Como esmagamos a Aurora Dourada

Entrevista a Petros Constantinou, originalmente publicada no site International Socialism. Tradução de David Santos.

A 7 de Outubro de 2020, após um julgamento que durou mais de cinco anos, um tribunal grego considerou os líderes da Aurora Dourada culpados de formar e organizar uma organização criminosa. Proclamado como o maior julgamento de Nazis desde os tribunais de Nuremberga do pós-guerra, um total de 68 membros da Aurora Dourada enfrentaram acusações.

Sete antigos parlamentares da Aurora Dourada, incluindo o líder do partido Nikos Michaloliakos, foram condenados por liderar uma organização criminosa. Outros foram condenados por participar nela.

O resultado deste julgamento foi um golpe final devastador para a Aurora Dourada. Em 2012. durante a enorme crise económica e política que assolou a Grécia após o crash financeiro global de 2008-2009, a Aurora Dourada tivera um avanço eleitoral dramático nas duas eleições gerais de Maio e Junho 2012, conquistando 7% e 18 parlamentares. Contudo, nas eleições gerais de 2019, a Aurora Dourada caiu abaixo do limiar dos 3% necessário para entrar no parlamento o que resultou na perda de todos os seus parlamentares.

Contudo, apesar da longa história de cumplicidade entre o Estado Grego e o partido governante Nova Democracia e a Aurora Dourada estava a ser exposta, foi argumentado que o esmagamento dos fascistas fora uma demonstração da robustez das instituições da democracia liberal. Forças políticas “mainstream” foram celebradas por terem afastado os “extremistas”.

A história real foi muito diferente. Foi um movimento anti-fascista de massas que quebrou a Aurora Dourada. Este movimento foi sendo progressivamente capaz de isolar a Aurora Dourada, escorraçando-a da arena pública e assim negando-lhe a oportunidade de se apresentar com uma face “respeitável” no rescaldo das suas conquistas eleitorais. Simultaneamente, o movimento anti-fascista colocou uma enorme pressão sobre a Nova Democracia e o Estado para que se distanciassem dos Nazis e lançassem uma perseguição legal.

No centro deste movimento anti-fascista esteve a organização Keerfa (Movimento Unido contra o Racismo e a Ameaça Fascista). Petros Constantinou é o coordenador da Keerfa e um membro do Partido Socialista dos Trabalhadores Gregos (SEK). Petros falou com Mark L. Thomas acerca do perigo que a Aurora Dourada representou, A estratégia da Keerfa e as lições para a luta internacional contra a extrema-direita.

MT:Nos anos 1980 e 1990, assistimos ao crescimento dos fascistas em França com a Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen, os ganhos do Partido da Liberdade na Áustria e assim por diante. Mas havia um argumento que a Grécia estava imune devido às experiências da ocupação Nazi durante a Segunda Guerra Mundial, a guerra civil entre Esquerda e Direita que se seguiu no final da década de 1940 e a ditadura militar de 1967-1974. Esta visão complacente foi destruída pelo avanço dramático da Aurora Dourada nas eleições de 2012. Quais foram as condições económicas e políticas que permitiram este desenvolvimento?

PC: Para compreender o que aconteceu em 2012, é necessário reconhecer que a ameaça fascista existia bem antes disso. Os Nazis estavam presentes na Grécia desde os anos 1990 como um muito pequeno grupo nas margens da política que organizava ataques físicos. Contudo, com o início da crise económica em 2007-08, vimos o governo grego e também a União Europeia usar os imigrantes e refugiados como bodes expiatórios e implementar o Pacto para o Asilo e Migração. Isto abriu espaço para partidos populistas de extrema-direita e os neo-Nazis da Aurora Dourada empurrarem a cena política para a Direita. No período antes da ascensão da Aurora Dourada, tivemos o partido populista de extrema-direita e islamofóbico LAOS (Λαϊκός Ορθόδοξος Συναγερμός, “Comício Popular Ortodoxo”) a entrar no parlamento,1 De facto, quando o Keerfa foi lançado em 2009, foi por causa da ascensão do LAOS. O LAOS tentou construir comitês de “cidadãos” contra refugiados e imigrantes. A Aurora Dourada esteve aí também envolvida em ataques a refugiados e imigrantes.

