Marcelo escondido com o rabo de fora

Após meses de suposto suspense, Marcelo Rebelo de Sousa anunciou a sua recandidatura. A demora em fazê-lo nada tem de novo: antes de se candidatar pela primeira vez, também passou anos em campanha presidencial nas vestes de comentador televisivo. Beneficiou então de uma super-mediatização sem concorrência e de uma postura pretensamente supra-partidária. Depois, em finais de 2015, anunciou que não gastaria dinheiro em campanha, em outdoors e afins – como se não tivesse preparado minuciosamente a candidatura durante anos. Uma jogada populista, que visou, com sucesso, surfar o sentimento anti-partidos e anti-política. Procurou desta forma condicionar as campanhas dos seus opositores que, por não terem um palco mediático gratuito (pago, na verdade), estavam obrigados a investir campanha. Agora Marcelo Rebelo de Sousa fez o mesmo. Desta feita, em vez de usar o palco de comentador televisivo para fazer campanha, usou o de Presidente em funções.

É evidente, no entanto, que nas suas últimas entrevistas já vestia a pele de candidato. Assim como a vestiu no recente veto sobre a lei de contratação pública. Nas declarações sobre a morte de Sá Carneiro fez o mesmo – só isso explica que Presidente da República contrarie aberta e publicamente uma das mais sensíveis decisões da Justiça pós 25 de Abril. Não se trata de discutir se Marcelo tem razão ao declarar que Sá Carneiro foi vítima de um atentado – é evidente que foi. Trata-se de constatar que o fez para se colocar como o herdeiro legítimo de uma genealogia da direita portuguesa. Nada disto é novo nele: populismo, calculismo, personalismo e uso do cargo que ocupa para fins políticos e pessoais. De resto, Marcelo Rebelo de Sousa nunca foi outra coisa nem nunca será. O resto são encenações.

Um Cavaco que Ri

Tudo isto é óbvio mas pouco relevante. É até por assumirem esta postura oportunista como algo irrelevante, quase como feitio e não como defeito, que tantos e tantas a desculpam. Desta forma, Marcelo Rebelo de Sousa colhe apoios na direita, mas também no centro-esquerda. E na esquerda, ainda que não colha muitos apoios, tende a ser alvo de uma certa complacência.

A verdade é que o exemplo mais recente, tido muitas vezes como termo de comparação, abona a seu favor: Cavaco Silva. À esquerda, muitos se lembram da teimosia de Cavaco após as legislativas de 2015. Na época, Cavaco insistiu em empossar Passos Coelho, enquanto colocava obstáculos à solução de Governo acordada entre o PS e a esquerda – que por mais críticas que mereça, era evidentemente melhor que Passos e Portas. Essa lembrança granjeou a Marcelo uma relativa simpatia daqueles que, em principio, seriam seus opositores: a esquerda e em particular, os seus sectores mais moderados, adeptos de uma aproximação ao PS.

As declarações que prestou ainda como candidato, durante a formação da “Geringonça”, mostrando tolerância face a essa solução, contrastaram com a teimosia cavaquista. A atitude que teve face ao Governo de António Costa nos primeiros anos da “Geringonça”, fez com que aparecesse como um respeitador das soluções estáveis e democráticas, mesmo que vindas de um espaço político oposto ao seu. Oposto a Cavaco, seria o Presidente do bom senso, que em nome de evitar a “crispação política” – que elege de novo como opositora nestas eleições – tolerava soluções governativas de esquerda. Ou pelo menos de centro-esquerda.

Provavelmente alguns que vêm como necessário, cedo ou tarde, reinventar e reeditar a “Geringonça”, pensam que Marcelo Rebelo de Sousa terá a mesma atitude no momento em que tal solução se apresente. É um engano. A reedição da “Geringonça” não é desejável nem possível. Mas independentemente disso, é um equívoco pensar que, caso a possibilidade se colocasse, Marcelo teria a mesma postura que em 2016.

A comparação com Cavaco sofre de uma ilusão de óptica. Os tempos mudaram e a existência ou não de “crispação política” não depende da vontade Marcelo. Mas sobretudo, nada indica que a verdadeira vontade de Marcelo seja evita-la. Não se pode comparar o Marcelo Rebelo de Sousa no início do seu primeiro mandato com Cavaco Silva no final do seu segundo mandato.

