A formação dos intelectuais

Texto original em: Antonio Gramsci, Guerre de mouvement et guerre de position,
Textes choisis et presentes par Razmig Keucheyan, La fabrique Editions, Paris, 2011.

Cadernos do cárcere

Trechos escolhidos do Caderno 12 (1932)
Apontamentos e notas para um conjunto de ensaios sobre a historia dos intelectuais

Os intelectuais constituem um grupo social autónomo e independente ou cada grupo social possui a sua própria categoria especializada de intelectual? O problema e complexo por causa das varias formas que, ate aos nossos dias, assumiu o processo histórico real de formação das diversas categorias de intelectuais. São duas as mais importantes dessas formas: 

Qualquer grupo social que nasce no terreno originário de uma função essencial no mundo da produção económica, estabelece junto dele, organicamente, uma ou mais camadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função, não apenas no campo económico, mas também no social e no político: o empresário capitalista cria consigo o técnico da indústria, o cientista da economia política, o organizador de uma nova cultura, de um novo direito, etc. E preciso assinalar que o empresário representa um produto social superior, caracterizado já por uma certa capacidade dirigente e técnica, isto é, intelectual. Para além da esfera restrita da sua actividade e da sua iniciativa, deve possuir uma certa capacidade técnica noutras esferas, pelo menos nas mais próximas da produção económica (deve ser um organizador de massas humanas, um organizador da confiança dos que investem na sua empresa, dos compradores da sua mercadoria etc.). Os empresários – se não todos, pelo menos entre a sua elite – devem possuir a capacidade de organizar a sociedade em geral, desde todo o seu complexo organismo de serviços, até ao organismo estatal, tendo em vista a necessidade de criar as condições mais favoráveis a expansão da própria classe; ou, pelo menos devem possuir a capacidade de escolher os “altos funcionários” (empregados especializados) a quem confiar esta atividade organizativa das relações gerais exteriores a empresa. Pode observar-se que os intelectuais “orgânicos”, que cada nova classe cria com a sua existência e que elabora no seu desenvolvimento progressivo, são, na maioria das vezes, “especializações” de aspectos parciais da actividade primitiva do novo tipo social que a nova classe revelou.. [Os senhores feudais eram também detentores de uma capacidade técnica particular, a militar, e e precisamente a partir do momento em que a aristocracia perde o monopólio desta capacidade técnico-militar que se inicia a crise do feudalismo. Mas a formação dos intelectuais no mundo feudal e no mundo antigo que o precedeu e um problema que deve ser examinado a parte: esta formação e elaboração seguem caminhos e modos que e preciso estudar concretamente. E de salientar que a massa dos camponeses, ainda que desenvolva uma função essencial no mundo da produção, não elabora os seus intelectuais “orgânicos” próprios e não “assimila” nenhuma camada de intelectuais “tradicionais”, embora outros grupos sociais extraiam da massa dos camponeses muitos dos seus intelectuais e grande parte dos intelectuais tradicionais seja de origem camponesa]

Mas cada grupo social “fundamental”, que emerge na historia a partir da estrutura económica precedente e como expressão de um dos seus desenvolvimentos (desta estrutura), encontrou, pelo menos na historia tal como se desenrolou ate aos nossos dias, categorias sociais pré-existentes, as quais apareciam, Aliás, como representantes de uma continuidade histórica que não fora interrompida nem sequer pelas mais complicadas e radicais modificações das formas sociais e políticas. A mais típica destas categorias intelectuais e a dos eclesiásticos. Tal categoria monopolizou durante muito tempo (todo um período histórico e parcialmente caracterizado por este monopólio) alguns serviços importantes: a ideologia religiosa, isto é, a filosofia e a ciência da época, assim como a escola, a instrução, a moral, a justiça, a beneficência, a assistência etc.

