Eu também não gostava de política

Publicado no site da deputada Joacine Katar Moreira

Uma das questões que mais me inquietaram ao longo do meu processo de perceção da possibilidade de impacto da minha intervenção política na realidade era: mas pra quê? Convenhamos, ter atividade política não é uma tarefa de um dia. Exige estudo, comprometimento, tempo e, acima de tudo, saber quem somos e o que queremos.

Bem, quer dizer, toda a humanidade tem dedicado desde o início dos tempos muito tempo e muita reflexão nesse debate do ser e há respostas para todos os gostos. Eu não trago nada por aí além, eu, individualmente e isolada. Após e ultrapassadas as leituras anatómicas do complexo corpo humano e delimitações das estruturas físicas e meios necessários para o manter vivo ainda há que relacionar com aspirações individuais e coletivas. Há umas saídas mais religiosas, outras mais exotéricas. Para uma visão mais determinista, não ajudaria o facto do ser humano, bem como toda a realidade material e imaterial que o circunda, estar em constante mutação. Em suma, não é tarefa de um dia. Então, por quê?

Porque, da maneira como vejo, não é necessário esperar pela morte, pela possibilidade de um céu, todas as pessoas têm direito a uma vida diga. Pela liberdade de ser, estar e ter mão nas nossas próprias vidas. Por uma visão de sociedade possível, passível de ser construída ainda em vida. Por uma sociedade onde todas as pessoas possam se desenvolver sem privações materiais, sem que continuemos a viver num sistema quer destrói fauna, flora e sobre explorar recursos em nome do lucro, sem imposições de género, sem racismo, sem fronteiras. Nem tudo que rompe com o estabelecido merece título de utópico e uma sociedade justa é possível se forjada pela ação de um conjunto na direção da emancipação de toda a humanidade e ecossistemas.

Em suma, envergar pelo caminho da atividade política para alteração da realidade é trabalhar a dimensão coletiva que podemos ter assumindo a ideia de que não há liberdade para uma só pessoa enquanto não houver liberdade para todas. E é por isso que, apesar de trabalhoso e vitalício, não só a política como ferramenta para a nossa emancipação é imprescindível, como também são as pessoas que dedicam as suas vidas a causas coletivas.

É aqui que quero estar, construindo pontes.

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Bárbara Góis é mulher Bahiana, trabalhadora de call center, mãe da Iara. Militante negra antirracista, feminista, lésbica e anti-fascista do colectivo Semear o Futuro.

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