Salvaguardando as evidentes diferenças de personalidade, o mais provável é que a postura de Marcelo num segundo mandato não se diferencie assim tanto de Cavaco Silva quando esteve na mesma posição. Não só porque representam a mesma família política e os mesmos (grandes) interesses sócio-económicos. Mas até porque Marcelo Rebelo de Sousa é, na verdade, um porta-voz muito mais integrado na nata da classe dominante e, ao contrário de Cavaco Silva, um filho legítimo dessa mesma elite. É conhecida a sua profunda amizade pessoal com os “Donos disto tudo” que sobreviveram ao Estado Novo, cuja herança permanece colada ao nome do Presidente. É precisamente por ser aluno destacado dessa escola de dominação que tem a capacidade de, com os seus modos sorridentes e a sua flexibilidade gelatinosa, representar as elites de forma muito mais velada e, por isso, eficaz que Cavaco. A simpatia pegajosa de Marcelo e os abraços de urso com que envolve todas as famílias políticas não negam a sua filiação política e social, pelo contrário, constatam-na.

Os sinais que já foram dados

Como representante emérito de uma elite capitalista que conseguiu sobreviver a uma profunda revolução social, Marcelo Rebelo de Sousa, fala sempre através de duplos sentidos e de ambiguidades cheias de significado. Na sua prolifera oratória, cada linha populista dirigida a agradar ao “cidadão comum”, é acompanhada por uma entrelinha, muitas vezes de sentido oposto, que se dirige às administrações de bancos, às mansões das famílias “de bem” e aos quartéis-generais da direita. Na mais recente entrevista que deu como Presidente da República – na verdade um longo monólogo consentido pelo entrevistador – já estavam evidentes as linhas e as entrelinhas com que Marcelo anuncia coser o seu segundo mandato.

Na recente entrevista à RTP, dois “pormaiores”, anunciados na sua novilíngua dúplice que sempre diz o contrário do que parece, registam a viragem política que Marcelo pretende operar a partir das eleições de janeiro.

Por exemplo, quando toma para si a responsabilidade dos erros cometidos pelo Governo na gestão da pandemia – repetindo e sublinhando a palavra “erros” -, passa uma ideia de solidariedade e apoio ao Governo. Parece até excessivo tomar para si as falhas de uma acção executiva que não é sua. Naturalmente que quer posar como dialogante, como o Presidente que coloca a coordenação com o Governo acima das críticas que lhe guarda. Mas para além da pose, o que fica no ouvido são os erros. O que Marcelo Rebelo de Sousa nessa entrevista diz de diferente é que o Governo cometeu erros na gestão da pandemia. E se os toma para si é porque assume que os erros não são seus – não poderia tomar para si algo que fosse à partida seu. Se as palavras leva-as o vento, o que fica é a política. A política aqui foi o apontar o dedo ao Governo fingindo fazer o oposto. Marcelo puxa o tapete sob os pés de António Costa para, de seguida, poder estender a mão solidária como apoio para que se levante. Fica evidente que a mão solidária é artificio de campanha e após as eleições ficará só o puxão de tapete.

Mais evidente ainda foi a comparação, aparentemente genérica, histórica e abstrata, com Churchill. Na entrevista à RTP, ao falar de crise pandémica, Marcelo fez questão de lembrar que mesmo o histórico governante inglês perdeu as eleições após vencer a guerra. Não foi por interesse historiográfico que o lembrou. O que quis dizer é evidente: mesmo que termine a batalha contra o Covid com um balanço positivo, António Costa há de cair. E como se espera que a pandemia termine antes do fim da legislatura, o Presidente estava a anunciar que conta com eleições antecipadas. De resto, quando diz que “convinha” evitar a simultaneidade de uma crise política com a crise económica e social, está a dizer que trabalha com essa possibilidade – algo que negava até há pouco tempo. Se fosse um mero comentador, tratar-se-ia de uma análise arguta e de uma previsão com chances de se concretizar. Tratando-se de quem tem nas mãos o direito constitucional de derrubar Governos, estamos perante uma aposta – quase um programa.

O segundo mandato começou nos Açores

Dúvidas houvesse, os sinais do Presidente em campanha já saíram das entrevistas para a política real. Também nisto, os Açores serviram de experimentação, para um Marcelo em segundo mandato, no caso. Ora vejamos.

Num primeiro momento, após as eleições nos Açores, quando se discutia a solução governativa resultante, o Presidente primou pelo silêncio – o que, no caso do tagarela Marcelo, é da maior eloquência. Mas é evidente que o Representante da República, quando aceitou a solução governativa das direitas açorianas baseada nas exigências da extrema-direita continental, não o fez se consultar Belém. O Presidente em funções delegou a decisão no seu representante insular, para que o Presidente em campanha não aparecesse a dobrar-se perante as exigências do seu oponente Ventura. Mas foi isso que aconteceu. Nas entrelinhas das declarações que não fez ficou a mensagem: as direitas ao poder, mesmo que reféns de um neo-fascista!

