Fim do governo Conte: o que está ocorrendo na Itália?

Nicola De Prisco, direto da Itália

Na manhã de terça-feira, 26 de Janeiro, Giuseppe Conte pediu sua renúncia ao cargo de primeiro-ministro ao chefe de Estado, Sergio Mattarella, após um encontro que durou cerca de meia hora. Agora, vários cenários possíveis se abrem: desde um “novo governo Conte” (seria o terceiro desde o início desta legislatura) com o apoio do Partido Democrático e Movimento Cinco Estrelas- M5S – a um governo “de unidade nacional” – que no momento parece estar na pole position – até o menos provável e mais “traumático”: dissolução das Câmaras e consequente retorno às urnas.

A crise foi desencadeada pelo partido Italia Viva, partido do ex-premiê Matteo Renzi, no dia 13 de Janeiro, quando os ministros Bellanova e Bonetti, renunciaram, após se absterem na véspera, durante o Conselho de Ministros, a proposito do Plano de Recuperação do país (Plano Nacional de recuperação e resiliência).

O plano de gestão do Fundo de Recuperação é certamente o principal objeto da disputa: 209 bilhões da União Europeia em várias parcelas, principalmente empréstimos a grandes empresas, os quais serão então debitados nas costas dos trabalhadores através do já conhecido mecanismo de austeridade. Conte havia proposto uma força-tarefa de técnicos e gerentes liderada por ele e alguns ministros; Renzi reivindicou uma governança mais colegiada da Recuperação, portanto, maiores margens de decisão para seu partido. O senador Renzi reivindicava uma gestão mais colegiada da Recuperação, portanto maior margem de decisão para seu Partido. Renzi também criticou sobre a excessiva centralização de poderes nas mãos de Conte, que também detinha a delegação dos Serviços Secretos, acusando-o de ser uma ameaça a democracia, comparando-o a Salvini.

Estes são apenas os últimos acontecimentos de uma escalada de atritos que vêm de longe e que teveram um salto qualitativo em dezembro, na virada das férias de Natal, mas que ainda surpreendeu muitos observadores, pois Italia Viva conseguiu mudar parto do conteúdo do plano de Recuperação, bem como outras concessões de Conte. A surpresa é ditada sobretudo pela necessidade de estabilidade da burguesia, em um contexto de crise sanitária e econômica muito forte, que corre o risco de se tornar social. Além disso, nem o partido Italia Viva (abaixo de 3% nas pesquisas), nem qualquer força da atual maioria e nem mesmo muitos parlamentares fora dela, têm interesse em ir às eleições agora, pois correm o risco de não serem reeleitos, sobretudo tendo em conta que na próxima legislatura o número de parlamentares será reduzido, em virtude da reforma constitucional que entrou em vigor em setembro passado.

Em síntese: a grande burguesia não queria esta crise (com Conte bem posicionado nas pesquisas de popularidade); a maioria dos parlamentares não quer correr o risco de perder seus assentos; Renzi correria o risco de desaparecer se fôssemos às eleições agora. Qual então pode ser a razão por trás dessa escolha? Foi um cabeçalho ditado pelo personalismo de Renzi, como muitos afirmam, mesmo parte da esquerda italiana, ou há mais outros elementos?

Apesar do já conhecido ego hipertrófico do líder Renzi, decisões tão importantes, principalmente de políticos experientes, quase nunca são frutos de motivações pessoais, e meros acontecimentos políticos, mas quase sempre têm raízes sociais. Nesse sentido, é útil olhar para o contexto em que essa crise se desenrola. Se é verdade, como mencionado, que os índices de aprovação de Conte são bastante elevados, é igualmente verdade que a calma é apenas aparente: o fechamento forçado, mesmo que parcial, de estabelecimentos comerciais e atividades diversas, na ausência de suporte econômico adequado colocaram de joelhos grande parte da pequena burguesia italiana, já abalada pela anterior e contínua crise econômica.

No último outono na Itália houveram manifestações de massa em todo o país, contra as medidas do governo, com reivindicações contraditórias (como por exemplo, o pedido de reabertura de negócios independentemente da pandemia). Ao mesmo tempo, a classe trabalhadora das grandes empresas  no horizonte o fantasma do desbloqueio das demissões (as estimativas divulgadas pelo governo preveem a perda de um milhão de empregos). A isto se deve acrescentar que as camadas mais precárias do proletariado, os trabalhadores temporários, os negros, os dos setores de restauração, hotelaria, lazer, esporte e entretenimento, já sofreram nos últimos meses despedimentos disfarçados ou cortes salariais muito importantes. A componente feminina é a que mais tem suportado os custos desta crise, quer ao nível das dispensas, quer do aumento da carga do trabalho doméstico, decorrentes da conjugação do encerramento de escolas e da ausência (crônica) de acolhimento de crianças, além de lockdowns em espaços habitativos, bem como o aumento do teletrabalho.