Em 2010, vimos a introdução da austeridade na Grécia com o chamado Memorando imposto pela União Europeia e o Fundo Monetário Internacional. A classe trabalhadora respondeu a estes ataques com uma série de greves gerais. Simultaneamente, iniciou-se um processo de crise política . Em 2011, o Partido conservador neoliberal, Nova Democracia, e o partido Social-Democrata , PASOK, formaram um governo de coligação, ao qual o LAOS também se juntou, para impor o Memorando.

Este foi o momento em que a escala de polarização social e o uso do racismo pelo governo realmente abriu um espaço para a Aurora Dourada. Com o LAOS comprometido com a sua participação num governo de austeridade, os nazis aproveitaram a oportunidade de se apresentar com a oposição real.

A Aurora Dourada procurou radicalizar ainda mais o racismo existente para formar esquadrões de ataque em partes de Atenas. Claro que sem o apoio da polícia teria sido impossível para eles controlar sequer a primeira área na qual construíram a sua base. O bairro ateniense de Agios Panteleimonas. Aí, foram capazes de construir um primeiro comité conjuntamente com membros do LAOS, tentando atrair apoio da população local para expulsar estrangeiros.

Mas estes desenvolvimentos tiveram lugar numa situação política geral que estava a transitar para a esquerda. Houve uma escalada da resistência dos trabalhadores com centenas de milhares, talvez milhões fazendo greves e manifestando-se. Vimos o colapso dos partidos tradicionais, tanto a Nova Democracia como o PASOK. Em 2009, estes dois partidos obtiveram quase 80% dos votos; nas eleições de 2012, juntos conseguiram 42%.

O partido de esquerda Syriza beneficiou disto. Conseguiu menos de 5% dos votos em 2009, mas saltou para quase 27% em Junho de 2012. Por isso , o que estava a acontecer foi uma mudança para a esquerda, não para a direita. Contudo, havia também uma profunda polarização e isso significava que a Aurora Dourada foi capaz de entrar no Parlamento. O aprofundamento da crise económica, o colapso dos partidos tradicionais da governação e a utilização pelo do racismo pelo governo abriu as portas aos Nazis.

Em 2012, uma vasta operação policial foi lançada sob a pretensão da fiscalização do estatuto de imigrantes de pessoas. O Estado batizou-a como “Operação Xenios Zeus”; isto era um eufemismo pois “Xenios” significa hospitalidade e o acolhimento de estrangeiros, não atacá-los com milhares de polícias. Cerca de 100.000 pessoas sofreram revistas corporais nuas e 6000 acabaram nos infames centros de detenção. Todo este processo abriu o caminho para uma vaga de pogroms e ataques racistas, bem como os assassinatos de Shahzad Luqman em Janeiro de 2013 e Pavlos Fyssas em Setembro de 2013

O sucesso eleitoral da Aurora Dourada foi uma escalada da ameaça fascista na Grécia. Tendo conquistado representação parlamentar, a Aurora Dourada começou a receber dinheiro do Estado, e usaram-no para se construir por toda a Grécia, abrindo mais de 50 sedes locais em diferentes cidades. Eles usaram-nas como bases para organizar ataques e campanhas de ódio contra os refugiados.

A Aurora Dourada exigiu que nenhuma criança refugiada pudesse frequentar jardins de infância; exigiram que os Presidentes de Câmara lhe fornecessem os nomes dessas crianças para que as poder expulsar dos jardins de infância. Também tentaram construir uma campanha nacional a volta do slogan “Sangue apenas para os gregos”, grupos de Nazis foram a hospitais e fizeram doações de sangue e depois exigiram que este apenas fosse dado a pacientes gregos. Obviamente foram expulsos desses hospitais.

Também lançaram uma campanha de dádiva de comida gratuita “apenas para gregos”, focada no centro de Atenas, e lançaram ataques físicos , incendiando mesquitas e destruindo montras de lojas que pertenciam a imigrantes.

