Ventura – O melhor amigo do PS

Nestas presidenciais, à imagem do que ocorreu nos processos eleitorais nos EUA em 2016 e no Brasil em 2018, a polarização é a nota dominante. Assim, tal como Trump e Bolsonaro, Ventura apresenta-se como aquele que luta contra o status quo representado por todos os outros candidatos. E numa altura de crise, pandémica atual e económica iminente, isso é uma mensagem fortíssima. Nem vou entrar pelos paralelos assustadores e mais que evidentes com o que se passou nos anos 30 do século passado na Alemanha, pois seria motivo para outro artigo, mas apenas fazer uma análise à realidade atual centrada na política portuguesa.

A tática de André Ventura

Ventura apresenta-se contra o status quo, pois é o único que:

– se apresenta abertamente contra a Constituição quando concorre a um cargo em que terá que jurar cumpri-la e fazer com que governo e outras instituições a cumpram.

– profere declarações claramente racistas, nomeadamente ciganofóbicas, e anti-imigração, refugiando-se no argumento de não ser adepto do “politicamente correto”, que é uma ideia que tem ganho adeptos em vários setores da sociedade.

– independentemente de qualquer resultado que obtenha, seja ele 2º, 3º ou 4º lugar, vai declarar vitória, pois aumentará a sua votação anterior.

– devido ao melhor resultado, vai conseguir fortalecer o seu movimento composto por fascistas, mas também por muita gente, a maioria, apenas descontente com o sistema atual e ansiosos por uma mudança drástica.

– consegue apresentar-se como aquele que é rejeitado por toda a classe política, que é repudiada por grande parte da população, e com isso fortalecer a ideia de que “são todos iguais”… menos ele.

– consegue transformar o neoliberal utópico Tiago Mayan Rodrigues num moderado, ainda que, tal como ele, queira destruir toda da função social do estado.

E isto, em termos eleitorais, beneficiará principalmente a sua candidatura.

O PS, Ana Gomes e Marcelo sabem que também podem beneficiar da polarização promovida por André Ventura

Também as duas candidaturas mais fortes daquele que é percecionado como o polo oposto beneficiam desta polarização: Marcelo e Ana Gomes. E estas são as candidaturas que, ainda que de forma não declarada, são apoiadas pelo PS. E isto pode ser constatado pela forma como o PSD (e também o CDS, que quase já não conta para este campeonato) se vê obrigado a apoiar Marcelo, apenas por este ser da sua área política, pois já percebeu claramente este filme. E a história do filme é que o PS gosta de se apresentar como o líder do polo antifascista pois, através dessa imagem, acaba por conseguir:

– muitos votos úteis daqueles que rejeitam liminarmente o fascismo e, com isso, enfraquecer as candidaturas mais à esquerda.

– fazer aparentar que as críticas à esquerda à sua governação são apenas conselhos de aliados e não críticas de verdadeiros opositores.

– dividir a direita.

– capitalizar eleitoralmente com esta divisão e também com a transferência para o PSD do odioso que a maior parte da população ainda tem ao fascismo, quando forem feitas as únicas alianças que permitirão a este partido governar nos próximos tempos, tal como ocorreu recentemente no acordo do governo dos Açores.

E, claro, Marcelo e Ana Gomes também perceberam que poderiam capitalizar com isto, logo não se coibiram de, nos debates televisivos, elemento fundamental desta campanha, dizer coisas impensáveis como Marcelo disse a Marisa – “Até poderia votar em si” – ou quando Ana Gomes disse que João Ferreira “tem toda a razão”, após uma denúncia deste a acusá-a de ter votado a favor de leis contra os trabalhadores quando ainda estava na AR.

E quanto à ameaça fascista, as táticas também são claras:

– Ana Gomes apresenta-se como “a” candidata antifascista e tenta demonstrá-lo ao dizer que iria promover a ilegalização do Chega assim que assumisse o cargo de Presidente da República, quando nada fez por isso previamente enquanto cidadã ou enquanto quadro influente do PS, como fez bem notar Marcelo Rebelo de Sousa, que sabe que o crescimento do Chega serve ao PS.

