Virar o ano, virar a factura da crise

2021 anuncia-se como um ano de crise sem precedentes na história recente do país. Em 2012, no auge da intervenção da troika, o PIB diminuiu 4,1%. Em 2020 espera-se uma diminuição de cerca de 9%! A reacção ao sofrimento que resulta desta quebra tem vindo ao de cima de forma intermitente e fragmentada, mas está a formar-se.

A atenção por enquanto ainda está a ser monopolizada por movimentos como o “A pão e água” que são liderados por estrelas mediáticas, habituadas a lidar com a comunicação social e que a usam para chamar a atenção para os seus problemas e destilar o seu fel contra todos os outros. Ljubomir Stanisic afirmou que não tinha ainda recebido sequer uma garrafa de água solidária de nenhum funcionário público (aparentemente porque são os impostos dele que pagam os salários da função pública). Poucos serão também os funcionários públicos que já terão tido oportunidade de degustar uma garrafa de água no restaurante de Ljubomir. No 100 Maneiras uma refeição para dois não fica por menos de 100 euros (se acompanhar com uma garrafa de água) e a remuneração base média de um funcionário público anda pelos 900 euros. É fazer as contas. Sabemos que o sector da restauração tem sofrido enormemente com a crise provocada pela epidemia, mas esse sofrimento está desigualmente concentrado nos milhares de pequenos restaurantes familiares e pelos funcionários do sector, que quer trabalhem para o restaurante da esquina quer trabalhem para Ljubomir, o fazem sempre em condições de extrema precariedade e baixos salários.

Entretanto a crise alastra a toda a economia. Nos CTT, na TAP, no Diário de Notícias, na Super Bock e em muitos outros sectores começam a despontar lutas que por enquanto não atraem tanta atenção da comunicação social. Os patrões fazem aquilo a que estão habituados: põem os trabalhadores a pagar o preço da crise. Despedimentos, cortes salariais, uso fraudulento do lay-off mantendo os funcionários a trabalhar, despedimentos depois de meses de apoios governamentais, tudo isto faz parte do menu que os patrões servem à classe trabalhadora em tempos de crise. Muitos trabalhadores estão a passar momentos desesperados e alguns daqueles que já se encontravam em situações economicamente frágeis encontram-se sem tecto e sem comida em cidades repletas de hotéis e restaurantes vazios. A situação ganha contornos ainda mais agudos entre os trabalhadores dos grupos racializados e LGBT, para quem a pobreza é intensificada pela discriminação e a opressão. Para todos, o exemplo vaidoso e egoísta dos “patrões em luta” serve apenas para fomentar a divisão e a desconfiança em relação aos seus potenciais aliados.

Estamos certos de que, em 2021, à medida assim que a situação sanitária for seja aliviada, outros grupos de trabalhadores virão para a luta em 2021, a começar pelos trabalhadores do Serviço Nacional de Saúde, que estão na linha da frente do socorro à população e que se deparam com enormes dificuldades nos seus trabalhos. A mobilização de todos os trabalhadores é fundamental para vencer a crise. Por um lado, porque a extrema-direita também está a tentar aproveitar-se do desespero para crescer com a crise, com uma política de ódio e divisão que, se ganhar terreno, se tornará uma séria ameaça contra todos os trabalhadores. Por outro, porque o governo PS e a oposição do PSD tudo farão para relançar a economia à custa dos trabalhadores. Não é impossível vencer esta dupla ameaça, mas para fazê-lo é necessária evitar mobilizações isoladas e criar a mais ampla unidade de toda a classe trabalhadora. Se isso acontecer, se os vários sectores tiverem a ousadia de construir uma frente de luta comum para combater a crise, então 2021 pode ser o ano em que se derrota a política do medo que tem assolado o país na última década. É um dever da esquerda, dos movimentos sociais e dos sindicatos construir esta convergência. Mas a luta social não acontece apenas nas ruas. O primeiro combate importante vai acontecer já no mês de Janeiro com as eleições presidenciais. e nelas Apelamos ao voto na Marisa Matias, por ser a candidatura que de forma mais clara contribui para unir as lutas dos trabalhadores, das mulheres, das minorias, dos emigrantes, e obrigar o candidato do governo e da direita a uma segunda volta.

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