MT: Se olharmos para a Europa, muitos dos partidos fascistas que conseguiram ganhos—a Frente Nacional ( agora Reagrupamento Nacional) em França e o Partido da Liberdade na Áustria, por exemplo—são predominantemente organizações eleitorais que tentam parecer respeitáveis. Os seus esforços para construir um braço paramilitar têm sido muito mais limitados. Por isso um dos perigos apresentados pela Aurora Dourada era serem uma organização Nazi paramilitar que teve um grande avanço eleitoral—tal como Hitler e os Nazis conseguiram nos anos 1930 e tal como referiu, o sucesso eleitoral da Aurora Dourada não significa que abandonaram a sua orientação paramilitar—pelo contrário procuraram usar os ganhos nas urnas para reforçar e aprofundar-la. Se não fossem travados, isso significaria que a Aurora Dourada tornar-se-iam um farol internacional, encorajando um endurecimento de outras correntes fascistas e demonstrando que se pode usar votos para organizar bandidos de rua e bandidos de rua para ganhar votos. Pode dizer-nos mais sobre a estratégia da Aurora Dourada? Como se apresentou? Qual a mensagem que promovia para tentar atrair apoio?

PC: Eles apresentavam-se sobretudo como nacionalistas gregos opostos à transformação do país numa colónia endividada aos banqueiros alemães. Usavam muita retórica antissemita, atacavam a esquerda como agentes de George Soros e ONGs, que culpavam por uma “invasão” da Grécia por imigrantes. Este racismo foi combinado com ataques à “islamização” da Grécia — o seu slogan foi “Atenas está a tornar-se Kabul”. Atacaram as forças políticas que consideravam ter traído a Grécia ao abrir as fronteiras aos refugiados e muçulmanos, e atacaram a esquerda, afirmando que as greves estavam a destruir a economia e assim por diante.

Assim a principal forma de tentar construir as suas forças foi através do racismo e da islamofobia. O uso de esquadrões paramilitares foi dirigido principalmente aos imigrantes e refugiados mas também, claro, à esquerda. Os seus escritórios locais foram as bases para essas forças paramilitares. Tome o exemplo de Nikaia, na área do Piréu.2 É daí que o esquadrão da Aurora Dourada que assassinou Pavlos Fyssas veio. Tinha se juntado com 20 motorizadas nas sedes locais da Aurora Dourada antes de partir para o matar.

Eles usaram essas sedes locais para construir as suas forças paramilitares — e fizeram-no mesmo em frente dos olhos da polícia. A relação entre a Aurora Dourada e a polícia foi um escândalo. A polícia encobria continuamente as suas acções. Era impossível para um imigrante dirigir-se à polícia e dizer “Eu quero apresentar queixa contra a pessoa que me esfaqueou.” A polícia simplesmente expulsá-los-ia. Até atacaram advogados de imigrantes no exterior de esquadras de polícia. A polícia esteve presente em muitos ataques da Aurora Dourada mas não fez nada para os travar. A polícia estava lá durante o assassinato de Pavlos Fyssas, e ele foi morto mesmo em frente dos seus olhos. Por isso eles estavam a proteger a Aurora Dourada.

Também havia relações entre o governo da Nova Democracia e a Aurora Dourada. 3 O secretário do grupo parlamentar da Nova Democracia teve discussões com Ilias Kasidiaris, o porta-voz da Aurora Dourada na altura. A Nova Democracia queria o apoio da Aurora Dourada para as suas propostas legislativas no parlamento.

Por isso, quando a Nova Democracia proclama hoje fazer parte da vitória dos antifascistas, é uma piada. Após o assassinato de Pavlos Fyssas e a repressão aos nazis, o Ministério da Ordem Pública disse que estava a mandar 32 casos ligados a Aurora Dourada ao procurador. Cada caso envolvia um ataque violento pela Aurora Dourada, mas eles tinham bloqueado estes durante anos e não os levaram a julgamento. Uma parte da classe governante num período de crise abriu espaço para a Aurora Dourada. Deram-lhes dinheiro, deram-lhes espaço para atacar os sindicatos, especialmente os estaleiros navais onde os sindicalistas do Partido Comunista foram atacados.

MT: Os patrões dos estaleiros navais deram-lhes apoio directo e dinheiro?

PC: Sim. E alguma da imprensa. Viam-se histórias nos media sobre como a Aurora Dourada era filantrópica. Havia uma foto famosa nos media de uma mulher idosa aceitando levantar dinheiro de um multibanco sendo escoltada por um membro da Aurora Dourada que afirmava estar a protegê-la de imigrantes que queriam roubar-lhe a pensão. Na verdade, a mulher era a mãe do membro da Aurora Dourada e foi tudo encenado.