– E Marcelo, de forma brilhante, tenho que reconhecer, conseguiu ter sol na eira e chuva no nabal, ao denunciar todo o mal da ideologia de André Ventura baseado nos seus próprios argumentos supostamente cristãos e, ainda assim, colher os proveitos de parecer um grande democrata por aceitar todo o tipo de opiniões, mesmo que estas sejam no sentido de ameaçar essa mesma liberdade de expressão.

Perante isto, dada a situação calamitosa que vivemos e a ainda pior que se antevê, o eleitor vê-se num dilema em que, à direita apenas tem a “saída” no Chega (e, em muito menor escala, da Iniciativa Liberal que, repito, ele tornou moderada) e, à esquerda, no PS e nas candidaturas que apoia.

E, se dúvidas houvesse que André Ventura beneficia disto mesmo, basta ver as declarações que fez ao dizer que abandonaria o cargo de Presidente do Chega se Ana Gomes ficasse à sua frente nestas eleições. Algo que, na altura, foi entendido como uma gaffe e mais uma potencial mentira ou promessa que não iria cumprir, mas que, na realidade, mais não é que mais uma tentativa de enfraquecer as candidaturas apoiadas por pessoas que realmente o podem atingir e travar: Marisa Matias e João Ferreira.

A resposta das candidaturas de esquerda perdeu-se no lamaçal criado por André Ventura

Estas duas candidaturas, sabendo o cargo para que concorrem, têm feito um grande esforço para esclarecer a população do quão progressista poderá ser, na situação atual, o cumprimento das leis constitucionais, nomeadamente no campo laboral e de serviços públicos. Porém, esse discurso acaba por se diluir, para grande parte da população, no discurso também constitucionalista dos candidatos do centro e também do candidato da IL, que, por agora, abandonou todas as críticas quase sempre presentes no discurso deste partido às leis mais progressistas da Constituição.

Marisa Matias, por outro lado, tem vindo a fazer duríssimas críticas ao governo e à conivência da Presidência atual, em linha com o trabalho parlamentar do BE nos últimos meses que, recorde-se, votou contra o Orçamento de Estado. Mas, infelizmente, não por culpa própria, mas sim desta situação que descrevo que origina soundbytes mais sonoros, essas críticas têm passado ao lado de grande parte da população.

É por estas razões que, nestas eleições, o voto contra o fascismo terá que ser feito nestas candidaturas para, ao mesmo tempo, ajudar a construir uma verdadeira mudança que possa abrir espaço a novas lutas que pretendam derrubar este sistema capitalista obsoleto. Dentre as duas candidaturas, como é sabido, apoiamos a Marisa Matias, pelas razões expostas neste artigo. Mas a realidade é que, para o futuro, BE e PCP terão mesmo que começar a pensar numa forma de se apresentarem à população como uma verdadeira solução contra o fascismo, mas também, de igual forma, contra o status quo, ou seja, contra este governo e contra este sistema capitalista obsoleto.

Uma proposta de resposta estratégica por parte esquerda para um futuro próximo

Assim, a fim de evitar que no final desta eleição Ventura seja o único “vencedor” e aquele que capitalizará força para o seu movimento, seria um sinal altamente revigorante e de esperança que Marisa Matias e João Ferreira declarassem, juntamente com os seus partidos, a vontade de traçar caminhos em conjunto para o futuro próximo.
Imaginemos o sinal de esperança que se daria às classes trabalhadoras, setores oprimidos e jovens que se empenham a fundo na luta pela justiça climática se, finalmente, vissem uma alternativa que representasse mais do que um simples voto de protesto. A questão eleitoral é, para nós revolucionários, apenas mais um campo de combate das ideias. Não é o principal, pois a luta não se faz de 4 em 4 ou de 5 em 5 anos, mas sim diariamente. Porém, negar ou ignorar que, para muitos, as eleições são o expoente máximo da atividade política, é algo que consideramos bastante equivocado. Mas, para que seja um campo de combate eficaz, como explano neste artigo, tem que se ganhar, como vai conseguir Marcelo Rebelo de Sousa, ou tem que se conseguir angariar força para o movimento que é maior que as próprias eleições, como vai conseguir, lamentavelmente, André Ventura.

