Sobre os protestos dos trabalhadores (e proprietários) da Restauração

Ou a “Maçã não é a Macieira”!

Neste fim de semana, que foi o primeiro fim de semana das medidas de excepção em 121 concelhos mais atingidos pela pandemia COVID-19, assistimos a manifestações/protestos em algumas das cidades incluídas por essas medidas por parte de empresários e trabalhadores do sector da restauração, hotelaria, discotecas, eventos e cultura. Escrevo este texto no seguimento do que tenho visto com preocupação do que me parece ser uma generalização equivocada nalguns casos (ainda que por vezes com argumentos correctos), e noutras, uma generalização diria, dogmática/sectária, principalmente nos “radicais da esquerda facebookiana” de que como os representantes/porta-vozes das manifestações são proprietários destes espaços e até figuras públicas (Ljubomir Stanisic), estas seriam logo à partida manifestações de “pequeno-burgueses/patrões” pretendendo apenas aproveitar-se do Estado e não manifestações de trabalhadores em luta pelos seus direitos e postos de trabalho.

Neste texto que fará possivelmente alguma polémica junto de alguns/mas camaradas e companheiras/os, mas principalmente (e mais provavelmente) junto dos tais “radicais facebookianos”, não pretendo fazer qualquer “defesa da honra” dos organizadores das manifestações, até porque como diz e bem a camarada Bárbara, “Ljubomir Stanisic não é o tio do restaurante da esquina com uma margem de lucro de menos de um salário mínimo” como muito bem sei (sabemos), pelo contrário, “ele é o patrão consolidado que não quer perder margem de lucro e usa a chantagem do “não quero demitir” para ser contemplado com o mesmo tipo de ajuda que as grandes empresas têem.” Não pretendo igualmente entrar no debate de que praticamente todas as lutas da classe trabalhadora podem ser alvo de “disputa” relativamente à sua liderança e linha política. Até porque tal deveria ser um dado adquirido em qualquer circunstância, local ou momento. Pretendo sim alertar para o facto de que quando em 2019 aconteceram os protestos e greves de enfermeiros e motoristas de matérias perigosas, muitos de nós socialistas revolucionários estivemos e bem, do lado das mesmas. Essas acções é bom lembrar, foram esmagadas não só por requisições civis do governo PS mas também por massivas campanhas difamatórias nos “media” contra os seus porta-vozes, nas pessoas da bastonária da Ordem dos Enfermeiros Ana Cavaco ou do advogado Pardal Henriques no caso do sindicato dos motoristas de matérias perigosas, que independentemente do que os factos demonstraram sobre estes indivíduos em especifico, tiveram o objectivo e a consequência de denegrir junto da generalidade da opinião pública, da própria classe trabalhadora a justa luta daqueles e daquelas trabalhadoras. E relembro também que essa retórica, à data encontrou respaldo nas declarações proferidas tanto por BE através de Catarina Martins, como por PCP através de Jerónimo de Sousa. Além logicamente, de ter a consequência dividir os próprios trabalhadores. Ao ver agora, por enquanto numa escala diferente porque não se ouviram declarações contra (nem a favor) de ambos os dirigentes dos partidos da Esquerda parlamentar, mas ainda assim com tendência a alastrar pela base ou parte dela, não deixa de ser preocupante ver aquilo que me parece um erro, ou no mínimo, um equivoco voltar a acontecer. É importante “não confundir a maçã com a macieira”.

É importante que a Esquerda (refiro-me a toda a Esquerda e dirijo-me em específico a nós socialistas revolucionários) não cometa os mesmos erros que cometeram as direcções da Esquerda parlamentar nos casos acima mencionados ou também aquando da luta dos trabalhadores da AutoEuropa no inicio de 2018 só para citar outro exemplo. Da mesma forma que é importante que a Esquerda saiba resistir a impulsos de teor oportunista como se viu nas manifestações deste fim de semana por parte da extrema direita, que por agora felizmente, foram percepcionados como aquilo que são – exactamente tentativas de “navegar” de forma oportunista na justa revolta dos trabalhadores, sendo para já, rechaçadas essas tentativas de aproximação de figuras sinistras como André Ventura. À Esquerda impõe-se sim que demonstre não só solidariedade activa com reivindicações justas, mas também que no sitio e momento certos, ou seja, com os trabalhadores, saiba desmascarar as lideranças também elas oportunistas e levar a luta para a orientação correcta. Sempre na perspectiva dos e das trabalhadoras. Sempre com os e as trabalhadoras. A Esquerda deve exigir na sua retórica que os e as trabalhadoras destes sectores mantenham os seus salários, mantenham efectivamente os seus postos de trabalho, deve exigir a redução de horários de trabalho que muitas vezes ultrapassam as 50 horas semanais e sem pagamento de horas extra, onde os contratos precários e “trabalho sazonal” são a regra, onde a exploração é a regra, levada a cabo pelos mesmos patrões que agora são os seus “porta-vozes”, é para isto que a Esquerda deve e tem de orientar a sua acção. A Esquerda tem de dotar os as trabalhadoras das “ferramentas” ideológicas para levarem a cabo as suas exigências, a sua luta. E ir mais além – exigir que mais do que apoios a “fundo perdido” para o sector (que não discuto que numa primeira fase e em determinados casos serão mesmo necessários), que durante e após a pandemia se repense a função do sector da restauração e da hotelaria. Restaurantes públicos, alojamento público, entre outras medidas, podem ser importantes para combater o contexto pandémico que vivemos. Mais importante, combater a pandemia protegendo os mais vulneráveis, pondo todos e todas nós a trabalhar para o bem comum e não apenas para o lucro (ou manutenção do lucro) de alguns. É este o discurso e a acção que a Esquerda deve ter, tem de ter, não apenas limitar-se a desmascarar alguns “líderes” de pouca ou nenhuma confiança, quando não mesmo, com interesses completamente opostos aos trabalhadores/as, caso contrário, a Esquerda limitar-se-á a ser inadvertidamente (por vezes), uma correia de transmissão dos seus próprios inimigos de classe. Caso contrário, senão começarmos a fazer isso já, iremos deixar os e as trabalhadoras “órfãs” de direcção, de rumo… E temo que a direita e em especial a extrema direita, não desperdice a oportunidade muito mais vezes. E a História da classe Trabalhadora está cheia de tristes exemplos das consequências de quando deixamos isso acontecer.

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