MT: De que parte da sociedade grega a Aurora Dourada obteve os seus votos e apoio em 2012 e depois?

PC: Politicamente, o voto na Aurora Dourada veio de votantes tradicionais da Direita. A Aurora Dourada herdou os votos do LAOS, cujo apoio colapsou após terem feito parte do governo. Isto era uma grande parte do voto da Aurora Dourada. Uma outra parte do voto da Aurora Dourada veio da Nova Democracia. Eu diria que eles apenas tiveram uma pequena percentagem do seu apoio do PASOK. Ao nível social, claro, partes da pequena burguesia foram destruídas, tais como pequenos lojistas no Centro de Atenas, e alguns destes viraram-se para a Aurora Dourada.

E parte da máquina do estado votou neles — os militares, a polícia, as forças especiais da polícia todos votaram em centros separados, e assim sabemos que conquistou 55 ou 60% dos seus votos.

MT: Então isto foi uma radicalização de uma parte do eleitorado de Direita?

PC: Sim, mas a Aurora Dourada também estava a conseguir votos nos bairros da classe trabalhadora em Atenas e no Pireu, e isto era perigoso. Não mais do que a média, mas isto ainda era um desafio político significativo para a esquerda.

MT: Então a Aurora Dourada ameaçou implantar-se nas comunidades da classe trabalhadora?

PC: Eles estavam a tentar expandir-se para fora do centro de Atenas e em lugares como Nikaia e Perama. Isto era a ascensão da ameaça fascista aos sindicatos, eu diria. A sua estratégia era estabelecerem-se como um partido político, preservando o seu braço paramilitar e apresentarem-se como os protetores dos gregos contra os imigrantes. Em 2012-13, eles tentaram construir um partido Nazi mais forte. Eles já eram o terceiro maior partido após a Nova Democracia e o Syriza. Antes do assassinato de Pavlos Fyssas, eles pensaram poder subir aos 20% nas eleições e passar a frente do resto da Direita. A resistência foi crucial para impedir que isto acontecesse. A resistência dos trabalhadores à austeridade não foi suficiente. Também era preciso um combate especificamente antifascista.

Tabela 1: os resultados da Aurora Dourada nas eleições gerais.

AnoVotosPercentagensparlamentaresPosição
19964,5370.1014º
200919,6360.3010º
Maio 2012440,9667.021
Junho 2012426,0256.918
Janeiro 2015388,3876.317
Setembro 2015379,5817.0183rd
2019165, 7092.90

MT: Houve uma tentativa de retratar a derrota da Aurora Dourada como uma vindicação do Centro contra os “extremistas”. Esta narrativa esconde a cumplicidade da Nova Democracia e do estado, mas também apaga o papel do movimento antifascista de massas que atingiu os Nazis e finalmente os quebrou. Pode falar-nos da dinâmica deste movimento e do papel de Keerfa e a sua estratégia de construir de construir uma Frente Única que se dirigiu contra os fascistas?

PC: Esta reivindicação que o antifascismo faz parte do ADN da democracia liberal é ridícula. Na verdade, foram os tribunais gregos que deram à Aurora Dourada o direito de participar em eleições. A Aurora Dourada não era um grupo desconhecido. Em 2005, por exemplo, o partido teve de suspender as suas actividades para evitar um processo após dispararem sobre manifestantes a partir da varanda das suas sedes. Durante um julgamento de membros da Aurora Dourada em 1998 que tinham fisicamente atacado membros do Partido Socialista dos Trabalhadores (SEK) dois anos antes, um estudante activista foi agredido e esteve em coma durante dois meses. Os responsáveis por esse ataque foram condenados a penas de prisão de vários anos, e houve uma decisão pelos tribunais gregos de condenar a Aurora Dourada como um gang. Espantosamente, o líder desse ataque escapou à captura pela polícia e evitou a prisão durante anos. O sistema político sabia muito bem que a Aurora Dourada era um gang nazi. Como foi possível que lhes tivesse sido dada autorização legal para participar em eleições?

O papel da polícia na protecção das acções da Aurora Dourada foi crucial. Sem isso, o movimento antifascista tê-los-ia esmagado em 2007. Foi impossível para eles enfrentarem os antifascistas. Teríamos sido muito mais numerosos e tê-los-íamos derrotado. Mas a polícia sempre os defendeu. Houve muitos antifascistas que foram atacados pela polícia e levados aos tribunais.