Fazer o que fez à esquerda Guilherme Boulos no Brasil, por exemplo. Boulos era um quadro quase desconhecido fora da estrutura do PSOL em 2018, quando concorreu às eleições presidenciais brasileiras. Teve um resultado modesto, porém, devido ao seu posicionamento contra aquele que foi um afastamento ilegal de Lula da Silva e abertamente contra Bolsonaro, conseguiu capitalizar muita força para o seu movimento. Com isso, há dois meses, nas eleições para a Prefeitura de São Paulo, conseguiu angariar apoios amplos por parte da esquerda brasileira e superar o candidato do PT, ao colocar na agenda uma série de assuntos caros à população como a habitação, saúde, educação. E, apesar de ter perdido a eleição no segundo turno teve quase o dobro votos em São Paulo que tinha tido nas eleições nacionais anteriores. Um feito notável e, com isso, fortaleceu ainda mais o movimento social que continuará nas ruas a exigir o mesmo que este prometeu na campanha.
A conclusão que retiro é que só com uma verdadeira alternativa, que transforme o governo do PS num adversário, a par do fascismo, se poderá colocar o debate eleitoral nas questões que tanto preocupam os portugueses. Sejam estas relativas às questões laborais, sociais, serviços públicos, opressões, justiça climática ou da pandemia, assunto no qual o PS acumula erros atrás de erros à vista de todos, como também, claro está, na luta contra o fascismo.

Ao mesmo tempo não nos esqueçamos que o nosso sistema eleitoral favorece proporcionalmente listas com maiores votações, nomeadamente nas legislativas pois esse favorecimento é acentuado por causa dos círculos eleitorais. Assim, candidaturas conjuntas, proporcionariam não só o aumento do número de mandatos nos círculos maiores (Lisboa, Porto, Braga e Setúbal), como permitiriam eleger deputados nos distritos do interior mais esquecidos como Vila Real, Bragança, Guarda, ou Castelo Branco. Neste círculos, desde o 25 de Abril, votar no BE ou no PCP representa constantemente mandar o voto para o “lixo”. Pois, além de não elegerem ninguém, não contam para um círculo de compensação, como acontece nos Açores, mas não no Continente, por interesse, claro está, de PS e PSD.

E, obviamente, ainda mais importante, por a política ser um trabalho contínuo e não só durante os momentos eleitorais, imaginemos também a força que teríamos nas ruas se houvesse uma unidade promovida por estes dois partidos com chamados únicos contra as injustiças laborais, ataques ao SNS ou justiça climática. Aqui não refiro as lutas dos setores oprimidos porque, como sabemos, existe uma divergência entre PCP e BE quanto a estes assuntos e que, entre outras razões, fazem com que nós do Semear o Futuro nos aproximemos mais do BE. Porém, a existência destas diferenças a par dum debate sério, iriam sempre fortalecer esse mesmo movimento.

Há uns anos Jerónimo de Sousa, num debate com Catarina Martins, introduziu uma imagem de duas bicicletas que lutavam contra o poder instituído, representativas de BE e PCP. Esta bicicleta tem que se transformar numa bicicleta tandem, ainda que salvaguardando as diferenças existentes em ambos os partidos.

Tenho toda a esperança que esta estratégia esteja a ser já pensada e discutida em ambos os partidos que, da minha parte e do Semear o Futuro, terá total apoio.

#marisamatias2021 #vermelhoembelem #frenteunica #facismonuncamais

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