. A sua retórica representa no seio da Liga a face mais à Direita, mas há também uma outra parte mais “moderada” próxima do actual ministro Giancarlo Giorgetti, que mantém a ligação com a média burguesia do Norte. Esta burguesia industrial não tem nenhum interesse em sair do euro e da União Europeia. Assim, a retórica anti-euro de Salvini também poderia ser retomada num futuro próximo, sem realmente se transformar numa acção política consequente. Uma força que se baseia na pequena burguesia está destinada a integrar-se com os interesses do grande capital financeiro europeísta.

O único partido no parlamento que não votou o apoio ao governo Draghi foi o Fratelli D’Itália de Meloni, um partido oriundo do neofascismo italiano. Este é o único que está a crescer nas sondagens, passando de 4 a 5% em 2018 para 15/16% de hoje. Neste momento, todas as televisões, todos os jornais, a igreja e todos os partidos apoiam o governo Draghi. Também o partido de Meloni já disse que durante o governo votará a favor de algumas leis e que a sua oposição no Parlamento não será uma oposição dura. Na realidade, Meloni procura ganhar o consenso à Direita face a Salvini. Meloni e o seu partido podem agora ter um posicionamento mais radical, porque têm um menor peso no Parlamento e também um menor peso face à relação com a burguesia industrial no Norte de Itália. Esta retórica mais radical de Meloni procura concorrer contra Salvini. Quando Meloni ganhar o peso parlamentar que tem a Liga e o mesmo peso da média burguesia, terá incoerências e reviravoltas semelhantes às da Liga de hoje. Penso que o apoio da Liga a este governo não impedirá os sectores mais próximos de Salvini de criticar este governo daqui a meses, quando for menos popular entre as massas. E após a eleição do Presidente da República daqui a um ano não é certo que este governo continue.

A burocracia sindical de Cgil-Cisl-Uil apoia o governo Draghi de forma trágica, tal como apoiava o governo Conte. Esta revela-se parte integrante do estado burguês e uma das principais razões da passividade do proletariado industrial italiano. Existem porém também sinais de recomposição da classe trabalhadora. O principal elemento neste sentido é representado pela assembleia de trabalhadores combativos e também pela Frente Anticapitalista, expressões das mesmas relações de forças sindicais e políticas da Esquerda de classe italiana. Esta frente foi lançada pelo Si Cobas, pequeno sindicato de base, bastante combativo e radical e forte entre os trabalhadores da logística e principalmente os imigrantes. Dentro desta frente existem outras organizações como a Frente da Juventude Comunista, uma organização estalinista que rompeu com o partido comunista de Marco Rizzo, aliado do KKE grego. Esta organização juvenil porém é bastante numerosa e combativa em relação a outras organizações da Esquerda radical italiana, que em geral é muito reduzida a pequenos espaços. Dentro desta frente há também forças que reivindicam o Trotskismo e elementos que fazem parte da oposição de esquerda no CGIL (Confederazione Generale Italiana del Lavoro). Mas a principal organização dirigente é o Si Cobas, liderado por um grupo político de ultra-esquerda com tendências sectárias. Um outro elemento útil no processo de formação de uma frente de luta unitária dos trabalhadores foi a manifestação da passada semana na qual participaram elementos da Si Cobas e também outros sindicatos de base como o USB, dirigido por uma força estalinista chamada Rede dos Comunistas e que hegemoniza e dirige um partido diversificado chamado Potere al Popolo, que tem um peso eleitoral menor que 1%. Porém reagrupa algumas franjas de juventude combativa, entre as quais o centro social juvenil Ex Opg-Je so pazz. Nesta manifestação anti-Draghi participaram a Refundação Comunista e outras organizações políticas, o que é importante pois existe uma forte rivalidade no seio da Esquerda italiana entre USB/Popere al Popolo e Si Cobas.

A maior parte das forças da esquerda extra-parlamentar são pequeno-burguesas, tanto na composição social como no programa político. Se se fizesse uma frente da esquerda extra-parlamentar, esta dificilmente conseguiria entrar no Parlamento. Desejava sim uma frente na luta pela defesa dos direitos mínimos. Se houvesse a possibilidade de criar um novo partido operário e diversificado que se apresentasse a eleições, votaria nele, ainda que criticamente, com a perspectiva de trabalhar pela formação de uma organização revolucionária. Hoje não existe nenhum partido da classe trabalhadora.

Se os principais sindicatos de base em Itália se conseguissem unir, poderemos ter em Itália uma Frente Única fundamental para resistir aos ataques deste governo e de todos os que virão.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s