Quando a Aurora Dourada entrou no parlamento em 2012, enfrentamos vários argumentos; “Porque dizem que eles não devem ter uma presença na televisão grega? Eles são um partido político. Porque não poderiam eles ter assento no parlamento ou nas municipalidades?” Ns opusemo-nos a estes argumentos, mas o sistema neoliberal não. Foi preciso um combate político para isolar os fascistas, e isso começou com chamar à Aurora Dourada Nazis. Foi crucial, o SEK começar a construir um movimento antifascista contra a Aurora Dourada muito antes do seu grande avanço. Não esperámos até que tivessem grandes ganhos; começamos 20 anos antes disso nos anos 1990.

Recordo-me que em 1992, houve uma grande campanha nacionalista a propósito da Macedónia, com o Estado Grego a insistir que “a Macedónia é grega”–e só grega.4

Há uma minoria macedônia na Grécia e nos apoiamo-los, bem como a minoria turca contra ataques nacionalistas. Houve mesmo julgamento de cinco dos nossos membros pela publicação de um livro, “A Questão Macedónia, os Balcãs e a classe trabalhadora”.

Os nazis atacaram o nosso partido, então chamado Organização da Revolução Socialista, particularmente por apoiarmos o direito dos Macedônios a chamarem-se a si próprios Macedônios. Durante todo este período, organizamo-nos contra os fascistas.

Em 1998, o SEK organizou uma campanha chamada “Parar Haider”. Vimos a ascensão de Jörg Haider do Partido da Liberdade na Áustria como uma ameaça que poderia impulsionar aqui na Grécia. Havia poucos fascistas, mas nós sabíamos, dada a atmosfera de racismo, que eles poderiam crescer. Por isso temos uma tradição de nos organizarmos contra os fascistas desde há muitos anos antes de eles terem dado um grande passo em frente.

Porquê? Primeiro, a nossa análise do fascismo significa identificarmos a ameaça fascista não quando eles estão prestes a entrar no parlamento ou controlar áreas inteiras, mas quando eles lançaram os primeiros ataques contra sindicalistas, a esquerda, os imigrantes, refugiados e aí por diante. Nós crescemos com esta abordagem.

Segundo, vimos a tradição de Leon Trotsky, que escreveu acerca da necessidade de uma Frente Única para vencer os nazis de Hitler. Esta tradição tem grandes lições para os revolucionários de hoje. O Keerfa foi este tipo de Frente Única. Uniu activistas de sindicatos e partidos de esquerda tais como o Syriza e de comunidades de imigrantes, Muçulmanos e LGBT+. Esta abordagem foi crucial para sermos mais numerosos que os Nazis. Entre 2007 e 2012, muita da esquerda subestimou a ameaça fascista. O SEK foi mesmo criticado por alguma da esquerda que dizia que estávamos a dar publicidade aos Nazis.

MT: Então esta abordagem foi contestada entre a esquerda?

PC: Sim. Alguns foram muito críticos quando começamos a organizar acções antifascistas tal como uma contra-manifestação no primeiro protesto dos Nazis em Agios Pantelemonias. Estivemos sozinhos na esquerda, com o apoio apenas de alguns anarquistas. Mas a comunidade paquistanesa esteve sempre connosco desde o primeiro momento. Sem a comunidade paquistanesa, não teríamos conseguido chegar a muitas áreas. Mas a força mais importante foi a classe trabalhadora organizada — professores, trabalhadores hospitalares, médicos, sindicatos dos funcionários públicos, e assim por diante. A construção nos sindicatos exigiu muito esforço porque combinou a luta contra o fascismo com a luta contra o racismo e a islamofobia. Nós construimo-nos a partir dos sucessos do movimento anticapitalista na Grécia do período dos grandes protestos gigantescos de Génova em 2001 e o movimento anti-guerra em 2003. Organizamos a resistência às guerras no Afeganistão e Iraque, e lutamos contra a islamofobia. O antirracismo foi parte integrante do enorme movimento anti-guerra. Eu diria que nos trouxemos do passado todas estas conquistas políticas para o movimento antifascista.