A categoria dos eclesiásticos pode ser considerada também a categoria intelectual organicamente ligada a aristocracia fundiária: era juridicamente equiparada a aristocracia, com a qual partilhava o exercício da propriedade feudal da terra e o uso dos privilégios de Estado ligados a propriedade. Mas o monopólio das super-estruturas detidas pelos eclesiásticos (onde tem origem a acepção geral de “intelectuais” – ou de “especialistas” – dada a palavra “clérigo”, e ao correspondente “laico” no sentido de profano, não especialista, em muitas línguas de origem neolatina ou fortemente influenciadas, através do latim eclesiástico, pelas línguas neolatinas,) não foi exercido sem lutas e sem limitações; e foi assim que nasceram, sob variadas formas (que devem ser investigadas e estudadas concretamente), outras categorias de intelectuais que foram favorecidas e desenvolvidas pelo reforço do poder central monárquico, ate chegar ao absolutismo. Foi-se assim formando a aristocracia da toga, com os seus privilégios próprios: uma camada de administradores etc., sábios, teóricos, filósofos não eclesiásticos etc.

Dado que estas varias categorias de intelectuais tradicionais experimentam com um “espírito corporativo” o sentimento da sua ininterrupta continuidade histórica e da sua “qualificação”, posicionam-se como autónomos e independentes do grupo social dominante. Este posicionamento não deixa de ter consequências de grande importância no campo ideológico e político (toda a filosofia idealista pode ser facilmente relacionada com esta posição assumida pelo complexo social dos intelectuais e pode ser definida como a expressão desta utopia social segundo a qual os intelectuais acreditam ser “independentes”, autónomos, investidos de características próprias etc. Deve-se notar, porém, que se o papa e a alta hierarquia da Igreja se creem mais ligados a Cristo é aos apóstolos do que aos senadores Agnelli e Benni, o mesmo não ocorre com Gentile e Croce, por exemplo. Croce em especial, sente-se fortemente ligado a Aristóteles e a Platão, mas não esconde, pelo contrário, estar ligado aos senadores Agnelli e Benni e e precisamente aqui que devem ser procuradas as características mais relevantes da filosofia de Croce.)

[Esta investigação sobre a história dos intelectuais não será de caráter “sociológico”, mas possibilitar uma serie de ensaios de “historia da cultura” (Kulturgeschichte) e de historia da ciência política. No entanto será difícil evitar algumas formas esquemáticas e abstratas que lembram as da “sociologia”: e por isso que será necessário encontrar a forma literária mais adequada para que a exposição seja “não-sociológica”. A primeira parte da investigação poderia ser uma crítica sistemática das obras já existentes sobre os intelectuais, quase todas de cunho sociológico. Torna-se, portanto, indispensável um levantamento da bibliografia sobre o tema).

Quais são os limites “máximos” da acepção de “intelectual”? E possível encontrar um critério unitário que permita caracterizar igualmente todas as diversas e variadas actividades intelectuais e ao mesmo tempo distingui-las, de modo essencial, das atividades dos outros agrupamentos sociais? O erro de método mais difundido parece-me ser o de ter procurado este critério de distinção no que e intrínseco as atividades intelectuais, em vez de procurá-lo no conjunto do sistema de relações no qual estas atividades (e, consequentemente, os grupos que as personificam) se encontram, no conjunto geral das relações sociais. Na verdade, o operário ou o proletário, por exemplo, não se caracteriza especificamente pelo trabalho manual ou instrumental (para não falar no facto de que não existe trabalho puramente físico e de que mesmo a expressão de Taylor, “gorila amestrado”, e uma metáfora para indicar um limite numa certa direção. Em qualquer trabalho físico, mesmo no mais mecânico e degradado, existe um mínimo de qualificação técnica, isto é, um mínimo de atividade intelectual criadora), mas por exercer este trabalho em determinadas condições e em determinadas relações sociais. E, como já observamos, o empresário, em virtude da sua função, deve possuir em certa medida um certo número de competências de caráter intelectual, se bem que a sua figura social seja determinada não por elas, mas pelas relações sociais gerais que caracterizam efetivamente a posição do empresário na indústria.

