“As vacinas podem ajudar, mas é preciso intervir para que a covid-19 não seja seguida pela covid-20, covid-21, etc.”. Entrevista com Rob Wallace

Reproduzimos a seguinte entrevista realizada em novembro de 2020 por Josefina LMartínez a Rob Wallace que é um biólogo evolutivo, ecólogo e investigador na Universidade de Minnesotta [Estados Unidos]. No ano de 2016, publicou o livro “Big Farms make big flu”, onde previa o surgimento de pandemias como a atual, aceleradas pelas transformações capitalistas das últimas décadas. Recentemente, publicou o novo livro “Dead Epidemiologists” (2020), dedicado inteiramente à crise da covid-19.

A entrevista foi publicada originalmente no El Salto e a tradução realizada pelo Cepat.

Eis a entrevista.

– Em “Big Farms make big flu”, explicava que a gestação de crises pandêmicas está muito relacionada à expansão da agricultura intensiva e aos centros de produção industrial de alimentos. O poder dos agronegócios condena-nos a crises virais recorrentes? 

A indústria da alimentação está a expandir as fronteiras florestais e isso aumenta o interface entre a fauna silvestre, que acolhe alguns dos patógenos mais mortais, com o rebanho industrial criado nessas margens, e também com os trabalhadores que se ocupam deles. Produz-se um aumento no tráfego destes novos patógenos dos animais selvagens, por meio do rebanho e a mão de obra, para as cidades locais de regiões que estão conectadas com a rede global.

Por isso, um surto que surge em uma caverna no centro da China, no prazo de semanas pode acabar propagando-se em Miami. Antes, isto era contido pela complexidade dos ambientes florestais locais, mas essas matas foram mutiladas em sua complexidade, de forma que permitiu aos patógenos estender-se para os seres humanos nessas regiões, sobre o rebanho, e de uma forma ou outra, chegar ao outro lado do mundo.

 – De maneira que foram abertas “portas” que os ecossistemas mantinham fechadas. 

O modo como a agricultura intensiva avança na sua produção, focada somente nos lucros, destruiu a ecologia que bloqueava e marginalizava os piores patógenos. Este é o marco geral que também explica o surto de ebola na África ocidental. Inicialmente, o ebola surgiu em alguns povoados, matando centenas de pessoas, mas em 2013 estendeu-se, contagiando 35.000 pessoas, matando 11.000 e deixando cadáveres pelas ruas de grandes cidades.

É um processo gerado com a introdução de novas monoculturas, como as plantações de óleo de palma, que destroem as florestas. Este é um extremo do circuito da produção, nas fronteiras florestais. Mas, por outro lado, temos as quintas industriais de frangos e porcos, instaladas nas redondezas de grandes cidades e que podem abrigar os piores patógenos das gripes, que podem contagiar os seres humanos nas proximidades.

O vírus que gera a Covid-19, também chamado SARS-CoV-2, surgiu em morcegos no sul e centro da China. As fronteiras interiores foram expandidas lá pelo desenvolvimento industrial e o desmatamento, aumentando essa interação da qual falava antes. Desde que o SARS-1 apareceu em 2002, os cientistas foram capazes de detectar todos os tipos de coronavírus, não só na China, mas no mundo. E os coronavírus se espalharam para todos os tipos de animais: rebanho industrial, animais silvestres que são vendidos como alimento, e também contagiando diretamente humanos. Já tivemos três grandes episódios mortais: SARS-1, MERS no Oriente Médio, e SARS-2, e tudo isto aconteceu apenas nos últimos 20 anos.

Ressalta que é preciso reajustar a visão sobre os processos que estão na base da extensão dos novos vírus: processos pelos quais organismos vivos se transformam em mercadorias que percorrem cadeias de valor, em diferentes regiões. Qual é a responsabilidade das grandes multinacionais nesta crise? 

A agricultura capitalista exerce o seu papel de duas maneiras: na China, expande-se nas fronteiras silvestres. Mas não se trata apenas da China. Grande parte do investimento estrangeiro provém de outras partes do mundo. Por exemplo o Goldman Sachs, investiu 3 bilhões de dólares em quintas de frangos na China. Tivemos também surtos de vírus nas redondezas da Cidade do México por causa de gripes que estavam a circular em quintas de propriedade norte-americana. Na Europa, tiveram o H5NX e não nos esqueçamos do Zika no Brasil. Ou seja, os patógenos estão a emergir em todo o planeta, não é apenas um fenômeno chinês.

Este é um fenômeno global. A economia natural anterior foi transformada numa agricultura industrial, um processo no qual os alimentos são considerados como qualquer outro insumo e os animais são tratados antes como mercadorias do que como animais. O problema é que, no curso desta industrialização da produção de alimentos, também foram industrializados os patógenos que circulam em seu redor, razão pela qual se tornaram mais perigosos, mais mortíferos, mais contagiosos e capazes de se transmitir rapidamente de uma ponta à outra do planeta.