Foi por isso que foi possível para o SEK, uma organização da esquerda revolucionária, construir uma Frente Única como o Keerfa, que foi capaz de atrair sindicatos, comunidades de imigrantes e outros para ultrapassar em número os Nazis

MT: Após o avanço da Aurora Dourada em 2012, o desafio que o Keerfa enfrentava era de retirar a Aurora Dourada de cada uma das localidades em que se estava a construir. Por isso, um movimento que pudesse chegar a cada área da Grécia era necessário. O Keerfa expandiu-se como uma Frente Única neste período? Novas forças gravitaram a volta do Keerfa?

PC: É espantoso que quando começamos Keerfa em 2009, muito rapidamente tivemos grupos locais em mais de 70 áreas. Muitos eram na área à volta de Arenas, mas era uma rede nacional desde o início. Isso foi muito importante. Essa rede nacional foi capaz, desde o início de cooperar com outras coligações antifascistas e grupos locais que se desenvolveram em paralelo nesse período.

Até 2012 e 2013, a esquerda subestimou o perigo, mas após o assassinato de Pavlos Fyssas, eles juntaram-se ao movimento. Nessa parte da esquerda, houve pânico de que não era possível derrotar os Nazis, por isso a confiança que o Keerfa tinha na sua estratégia foi muito importante. O Keerfa foi o coração deste movimento, mas também a sua mente. Compreendemos como tomar as grandes decisões políticas que eram necessárias. Foi necessário após o sucesso eleitoral da Aurora Dourada não entrar em pânico mas construir localmente e ripostar com contra-manifestações. Isto funcionou. A Aurora Dourada não podia ter uma manifestação aberta para atrair pessoas e era impossível para eles construir a sua campanha eleitoral em 2012. Nós impedimos a campanha eleitoral da Aurora Dourada em todo o lado. Foi espantoso. Mesmo quando tinham entrado no parlamento, era impossível para eles ter comícios abertos.

MT: Então foram capazes de os empurrar para fora do espaço público, apesar de eles afirmarem que estarem no parlamento os tornava respeitáveis?

PC: Sim, também exigimos que as autoridades municipais que eram responsáveis por dar aos partidos políticos espaços para eventos durante as eleições – salões, praças, quiosques eleitorais e assim por diante – os recusassem à Aurora Dourada. Vencemos algumas decisões para negar estes espaços à Aurora Dourada, levando-os a cancelar o seu “festival da juventude” anual em Atenas.

O que aconteceu nos sindicatos foi também muito importante. Quando os Nazis tentaram impedir as crianças de refugiados de ir para as escolas, os professores estavam lá para as inscrever. Nos hospitais, foram os médicos do Sindicato dos trabalhadores da saúde que expulsaram os Nazis. Batalha após batalha, o poder da classe trabalhadora estava presente na guerra contra os Nazis.

Exigimos que a Aurora Dourada fosse impedida de aparecer na ERT, a televisão estatal. Organizamos uma grande campanha sobre esta questão e obtivemos o apoio do Sindicato dos jornalistas. O gestor da ERT afirmou que esta questão não era a sua responsabilidade mas sim de um comissão que monitoriza os media em relação a discursos de ódio. Continuavam a passar a responsabilidade uns para os outros. A solução chegou pelo Sindicato. Eles simplesmente disseram “Cada vez que tiverem os Nazis num programa, nós faremos greve.” Finalmente os Nazis levaram o Sindicato a tribunal – e perderam. Assim, ganhamos uma decisão judicial que significava que os Nazis não apareceriam na televisão.

A campanha antirracista que decorreu em paralelo com tudo isto também foi muito importante. Houve grandes mobilizações contra o racismo. Quando os patrões de uma quinta de morangos na Grécia Ocidental alvejaram 30 trabalhadores do Bangladesh em 2013 por exigirem salários atrasados, isso despertou uma enorme mobilização. Nós organizamos uma greve, que foi a primeira greve e mobilização de massas desses trabalhadores. Acabou com o terror na área. O Partido Comunista e os sindicatos não tinham sido capazes de operar nessa área. Nós acabamos com isso. Tornamos centrais tanto o combate antifascista como o antirracistas.

Três coisas foram cruciais. A primeira foi a táctica da Frente Única, da qual já falei

A segunda foi o papel central da classe trabalhadora organizada.