Poder-se-á dizer então que todos os homens são intelectuais: mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de intelectuais [assim como o facto de qualquer um poder, em determinado momento, fritar dois ovos ou remendar um casaco, não significa que todos sejam cozinheiros ou alfaiates]. Formam-se assim, historicamente, categorias especializadas para o exercício da função intelectual; formam-se em ligação com todos os grupos sociais, mas especialmente em ligação com os grupos sociais mais importantes, e ficam sujeitas a uma formação mais forte e complexa em ligação ao grupo social dominante. Uma das características mais marcantes de todo o grupo social que se aproxima do poder e a sua luta pela assimilação e pela conquista “ideológica” dos intelectuais tradicionais, assimilação e conquista que são tão mais rápidas e e capazes quanto mais o grupo em questão criar simultaneamente os seus próprios intelectuais orgânicos. O enorme desenvolvimento alcançado pela atividade e pela organização escolar (em sentido lato) nas sociedades que surgiram do mundo medieval indica a importância assumida no mundo moderno pelas categorias e funções intelectuais: assim como se procurou aprofundar e ampliar a “intelectualidade” de cada indivíduo, procurou-se igualmente multiplicar as especializações e aperfeiçoá-las.

E este o resultado das instituições escolares de diversos níveis, incluindo os organismos que visam promover a chamada “alta cultura”, em todos os campos da ciência e da técnica. (A escola e o instrumento para preparar intelectuais de diversos níveis. Pode medir-se de forma objetiva a complexidade da função intelectual em diferentes Estados pela quantidade de escolas especializadas e pela sua hierarquização: o mundo cultural, a civilização, de um determinado Estado, e tão mais complexa quanto mais extensa é a “área” escolar e quanto mais numerosos forem os “níveis verticais” da escola. Pode ter-se um termo de comparação na esfera da técnica industrial: a industrialização de um país mede-se pelo seu equipamento no domínio das máquinas para a construção de máquinas, e no da fabricação de instrumentos cada vez mais precisos para construir máquinas e instrumentos que construam máquinas etc. Pode dizer-se do país que possui o melhor equipamento no domínio da construção de instrumentos para os laboratórios dos cientistas e para construir instrumentos que testem estes instrumentos, que e o país mais complexo no campo técnico-industrial, o mais civilizado etc. O mesmo acontece na preparação dos intelectuais e nas escolas destinadas a tal preparação: escolas e instituições de alta cultura são similares). Também neste domínio, a quantidade é inseparável da qualidade. A mais refinada especialização técnico-cultural não pode deixar de corresponder a maior ampliação possível da difusão da instrução primaria e a maior solicitude na promoção do acesso do maior número de pessoas aos graus intermédios. Naturalmente, esta necessidade de criar a mais ampla base possível para a selecção e elaboração das mais altas qualificações intelectuais – ou seja, a necessidade de dar uma estrutura democrática a alta cultura e a técnica superior – não deixa de ter inconvenientes: cria-se, deste modo, a possibilidade de grandes crises de desemprego nas camadas medias intelectuais, tal como realmente ocorre em todas as sociedades modernas).

Deve-se notar que, na realidade concreta, a formação das camadas intelectuais não ocorre num terreno democrático abstrato, mas de acordo com processos históricos tradicionais muito concretos. Formaram-se camadas que, tradicionalmente “produzem” intelectuais; trata-se das mesmas camadas que, muito frequentemente, se especializaram na “poupança”, isto é, a pequena e media burguesia fundiária e alguns estratos da pequena e media burguesia urbana.