– Algo inquietante que surge da sua análise é a pergunta sobre a efetividade que uma vacina pode ter. Hoje, estão depositadas grandes expectativas no desenvolvimento das vacinas para a Covid-19, quase como fosse certa a cura milagrosa. Mas as condições que possibilitam a propagação destes vírus seguem presentes… 

As vacinas são uma parte importante das respostas médicas, de modo algum me oporia a elas, já que fazem parte dos avanços para que as inovações médicas sejam acessíveis à população. O problema é que nunca houve uma vacina para o coronavírus, e mesmo quando agora for alcançada, há uma boa possibilidade de que só seja parcialmente protetora. Por isso, há uma grande possibilidade de que o coronavírus SARS-2, o covid-19, continue a circular. Mesmo assim, a vacina pode ter um papel importante, como uma ferramenta que tente travar esta pandemia.

O maior problema é que o modelo de produção de vacinas é sempre posterior aos surtos da pandemia. E nada faz para impedir estes surtos antes que ocorram. Portanto, em certo sentido, são uma distração. Ainda que necessárias, também podem ser uma distração acerca das medidas necessárias para evitar que os patógenos continuem expandido-se nesta magnitude e desta forma.

– Quais medidas? 

Isto implicaria intervir na agricultura de uma forma que fosse possível reintroduzir, de algum modo, uma diversidade de espécies que pudessem atuar como um muro contra estes patógenos, para evitar a sua aceleração e transformação em agentes perigosos para todo o mundo. E para isso seria necessário introduzir diferentes raças, permitir autonomia aos produtores, com possibilidades de escolher o que cultivam e onde, além de contar com apoio financeiro para criarem todos os tipos de animais diferentes, o que introduz a diversidade não só ao nível da quinta, mas em paisagens inteiras. De tal modo que qualquer patógeno que surja não seja capaz de ganhar velocidade, nem de espalhar-se em todo o território.

Em essência, seria necessário fazer o que a maioria da classe política não quer fazer, já que o agronegócio é um poder político forte em quase todos os países, em termos de impor o seu modelo econômico, que gera muitos lucros. Precisamos de algo diferente. E mesmo quando as vacinas talvez possam ajudar, no meio de uma emergência, outras intervenções estruturais são necessárias para que a covid-19 não seja seguida pela covid-20, covid-21 e covid-22.

– Os Estados oferecem respostas parciais frente à emergência, mas não tomam medidas estruturais. Esta parece ser a tônica geral. Nos seus trabalhos, destaca que a falta de investimento nos sistemas de saúde abriu terreno para a circulação das doenças pandêmicas. Nesta segunda onda, são impostos toques de recolher que restringem a mobilidade, mas indústrias não essenciais, bares e outros negócios são mantidos abertos. Qual é a sua opinião a respeito da gestão da crise nos Estados Unidos e Europa? 

Assim como nos Estados Unidos, a Europa está organizada a partir de um paradigma político e econômico que recompensa os ricos, tornando-os mais ricos. Portanto, se preciamos começar a lidar com os investimentos necessários para enfrentar a escalada da pandemia de Covid, isto deve implicar algo distinto. O paradoxal é que em países autocráticos como o Vietnam e a China, a população agora é mais livre do que em países ocidentais, porque fizeram o necessário no início da crise e, com isso, a população pode sair livremente às ruas. Mas os governos ficaram tão focados em que aqueles que faziam dinheiro tivessem liberdade para continuar, que agora o resto da população está a pagar o preço, em termos de saúde e direitos limitados.

– Há alguns dias, publicou um novo livro: “Dead Epidemiologists”. O que é que nos pode antecipar? 

Pegamos em algumas das lições que tiramos do “Big Farms make big flu” e aplicamos à Covid-19. O passo importante a seguir é compreender as diferentes maneiras como os diferentes vírus podem emergir dentro do mesmo sistema. Antes, descrevi como o ébola emergiu em um extremo dos circuitos da produção, perto da fronteira florestal. Falamos do surgimento das gripes em outra localização, mais perto das cidades, entre a produção industrial de rebanho gado.

E o covid-19 parece emergir em uma zona intermediária, expandindo-se dos morcegos e animais silvestres para o rebanho industrial, sendo transmitido durante anos pela China de diferentes maneiras, antes de aparecer em uma forma mais infecciosa em Wuhan. O livro explora as trajetórias do vírus, das cavernas na China, passando pelas salas de reuniões comerciais em Nova York, até os matadouros de animais no oeste dos Estados Unidos.

Falamos sobre as origens da agricultura industrial e a expansão de patógenos, em relação à emergência do capitalismo há centenas de anos. Mostra, de um modo que até agora não havia sido apontado, que os patógenos surgem não apenas nessas coordenadas de GPS em que podemos identificar mais facilmente sua presença. É preciso entender que a doença emerge de uma ponta à outra do globo e como o planeta está cercado pelos circuitos do capital, talvez as cidades mais perigosas sejam Nova York, Londres e Hong Kong, porque são grandes centros de capital que financiam o desmatamento e o desenvolvimento da industrialização em todo o mundo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s