Isto foi mais do que militantes de esquerda pondo capacetes e confrontando fisicamente os fascistas sozinhos. Nós dissemos não a essa táctica. Nós dissemos que precisávamos da acção em massa dos trabalhadores – e conseguimos. Houve uma greve general quando Pavlos Fyssas foi assassinado e isso deu-nos a capacidade de organizar uma manifestação antifascista de 60 000, mesmo sem a concordância das lideranças dos grandes sindicatos. Eles disseram que iriam organizar um concerto. Nós dissemos “Ok, façam o concerto. Tenham música na Praça Syntagma. Mas nós vamos marchar em direcção ao quartel-general da Aurora Dourada”. E nós marchamos com 60 000. Isso forçou o governo a iniciar a repressão contra os neo-Nazis três dias após a greve geral.

Tivemos uma greve geral no primeiro dia do julgamento da Aurora Dourada em 2015. Nós ocupamos os espaços públicos no tribunal – nenhum apoiante da Aurora Dourada podia entrar. Tivemos uma manifestação de 3000 no exterior da prisão às 8 da manhã numa área remota de Atenas. E a 7 de Outubro de 2020. o dia em que o tribunal finalmente anunciou a decisão no julgamento, centenas de milhares juntaram-se às 11 da manhã após uma convocação para uma greve geral do Sindicato dos Funcionários Públicos e muitos outros. Por isso, mobilizar os sindicatos para quebrar os Nazis funcionou a 100%.

A terceira parte crucial do combate antifascista foi processar os Nazis cada vez que eles atacavam a esquerda, os sindicatos e os imigrantes. O julgamento da Aurora Dourada foi construído com 3 grandes casos – o assassinato de Pavlos Fyssas. O ataque aos sindicalistas do Partido Comunista e o ataque aos pescadores egípcios. O caso argumentava que a Aurora Dourada era uma organização criminosa e que os seus membros estavam envolvidos em mais de uma centena de ataques violentos.

O Keerfa propôs que houvesse um processo civil pelo movimento antifascista como parte do julgamento. Isto não é normal nos tribunais gregos; habitualmente o Estado seria a acusação, mas exigimos e vencemos uma acção civil neste julgamento. O Keerfa teve quatro advogados neste julgamento a representar os pescadores egípcios.

Foi muito importante acusar os Nazis. Houve uma grande discussão acerca disto, com alguns dizendo “Ora! O que está a fazer, Keerfa? A ir aos tribunais, ao Estado – isso vai abrir espaço para o Estado atacar a esquerda”. Mas isso estava errado. O Estado já estava a atacar a esquerda e os sindicatos, e o Estado já estava a proteger os Nazis. Por isso tínhamos de estar lá para expor todas estas ligações entre os Nazis, a polícia e o Estado.

Mesmo o líder da Aurora Dourada teve de admitir isso durante a conferência, creio que por volta de 2017, quando a eleição de Donald Trump deu um impulso à extrema-direita na Europa. Foi-lhe colocado uma questão – porque é que a Aurora Dourada não estava em ascensão? E o seu líder disse que havia duas razões. Primeiro, o julgamento implicava que eles tinham que provar que eram um partido legal e não podiam usar forças paramilitares. Segundo, o movimento antifascista fazia com que cada vez que eles tentavam actuar em público, fossem impedidos. Vencemos a decisão do tribunal por causa da campanha de massas e porque mobilizamos largas forças, incluindo autarcas locais, políticos do Syriza e mesmo alguns sociais-democratas.

O papel do SEK foi muito importante. Comparemos o desempenho do Syriza no governo – a forma como eles lidaram com a Aurora Dourada foi um falhanço institucional. Zoe Konstantopoulou, que se tornou presidente do Parlamento grego em 2015 após a vitória do Syriza, argumentou que as decisões do parlamento grego não eram legais porque os parlamentares da Aurora Dourada estavam na prisão. Isso foi vergonhoso. Podia ver-se parlamentares da Aurora Dourada lado a lado com parlamentares de Esquerda em dias nacionais simbólicos em eventos de Estado. Nós tínhamos razão em ser muito críticos desta abordagem do Syriza.