A distribuição variável dos diferentes tipos de escolas (clássicas e profissionais) no território “económico” e as diferentes aspirações das varias categorias destas camadas determinam ou dão forma a produção dos diversos ramos de especialização intelectual. Assim, na Itália, a burguesia rural produz especialmente funcionários do Estado e profissionais liberais, ao passo que a burguesia urbana produz técnicos para a indústria. E isto que explica porque o norte de Itália produz essencialmente técnicos e a Itália meridional essencialmente funcionários e membros das profissões liberais. A relação entre os intelectuais e o mundo da produção não e imediata, como é o caso nos grupos sociais fundamentais, mas é “mediada”, em diversos graus, por todo o tecido social, pelo conjunto das superestruturas, do qual os intelectuais são precisamente os “funcionários”. Poder-se-ia medir o “carácter orgânico” dos diversos estratos intelectuais, a sua ligação mais ou menos estreita com um grupo social fundamental, fixando uma gradação das funções e das superestruturas de baixo para cima (da base estrutural ate a cúpula). Pode, desde já, fixar-se dois grandes “níveis” superestruturais: aquele que pode ser chamado o nível da “sociedade civil”, isto é, o conjunto de organismos chamados comummente de “privados”, e o nível da “sociedade política ou Estado”, correspondendo um a função de “hegemonia” que o grupo dominante exerce sobre toda a sociedade; e o outro a “dominação directa” ou de comando, que se expressa no Estado e no governo “jurídico”.  Estas funções são precisamente de organização e de conexão.  Os intelectuais são os “altos funcionários” do grupo dominante para o exercício das funções subalternas da hegemonia social e do governo político, isto é, de assegurar:

  1. o consentimento “espontâneo” das grandes massas da população a orientação impressa a vida social pelo grupo fundamental dominante, consentimento que nasce “historicamente” do prestígio (e, portanto, da confiança) que o grupo dominante obtém, por causa da sua posição no mundo da produção;
  2. o funcionamento do aparelho de coerção do Estado que garante “legal-mente” a obediência dos grupos que não “consentem”, nem activa nem passivamente, mas que foi constituído para ser aplicado ao conjunto da sociedade, em antecipação dos momentos de crise de comando e de direção, quando desaparece o consenso espontâneo.

Esta forma de colocar o problema traz como resultado uma ampliação muito grande do conceito de intelectual, mas apenas assim e possível chegar a uma aproximação concreta da realidade. Este modo de colocar a questão entra em choque com os preconceitos de casta. E verdade que a própria função de organização da hegemonia social e do poder do Estado da lugar a uma certa divisão do trabalho e, por conseguinte, a toda uma escala de qualificações, sendo que de algumas delas estão ausentes quaisquer atribuições diretivas e organizativas: no aparelho de direcção da sociedade e do Estado existe toda uma serie de empregos de carácter manual e mecânico (de execução e não de concepção, de simples agente e não de oficial ou funcionário etc.), mas, evidentemente, e preciso fazer esta distinção, como será preciso fazer também outras. De facto, mesmo do ponto de vista intrínseco, a actividade intelectual deve ser diferenciada em graus, graus esses que, nos momentos de extrema oposição, dão lugar a uma autêntica diferença qualitativa. No escalão mais elevado devem ser colocados os criadores nas diversas ciências, na filosofia, nas artes etc.; e no mais baixo, os mais humildes “administradores” e distribuidores da riqueza intelectual já existente, tradicional, acumulada. A organização militar oferece, também neste caso, um modelo semelhante de gradações complexas: oficiais subalternos, oficiais superiores, estado-maior; sem esquecer os praças graduados, cuja importância real e superior ao que habitualmente se crê. E interessante notar que todas essas partes se sentem solidárias e que mesmo as camadas inferiores manifestam um espírito de corpo mais evidente e uma vaidade que frequentemente os expõem aos gracejos e as trocas.

A categoria dos intelectuais, assim entendida, ampliou-se de modo inaudito no mundo moderno. Foram criadas pelo sistema social democrático-burocrático, imponentes massas de intelectuais, nem todas justificadas pelas necessidades sociais da produção, ainda que justificadas pelas necessidades políticas do grupo fundamental dominante. Resulta daqui a concepção de Loria do “trabalhador” improdutivo (mas improdutivo em relação a quem e a que modo de produção?), que poderia ser em parte justificada se se levasse em conta o facto de estas massas beneficiarem da sua posição para se atribuírem enormes fatias do rendimento nacional. A formação em massa uniformizou os indivíduos, quer na qualificação individual quer na psicologia, produzindo os mesmos fenómenos que ocorrem em todas as outras massas uniformizadas: a concorrência que faz nascer a necessidade da organização profissional de defesa, o desemprego, a sobreprodução escolar, a emigração etc [. . . ].