Para que não houvesse dúvidas (e porque o silêncio não é o seu forte) Marcelo logo veio explicitar a mensagem. Consumado o casamento, veio então o padrinho fazer os votos: ele não gostou da solução, mas teve de a aceitar. As linhas do candidato do consenso anti-populista disseram: não gosto de ver o meu partido refém do Chega. Já as entrelinhas anunciam que não irá ser obstáculo ao regresso da direita ao poder, mesmo que seja de braço dado com o Chega. Fatal como o destino, rematou: “a Constituição permite que o partido que forma Governo seja não o mais votado, mas aquele que tem maioria parlamentar e já tivemos essa experiência a nível nacional”. A esquerda que se prepare, pois toda a direita tem esta frase revanchista a palpitar ansiosa, entre-dentes – a ousadia da Geringonça, por moderada que tenha sido, servirá de justificação para que se retire o açaime ao neo-fascista.

A mensagem foi assimilada e compreendida. O Observador, tribuna da direita pretensamente liberal em processo de radicalização, que tantas vezes critica Marcelo pela sua pose centrista, rejubilou: “Marcelo precipitou governo de direita nos Açores”. Mais contido, mas no mesmo sentido, o Expresso de Francisco Pinto Balsemão traduziu para os maus entendedores: “Marcelo concordou com a solução para os Açores”

Bom entendedor é também André Ventura, quando quer. Tendo confirmado que a política de chantagem funciona, tratou de dobrar a parada. “Se o Chega não entrará no governo do dr. Rui Rio (…) o dr. Rui Rio nunca será primeiro-ministro de Portugal”. Nada mais que uma fatia de poder, é o que exige agora Ventura. Se Rui Rio abre a porta e Marcelo não a fecha, o racista logo entra a pés juntos.

Não quer isto dizer que Marcelo Rebelo de Sousa queira André Ventura num próximo Governo. Nem que a sua candidatura presidencial tem o mesmo conteúdo que a daquele. O polido Marcelo não gostará de ver o mal-criado Ventura nos gabinetes ministeriais. Mas menos ainda gostará de ver a direita arredada deles por muito mais tempo. E por isso está disposto a engolir o sapo – correndo o risco de que este depois lhe engula o partido. Dito de outra forma, Marcelo Rebelo de Sousa é candidato para devolver o Governo à direita, com o Chega incluído, se necessário. Ventura, por outro lado, é candidato para garantir que o Chega será imprescindível para que a direita volte ao Governo. Não são o mesmo, mas também não são incompatíveis.

Confrontar Marcelo

Isto precisa de ser compreendido pela esquerda. Mais que isso: a esquerda precisa de o dizer, durante a campanha. Marcelo não pode passar entre os pingos da chuva e tem de ser confrontado – até onde está disposto a ir para abrir caminho à direita? Ainda antes das eleições deve ser obrigado a deixar claro se está disposto ou não a usar Ventura ( e deixar-se usar por ele) nas suas manobras políticas.

O elan que o Presidente tem entre o eleitorado de centro-esquerda e até da esquerda tem servido de protecção contra este tipo de confrontos directos. O PS está totalmente capturado por esse feitiço, tendo entrado numa espécie de síndrome de Estocolmo preventivo. Pensa que ao curvar-se perante o Presidente, terá as boas graças deste no futuro. Pensará até que consegue devolver o abraço do urso, tornando Marcelo Rebelo de Sousa refém da sua popularidade entre a base eleitoral do Governo. Engana-se: após as Presidenciais, Marcelo nunca mais irá a votos, pelo que dispensará de bom grado posar para o eleitorado do PS. Não terá problemas em ser menos popular e a sua aversão à crispação dissipar-se-á. Costa não ganha nada em pôr a cabeça no cepo.

À esquerda, felizmente, a cordialidade não é tanta. Marisa Matias fez questão de anunciar, desde o primeiro momento, que é contra Marcelo Rebelo de Sousa que se candidata. Tem, e bem, colado o Presidente à desagregação do SNS e aos buracos da banca privada – assumindo-se “radicalmente oposta” a essa postura de Marcelo. É esse o caminho. Essa postura, junto com o reposicionamento do Bloco de Esquerda na oposição ao PS e sua ligação crescente às trabalhadoras da saúde, às lutas dos precários, aos movimentos anti-racistas, feministas e climáticos, fazem da Marisa a melhor candidata à esquerda. Continuar este combate é uma questão de força maior: perante a antecipação de um segundo mandato em que Marcelo não se coibirá de abrir guerra à esquerda, a esquerda não ganha nada em ser diplomática com ele.

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