A campanha à volta do julgamento deu-nos a oportunidade de falar a uma audiência de massas e a pressionar os eleitores da Aurora Dourada. Dissemos “O que vocês estão a fazer é votar num criminoso. Vocês estão a votar num assassino. Isto não é o partido que vocês devem usar para mostrar a vossa fúria contra o sistema.” Todas estas tácticas funcionaram – o movimento antifascista, o movimento antirracista, a resistência dos trabalhadores e a actividade à volta do julgamento. Foi assim que vimos a Aurora Dourada ser expulsa do Parlamento nas eleições de 2019. A derrota abriu o caminho para os tribunais os condenarem e mandarem para a prisão.

Teria sido mais difícil se eles ainda estivessem no Parlamento. Depois disso, vimos as divisões na Aurora Dourada. Eles perderam a força para manter uma estratégia colectiva para se defenderem e, mais importante, já não tinham dinheiro. Tinham originalmente mais de 60 advogadas, que eram pagos pelo Parlamento grego. Mas o sucesso da campanha levou a que o Parlamento decidisse parar de lhes dar dinheiro.

MT: Tem alguns pensamentos finais sobre a importância internacional da derrota da Aurora Dourada? Quais são as lições chave para os socialistas em outros lugares que enfrentam uma luta contra fascistas e forças de extrema-direita?

PC: Há algo a acrescentar ao que eu já disse. Uma das razões que fez com que fosse possível vencer esta luta foi o poder da esquerda na Grécia. A esquerda é enorme na Grécia. Sem isso teria sido impossível. É muito importante a relação com o resto da esquerda, mesmo se eles fizerem parte do governo. É muito importante como se aborda as pessoas da classe trabalhadora de esquerda. Para mim, tem tudo a ver com a Frente Única e a acção classe trabalhadora organizada. Pode-se vencer mostrando que os Nazis não são um partido político normal mas um gangue paramilitar. E tem-se de persegui-los – mesmo nos tribunais.

Finalmente, neste período de grande crise, isto não é o fim. Mesmo com a maior vitória, não podemos ser complacentes e achar que este é o fim da história. É isto que estamos a debater agora. Passamos para o nível seguinte do movimento antifascista. Outro partido populista de extrema-direita, Solução Grega, conseguiu entrar no parlamento. É uma cisão do LAOS, liderada por Kyriakos Velopoulos, e é nacionalista e islamofóbico. E ainda há grupos activos de Nazis nas ilhas gregas. Onde o governo está a fechar as fronteiras. Estes Nazis estão a assassinar refugiados e a atacar a esquerda e o movimento de solidariedade com os refugiados.

Por isso ainda não chegamos ao final da história. Temos de continuar a construir o movimento antirracista. Senão, abrir-se-á outra vez espaço para os Nazis. O governo da Nova Democracia está a usar a retórica do primeiro-ministro húngaro Viktor Orban. Fala em substituição da população grega por imigrantes, afirmando que os muçulmanos estão a “invadir” e que os refugiados são espiões do presidente da Turquia, Recep Erdogan. A Grécia e a Turquia estão em competição pelo controlo dos recursos de gás no Mar Mediterrâneo e isto está a conduzir a uma retórico vitriólica, racista e nacionalista. Por isso é muito importante que continuemos a construir a alternativa socialista contra os fascistas, porque as raízes dos fascistas estão no sistema. Quando o sistema tem medo, torna-se muito aberto aos Nazis. Temos de continuar a construir decisivamente sobre o grande sucesso do que conseguimos a 7 de Outubro de 2020.


Petros Constantinou é um membro do Partido dos Trabalhadores socialistas gregos (SEK), um vereador na municipalidade de Atenas e o coordenador do Movimento contra o racismo e ameaça fascista (Keerfa).

Notas

1 Laos conseguiu 3.8 % do voto em nas eleições gerais de 2008 obtendo 10 parlamentares. Dois anos depois, aumentaram para 5.6% e 15 parlamentares.

2 Piraeus is a major port on the edge of Athens. Pireu é um dos maiores portos nos arredores de Atenas.

3 Após as eleições de 2012, a Nova Democracia formou um governo liderado por Antonis Samaras

4 Após o desmembramento da Jugoslávia em 1991-2, o Estado grego opôs-se ao direito de um dos recentemente independentes estados sucessores se chamar a si próprio Macedónia. Durante foi referido como a antiga República Jugoslava da Macedónia, mas hoje chama-se Macedónia da Norte.

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