Posição diversa dos intelectuais de tipo urbano e de tipo rural. Os intelectuais de tipo urbano cresceram juntamente com a indústria e estão sujeitos as suas vicissitudes. A sua função pode ser comparada a dos oficiais subalternos no exército: não possuem nenhuma iniciativa autónoma na elaboração e planeamento da produção; colocam em relação, articulando-a, a massa instrumental com o empresário, elaboram a execução imediata do plano de produção estabelecido pelo estado-maior da indústria, controlando as suas fases executivas elementares. Os intelectuais urbanos que pertencem a media geral são bastante uniformizados ao passo que os intelectuais urbanos dos escalões mais elevados se confundem cada vez mais com o autêntico estado-maior industrial.

Os intelectuais de tipo rural são em grande parte intelectuais “tradicionais”, isto é, ligados a massa social camponesa e a pequena burguesia de cidades (em particular dos centros de importância menor), ainda não elaborada e posta em movimento pelo sistema capitalista: este tipo de intelectual põe em contacto a massa camponesa com a administração do Estado central ou local (advogados, notários etc.) e, em virtude da função que cumpre, possui uma grande função político-social, já que a mediação profissional dificilmente se separa da mediação política. Além disso: no campo, o intelectual (padre, advogado, professor, notário, medico etc.) goza em media de um nível de vida superior, ou pelo menos diferente, do camponês médio e representa, por isso, para este camponês, um modelo social de aspiração, para sair da sua condição e de melhorá-la. O camponês acredita sempre que pelo menos um dos seus filhos pode tornar-se intelectual (especialmente padre), isto é, tornar-se um senhor, o que, dadas as ligações que não poderá deixar de ter com os outros senhores, elevar o nível social da família e facilitar a sua própria vida do ponto de vista económico. A atitude do camponês diante do intelectual é dúplice e parece ser contraditória: admira a posição social do intelectual e em geral a dos funcionários públicos, mas finge as vezes desprezá-la, isto é, a sua admiração mistura-se instintivamente com elementos de inveja e de raiva apaixonada. Não se compreende nada da vida coletiva dos camponeses, bem como dos germes e fermentos de desenvolvimento aí existentes, se não se leva em consideração, se não se estuda concretamente e não se aprofunda esta subordinação efectiva aos intelectuais.

Todo o desenvolvimento orgânico das massas camponesas, até certo ponto, está ligado aos movimentos dos intelectuais e deles depende.

O caso dos intelectuais urbanos e diferente. Os técnicos de fabrica não exercem nenhuma função política sobre as massas trabalhadoras, ou, pelo menos, e esta uma fase já superada; por vezes, ocorre precisamente o contrario, ou seja, que as massas trabalhadoras, pelo menos através dos seus próprios intelectuais orgânicos, exerçam uma influência política sobre os técnicos.

O cerne da questão continua a ser a distinção entre intelectuais como categoria orgânica de cada grupo social fundamental e intelectuais como categoria tradicional; distinção da qual decorre toda uma série de problemas e de possíveis pesquisas históricas. Deste ponto de vista, o problema mais interessante e o que diz respeito ao partido político moderno, as suas origens reais, aos seus desenvolvimentos, as suas formas. Qual a posição do partido político em relação ao problema dos intelectuais? E necessário fazer algumas distinções:

