Não perder o norte na luta anti-fascista

O meio milhão de votos obtido por André Ventura nas eleições presidenciais foi um choque para a grande maioria dos nossos concidadãos, mas foi particularmente duro para aqueles que se empenharam nas candidaturas da esquerda e nos protestos anti-fascistas. Muitos activistas pensaram que esses protestos iriam contribuir para que a votação de Ventura fosse significativamente reduzida. Naturalmente, o resultado do candidato fascista coloca todos os activistas perante uma reflexão estratégica sobre como prosseguir a luta numa nova situação política. Nas discussões em que tenho participado têm surgido recorrentemente dois argumentos, que estão geralmente encadeados. O primeiro é o de que os protestos anti-fascistas acabaram por concentrar as atenções em André Ventura, por dar-lhe “palco” e, assim, contribuir para a sua votação. Consequentemente, este tipo de protestos deve ser abandonado e substituído por outras formas de ação, ainda não claramente definidas, mas que passariam por evitar o confronto direto com os fascistas. O objectivo deste artigo é reforçar a ideia de que os protestos contra Ventura valeram a pena e que é necessário manter a mobilização anti-fascista nas ruas.

Comecemos pela questão do “palco”. A primeira manifestação contra Ventura ocorreu em Évora, a 18 de Setembro de 2020, a propósito da Convenção do Chega que se realizou nessa cidade. Não foi em Évora, e certamente não por causa da manifestação anti-fascista, que Ventura se tornou uma figura política com projeção nacional. Antes disso já tivera o palco da CMTV durante vários anos; já tivera o palco oferecido por Pedro Passos Coelho nas eleições autárquicas de Loures (palco esse que não lhe foi retirado mesmo depois das suas toadas racistas contra os ciganos); já tivera o palco que o Tribunal Constitucional lhe ofereceu com a legalização do Chega (mesmo com as assinaturas falsas); já tivera o palco dos interesses mais ou menos ocultos que lhe pagaram as campanhas eleitorais e espalharam a sua imagem em outdoors por todo o país; já tivera o palco dado por uma comunicação social deslumbrada pela sua boçalidade. Por fim, teve o palco que lhe foi dado pelo PSD, com o acordo para a formação do Governo Regional dos Açores.

É, portanto, evidente que os activistas anti-fascistas não se devem sentir culpados pela ascensão de Ventura. Outros, muito mais poderosos e influentes, nunca lhe colocaram qualquer obstáculo. Mas gostaria de convidar os nossos leitores a fazer o seguinte exercício: imaginem que não tinha havido nenhuma manifestação anti-Ventura durante a campanha presidencial. Teria Ventura usado um discurso menos racista e preconceituoso? É evidente que não, pois é esse o tema que desde 2017 (em Loures, quando ainda era do PSD…) mobiliza o seu eleitorado. Teriam as televisões deixado de transmitir as suas ações de campanha e os seus soundbites? É evidente que não, porque as televisões seguem todos os candidatos e Ventura sabe que qualquer alarvice tem presença garantida nos telejornais. Se não tivesse havido protestos, pareceria simplesmente que uma campanha xenófoba, racista e machista poderia fazer parte da normalidade democrática. As manifestações anti-fascistas foram o principal contributo para impedir a normalização de uma candidatura fascista.

Há um outro aspecto em que as mobilizações foram importantes. O Chega tem vivido uma guerra civil interna, com cisões, abandono de militantes e dirigentes e uma lei da rolha que castiga quem se atreve a criticar o líder. A campanha eleitoral teve para Ventura uma importância estratégica de consolidação do seu poder sobre o partido. Tivessem sido eleições autárquicas e todos os conflitos internos viriam ao de cima. Numa eleição unipessoal, Ventura sabia que era só ele e a sua oratória, e que como tal podia mobilizar o voto dos sectores mais reaccionários do PSD e do CDS (que neste caso representa quase todo o CDS) e ter um bom resultado que calaria a oposição interna. A campanha serviria também para fazer novos contactos, levar novas pessoas para o Chega, mais deslumbradas com o fulgor oratório do chefe, mais convencidas do seu papel de messias do que aqueles que saíram ou ainda estão no partido a rabujar contra Ventura. O facto é que as manifestações fizeram com que aquelas pessoas não aparecessem nas acções de campanha e com que o Chega perdesse uma preciosa ocasião para construir ou reconstruir estruturas locais. Em Serpa, em Setúbal, em Évora, em Coimbra e tantos outros locais, Ventura falou para plateias de jornalistas e meia dúzia de dirigentes. Isto não representa um golpe fatal para o Chega, mas permitiu-nos ganhar algum tempo precioso para organizar a próxima ronda da luta, que se vai desdobrar inevitavelmente num combate a nível nacional e a nível local.

Àqueles que ainda assim consideram que os protestos vitimizaram Ventura, acabando por mobilizar um público descontente que, de alguma forma, sentiu que votar num candidato tão atacado seria uma forma de protesto, e concedendo que de facto esse voto pode ter uma componente de protesto altamente mediada, gostaria de chamar a atenção para o seguinte. As principais linhas de demarcação da campanha de Ventura foram o racismo e o desprezo pelos pobres. Essas linhas foram repetidas até à exaustão ao longo de toda a campanha e, portanto, quem votou Ventura sabia muito bem ao que ia. A verdade que temos de encarar, é que nas actuais circunstâncias (e por razões que o Manuel Afonso explica muito bem aqui), um comentário racista mobiliza mais que mil vitimizações. Isto não significa que os votantes de Ventura sejam todos fascistas e é precisamente isso que faz com que o confrontar o fascismo nas ruas seja tão importante, pois impede o contacto entre os fascistas que dirigem o Chega e o simples votante que se deixa enganar pelo discurso de Ventura.

No que diz respeito aos votos, talvez seja mais acertado supor que as manifestações tiveram mais impacto em mobilizar o voto anti-fascista, que fez inclusivamente com que uma parte muito apreciável do eleitorado do BE e do PCP tivesse votado em Marcelo Rebelo de Sousa e Ana Gomes. Esse parece ser já um dado objectivo e que creio que não terá outra explicação senão a urgência em garantir que Ventura não passasse a uma segunda volta ou ficasse em segundo lugar.

Mas já que falamos de dados objectivos vejamos mais alguns: as manifestações espalharam-se pelo país de forma espontânea e criaram o embrião de um verdadeiro movimento popular contra o fascismo. Nesse movimento participou activamente a comunidade cigana, que em consequência se mobilizou para votar como nunca antes fizera. Mobilizaram-se jovens, mulheres, desempregados, artistas e trabalhadores, mas ainda assim fomos uma ínfima parte das nossas reservas. Todos sabemos como têm surgido por toda a parte pessoas que querem reforçar este movimento. Falta ainda trazer o movimento LGBT, os sindicatos, o movimento negro, os partidos da esquerda e os seus militantes. Devemos compreender que a nossa força é muito superior à da extrema-direita e que continuar a confrontá-la nas ruas não é um fetiche nem é incompatível com outras formas de luta: é uma estratégia indispensável se queremos derrotar o fascismo.

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