A Itália, portanto, parece um barril de pólvora social, no qual, no entanto, o componente “hegemônico” corre o risco de ser a pequena burguesia radicalizada de direita, na ausência de uma força operária organizada e dotada de uma estratégia adequada. Um pequeno elemento em contra-tendência, neste contexto, surge a partir do Pacto de Ação pela Frente Anticapitalista, lançado pelo sindicato de base Si Cobas, presente sobretudo entre os trabalhadores do setor logístico, aos quais aderiram algumas realidades do movimento juvenil, professores organizados. A oposição interna da CIGL, partidos da esquerda anti-capitalista, trabalhadores da saúde, trabalhadores do entretenimento, bem como elementos de outros sindicatos de base. Uma contra-tendência que também pode se materializar na construção de uma efetiva frente única de classe, se evitados os erros sectários, já vividos na última década.

É neste contexto de crise econômica, social e sanitária que se deve ler a dinâmica da atual crise política italiana. Sem o doping financeiro vindo de Bruxelas, que atrasa mas agrava os efeitos da própria crise, com um endividamento público crescente que voltará a ser liquidado nas classes mais baixas, as margens de lucro da burguesia tendem a diminuir e isso faz com que mais complicada, entre outras coisas, também a partilha do bolo pela própria burguesia, com o aumento das querelas entre as várias facções da classe dominante, bem como entre os seus representantes políticos.

O caso de Renzi, em particular, é o do rápido declínio de um sonho bonapartista(1), de um político que em poucos anos passou de, o principal representante do imperialismo italiano, para o anônimo de muleta minoritária de Conte, agora destinado à política de eutanásia com seus meros 2,6%. O movimento desesperado de Renzi é, portanto, provavelmente uma tentativa de recuperar a centralidade, de aproveitar o que poderia ser a última chance de sua vida para colocar as mãos em uma enorme quantidade de dinheiro e poder e ainda para creditar a si mesmo aos olhos de uma parte (até mesmo uma minoria) da pequena burguesia, já em rota de colisão com o executivo cessante, como aquele que menos partilhou das escolhas econômicas da maioria, e ser notado por uma parte da grande burguesia como aquele que impôs um inescrupuloso e liberalista do Fundo de Recuperação. Tudo isso a partir de uma aposta, aquela de não ir às eleições, e de um blefe, fingindo estar pronto para as eleições para poder abraçar a mesma maioria (com ou sem Conte) em condições mais vantajosas para ele. Mesmo com esses “jogos” táticos seriam impossíveis se não houvesse essas tendências de conflito crescente entre as classes (ou classes médias).

Certamente nem mesmo o próximo governo, seja ainda dirigido por Conte ou algum outro membro do establishment, será amigo da classe trabalhadora, dos trabalhadores e das massas oprimidas: não preparará um plano de vacinação adequado, livre de chantagens das multinacionais; não fechará as atividades não essenciais para evitar a nova onda de infecções; não garantirá um salário integral para quem trabalha nesses setores; não dará renda suficiente aos pequenos comerciantes para sobreviver à crise; não garantirá transporte, serviços de saúde e educação com aumento de pessoal e ferramentas adequadas às necessidades; nunca fará um plano econômico ao serviço do bem-estar coletivo, sob o controle e a gestão dos próprios trabalhadores e por fim, continuará privilegiando os lucros à vidas das pessoas.

Essas necessidades vitais só podem ser colocadas na ordem do dia pelo protagonismo da classe trabalhadora organizada em torno de um programa revolucionário. Este protagonismo requer instrumentos de defesa adequados à violência dos ataques sofridos e, portanto, antes de tudo, uma frente de massas unida.

(1) “Sonho bonapartista” aqui é entendido pela não concretização de um projeto prático, mas o uso da categoria de “bonapartismo”, ainda que entre aspas, porque Renzi tentou se tornar um interlocutor direto das massas, contornando os sindicatos confederais, chegando a um grande consenso (40%) na primavera de 2014, a fim de usar esse consenso e essa cobiçada representação popular para servir os interesses dos patrões de uma forma mais enérgica e menos democrática: em seu governo ele realmente trouxe para casa contra-reformas que os patrões há muitos anos que esperavam, como o cancelamento definitivo do artigo 18 do Estatuto dos Trabalhadores. O sonho tornava-se um projeto concreto com a proposta de reforma constitucional no sentido presidencial, e com o fortalecimento do Executivo em detrimento do Parlamento, que foi rejeitada no referendo de dezembro de 2016, que o levou à renúncia ao cargo de primeiro-ministro. Este sonho foi então retomado pelo próprio Conte

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