  • para certos grupos sociais, o partido político não e senão o modo próprio de elaborar a sua categoria de intelectuais orgânicos, que se formam assim, e não podem deixar de se formar diretamente no campo político e filosófico – dadas as características gerais e as condições de formação, de vida e de desenvolvimento do grupo social dado – e não no campo da técnica produtiva (no campo da técnica produtiva, formam-se os estratos que correspondem, pode-se dizer, aos “soldados graduados” do exército, isto é, os operários qualificados e especializados na cidade e, de modo mais complexo, os meeiros e feitores no campo, pois o meeiro e o feitor correspondem geralmente ao tipo do artesão, que e o operário qualificado de uma economia medieval);
  • para todos os grupos, o partido político e precisamente o mecanismo que cumpre na sociedade civil a mesma função desempenhada de um modo mais vasto e mais sintético  pelo Estado na sociedade política; ou seja, proporciona a fusão entre os intelectuais orgânicos de um dado grupo, o grupo dominante, e os intelectuais tradicionais; e esta função e desempenhada pelo partido precisamente em dependência da sua função fundamental, que e a de elaborar os seus próprios componentes – elementos extra dos de um grupo social nascido e desenvolvido como grupo “económico”, que o partido transforma em intelectuais políticos qualificados, em dirigentes, em organizadores de todas as atividades e funções inerentes ao desenvolvimento orgânico de uma sociedade integral, civil e política. Aliás, pode-se dizer que, no seu âmbito, o partido político desempenha a sua função de forma muito mais perfeita e muito mais orgânica do que, num âmbito mais vasto, o Estado desempenha a sua: um intelectual que passa a fazer parte do partido político de um determinado grupo social confunde-se com os intelectuais orgânicos do próprio grupo, liga-se estreitamente ao grupo, o que nunca ocorre participando na vida do Estado, ou só ocorre de forma medíocre. Aliás, acontece muitos intelectuais pensarem ser eles próprios o Estado: crença essa que, dado o imenso número de componentes da categoria, tem por vezes consequências importantes e leva a complicações desagradáveis  para o grupo económico fundamental que e realmente o Estado.

Que todos os membros de um partido político devam ser considerados como intelectuais, eis uma afirmação que se pode prestar a ironia e a caricatura; contudo, se pensarmos bem, veremos que nada e mais exato. Dever-se-á fazer uma distinção de graus; um partido poderá estar melhor apetrechado nas suas cúpulas   ou nas suas bases, mas não e isso que importa: o que importa e a sua função, que e de dirigir e de organizar, isto é, educativa, isto é, intelectual. Um comerciante não se inscreve num partido político para poder comerciar, nem um industrial para produzir mais e com menores custos, nem um camponês para aprender novos métodos de cultivar a terra, ainda que alguns aspectos destas exigências do comerciante, do industrial, do camponês possam ser satisfeitos no partido político (a opinião geral contradiz esta afirmação, ao dizer que o comerciante, o industrial, o camponês  “que fazem política” perdem ao invés de ganhar, e que são os piores da sua categoria, facto que pode ser discutido). A concretização desses objectivos passa, dentro de certos limites, pela associação profissional, na qual a atividade económico-corporativa do comerciante, do industrial, do camponês, encontra o seu enquadramento mais adequado. Com e dentro do partido político, os elementos de um grupo social superam este momento económico-corporativo do seu desenvolvimento histórico e tornam-se agentes de actividades gerais, de carácter nacional e internacional. Esta função do partido político apareceria com muito maior clareza mediante uma analise histórica concreta do modo pelo qual se desenvolveram as categorias dos intelectuais orgânicos e dos intelectuais tradicionais, tanto no terreno das varias historias nacionais como no do desenvolvimento dos vários  grupos sociais mais importantes – no interior dos seus respectivos quadros nacionais – especialmente daqueles grupos cuja atividade económica foi, sobretudo, instrumental [. . . ].

