A vacina e as epidemias do capitalismo

O desenvolvimento de uma vacina para a COVID-19 foi saudado, justamente, como um triunfo da ciência e, injustamente, do próprio capitalismo. A cultura capitalista disseminou a ideia de que todos os problemas humanos têm uma solução tecnológica, e a busca pela vacina contra a COVID-19 é um exemplo claro dessa lógica. Não se depreenda daqui que somos contra a vacina. A sua descoberta foi uma verdadeira conquista e, na situação actual, só a vacina pode pôr fim a esta epidemia. Mas esta vacina de nada servirá para combater as potenciais epidemias que surgirão no futuro se a exploração capitalista dos recursos do planeta continuar inalterada. É hoje reconhecido que a exploração de áreas selvagens do planeta (por exemplo a exploração de madeiras ou as monoculturas e a pecuária intensiva em áreas de floresta tropical) têm vindo a expor cada vez mais a humanidade a patógenos que se mantinham isolados no interior da floresta. Uma vez contaminadas pessoas ou animais domésticos, a circulação global de produtos e pessoas serve depois de transporte para o causador da doença. O SARS-Cov-2 não é a nossa primeira experiência deste género. O HIV ou o ébola são exemplos de vírus que passaram para os humanos nessas regiões de contacto com ecossistemas selvagens. Portanto, a melhor salvaguarda da humanidade contra novas pandemias é proteger o planeta da predação capitalista, caso contrário viveremos o futuro em confinamentos regulares enquanto a ciência desenvolve o produto que dará resposta ao novo problema.

O triunfo da ciência rapidamente perdeu o brilho às mãos do mercado da saúde. É hoje claro que as empresas que assinaram contratos multimilionários com os governos se comprometeram com metas que não podiam cumprir. Os governos primeiro amuaram e depois conformaram-se. A santa liberdade dos mercados não pode ser limitada nem por uma pandemia que já infectou mais de cem milhões de pessoas (que são só os casos confirmados) e matou mais de dois milhões. Depois de assinados e pagos os contratos, que não foram respeitados pelas empresas, seria agora a hora de levantar as restrições à produção e comercialização impostas pelas patentes. As principais empresas já tiveram um bom encaixe financeiro para resolver parcialmente o problema e não pretendem ir além disso. Não existe nenhum plano de vacinação maciça imediata para o continente africano, e outras regiões pobres do planeta, e será ingénuo acreditar que a pandemia vai ficar debelada se houver um continente inteiro que não está imunizado. Ora isso só acontece porque a África não é um mercado interessante para as multinacionais das vacinas. Há muita capacidade de produção que poderia estar a ser usada para que toda a humanidade possa ser imunizada e se ponha fim a esta crise, mas para isso é preciso acabar com a propriedade das multinacionais sobre a fórmula da vacina.

Mas mesmo nos países ricos os planos de vacinação não deixam de expressar as enormes desigualdades existentes nas nossas sociedades. Em Portugal, os casos dos desvios de vacinas e vacinações indevidas são só a expressão de uma cultura retrógrada de exercício dos pequenos poderes que nunca foi seriamente contrariada, e que, na verdade, alimenta as estruturas dos partidos do centrão. O seu impacto no plano de vacinação é diminuto, mas tem sido inflacionado por uma direita desejosa de enfraquecer o governo e proteger as multinacionais que não produzem as vacinas que prometeram. Grave é também o desconhecimento de como a epidemia afecta diferentes sectores da população portuguesa. Conhecem-se bem os efeitos da doença em diferentes faixas etárias ou em diferentes comorbilidades. Mas ao contrário de outros países, como os EUA ou o Reino Unido, em que se verificou que os trabalhadores racializados estavam muito mais expostos ao vírus e sofriam as consequências de forma desproporcionalmente grande, em Portugal nada se sabe sobre esta questão. Mas sendo a nossa estrutura social tão semelhante à desses países, não seria de espantar que os mesmos problemas se verificassem aqui também. É apenas mais uma das situações em que a recolha de dados étnico-raciais poderia fazer a diferença na definição de grupos de risco e tornar a campanha de vacinação mais efectiva, mesmo que à custa de destruir a doce ilusão da inexistência de racismo estrutural em Portugal. Noutros casos, a desigualdade é conhecida e promovida. Israel, o campeão mundial da vacinação, tem impedido as vacinas de chegar aos palestinianos.

O capitalismo vai resolvendo os problemas à medida das suas necessidades e não das necessidades da população e do planeta. A dramática situação que se vive a nível nacional e internacional só mostra a urgência de inverter essa lógica. Aquilo que é necessário neste momento é um investimento sério no SNS e a quebra das patentes para que a vacina possa chegar mais rapidamente a todos e a todo o mundo.

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