Pode-se observar que, em geral, na sociedade moderna, todas as atividades práticas se tornaram tão complexas, e as ciências se mesclaram tão estreitamente com a vida, que toda a actividade prática  tende a criar uma escola para formar os seus próprios dirigentes e especialistas e,  consequentemente, tende a criar um grupo de intelectuais especialistas de nível mais elevado, que ensinam nessas escolas. Assim, ao lado do tipo de escola que poder amos chamar de “humanista” – que e o tipo de escola tradicional mais antigo, destinado a desenvolver em cada indivíduo humano a cultura geral ainda indiferenciada, o poder fundamental de pensar e de saber orientar-se na vida – foi-se criando todo um sistema de escolas especiais de diferentes níveis, destinadas quer a ramos profissionais inteiros quer a profissões já especializadas e delimitadas de forma bastante precisa. Pode dizer-se, Aliás, que a crise escolar que hoje grassa, esta ligada precisamente ao facto de que este processo de diferenciação e especialização ocorre de modo caótico, sem princípios claros e precisos, sem um plano bem estudado e conscientemente fixado: a crise do programa e da organização escolar, isto é, da orientação geral de uma política de formação dos modernos quadros intelectuais, e em grande parte um aspecto e uma complicação de uma crise orgânica mais geral e mais complexa. A divisão fundamental entre escola clássica e escola profissional era um esquema racional: a escola profissional para as classes instrumentais, a escola clássica para as classes dominantes e para os intelectuais. O desenvolvimento da base indústrial, tanto na cidade como no campo, provocava uma crescente necessidade do novo tipo de intelectual urbano: foi assim que se desenvolveu, ao lado da escola clássica, a escola técnica (profissional, mas não manual), o que colocou em discussão os próprios princípios da orientação concreta da cultura geral, da orientação humanista da cultura geral fundada sobre a tradição greco-romana. Pode dizer-se que essa orientação esta condenada a partir do momento que e posta em discussão, já que sua capacidade formativa era em grande parte baseada no prestígio geral e tradicionalmente indiscutido de uma determinada forma de civilização.

A tendência actual, e a de abolir qualquer tipo de escola “desinteressada” (não imediatamente útil) e “formativa” – conservando dela somente um modelo reduzido, destinado a uma pequena elite de homens e de mulheres privilegiados, que não precisam de se preocupar em preparar-se para um futuro profissional – e de multiplicar cada vez mais as escolas profissionais especializadas, nas quais o destino do aluno e a sua futura actividade são pré-determinadas. A crise terá uma solução que devera, racionalmente, seguir a seguinte linha: no início, uma escola única inicial de cultura geral, humanista, formativa, que alie o desenvolvimento das capacidades manuais (técnicas, indústriais) ao desenvolvimento das capacidades de trabalho intelectual. Deste tipo de escola única, através de repetidas experiências de orientação profissional, passar-se-a a uma das escolas especializadas ou ao trabalho produtivo.

Falta ter em consideração a tendência de desenvolvimento, segundo a qual cada actividade prática  tende a criar para si uma escola especializada própria, do mesmo modo que cada actividade intelectual tende a criar círculos próprios de cultura, que assumem a função de instituições pós-escolares, especializadas em organizar as condições nas quais seja possível manter-se a par dos progressos que ocorrem no ramo científico em causa. Pode observar-se também que os órgãos deliberativos tendem cada vez mais a diferenciar a sua actividade em dois aspectos “orgânicos”: o deliberativo, que lhes e essencial; e o técnico-cultural, em que se submetem ao exame dos especialistas e a uma analise científica , as questões sobre as quais e preciso tomar decisões. Esta actividade já deu origem a todo um corpo de burocracia com uma nova estrutura, pois, além dos gabinetes de especialistas, que preparam o material técnico  para os corpos deliberativos, cria-se de facto um segundo corpo de funcionários, cujos elementos mais ou menos “voluntários” e desinteressados, são escolhidos a vez entre os melhores da indústria, da banca ou da finança. Este e um dos mecanismos através dos quais a burocracia de carreira acabou por controlar os regimes democráticos e parlamentares; este mecanismo segue actualmente um rumo de desenvolvimento orgânico em que absorve na sua orbita os grandes especialistas da actividade prática  privada, que assegura assim o controlo quer dos regimes quer da burocracia. Tratando-se de um desenvolvimento orgânico necessário, que tende a integrar num só conjunto o pessoal especializado na técnica política e o pessoal especializado nas questões concretas de administração das atividades práticas essenciais das grandes e complexas sociedades nacionais modernas, toda a tentativa de exorcizar a partir de fora estas tendências não produz como resultado senão pregações moralistas e gemidos retóricos. A questão que se coloca e a de modificar a preparação do pessoal técnico  político, oferecendo um complemento a sua cultura de acordo com as novas necessidades e de elaborar novos tipos de funcionários especializados que, de forma colegial, completem a actividade deliberativa. O tipo tradicional do “dirigente” político, preparado apenas para o exercício de actividades jurídico-formais, esta em vias de tornar-se anacrónico e representa um perigo para a vida do Estado: o dirigente deve ter um m nimo de cultura geral técnica que lhe permita, senão “criar” ele próprio a solução justa, pelo menos saber formar um juízo sobre as soluções elaboradas pelos especialistas e, consequentemente, escolher a que seja justa do ponto de vista “sintético ” da técnica política […].

Quando se distingue entre intelectuais e não intelectuais, faz-se referência, na realidade, unicamente a função social imediata da categoria profissional dos intelectuais, isto é, leva-se em conta a direcção segundo a qual uma actividade profissional específica se torna mais pesada, se na elaboração intelectual ou se no esforço muscular e nervoso. Isto significa que, se e possível falar de intelectuais, e impossível falar de não-intelectuais, porque não existem não-intelectuais. Mas a relação que existe entre o esforço intelectual-cerebral e o esforço muscular-nervoso não e sempre idêntico; e e por isso que existem níveis diversos de actividade intelectual específica. não existe actividade humana da qual se possa excluir totalmente a intervenção intelectual, não se pode separar o Homo faber do Homo sapiens. Assim, todo o homem exerce, independentemente da sua profissão, alguma atividade intelectual, ou seja, e um “filósofo”, um artista, um homem de gosto, participa de uma concepção do mundo, possui uma linha consciente de conduta moral, contribui, portanto, para manter uma concepção do mundo ou para a modificar, isto é, para a produção de novas formas de pensar. O problema da criação de uma nova camada intelectual, consiste na elaboração crítica da actividade intelectual que existe em cada um de nos em determinado grau de desenvolvimento, e obtém-se modificando a sua relação com o esforço muscular-nervoso, no sentido de um novo equilíbrio e conseguindo que o próprio esforço muscular-nervoso, como elemento de uma atividade prática  geral, que renova continuamente o mundo físico e social, se torna o fundamento de uma concepção de mundo nova e integral. O tipo tradicional e vulgarizado do intelectual e representado pelo homem de letras, pelo filósofo, pelo artista.  E por isso que os jornalistas, que se creem homens de letras, filósofos, artistas, se consideram também como “verdadeiros” intelectuais. No mundo moderno, e a educação técnica, estreitamente ligada ao trabalho industrial, mesmo ao mais primitivo ou desqualificado, que deve constituir a base do novo tipo de intelectual. Foi nesta base o semanário Ordine Nuovo trabalhou para desenvolver certas formas de nova intelectualidade e para definir novos conceitos, e essa não foi uma das razões menores de seu sucesso, pois essa forma de encarar o problema correspondia a aspirações latentes e estava conforme ao desenvolvimento das formas reais de vida. O modo de ser do novo intelectual não pode mais ser constituído pela eloquência, esse motor exterior e provisório dos afetos e das paixões; ele deve consistir em imiscuir-se ativamente na vida prática, como um construtor, um organizador, um “persuasor permanente”, porque não e um mero orador – e que, todavia, vai além de um espírito matemático abstrato; a partir da técnica-trabalho, chega a técnica-ciência e a concepção humanista e histórica, sem a qual se mantém um “especialista” e não se torna um “dirigente” (especialista + político).

Tradução de Rui Borges

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