Racismo e Colonialismo na base das grandes fortunas de Portugal – entrevista a Pedro Varela

Entrevista a Pedro Varela, membro do Semear o Futuro, Antropólogo, doutorando do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

Pesquisa atualmente o movimento antirracista e práticas artísticas. Trabalhou sobre conservação comunitária na Guiné-Bissau, hortas urbanas de cabo-verdianos na periferia de Lisboa e políticas contra o racismo

Tiago Castelhano (TC): Recentemente escreveste o artigo “A história colonialista e escravocrata dos Donos de Portugal: o caso dos antepassados do banqueiro Fernando Ulrich” publicado originalmente no site “Buala”. Nesse artigo avanças que as grandes fortunas portuguesas do final do séc. XIX até ao Estado Novo são em grande parte acumulações coloniais. Podes falar-nos um pouco sobre isso?

Pedro Varela (PV): É preciso entender que as grandes famílias protegidas pelo regime de Salazar acumularam fortunas com a exploração nas antigas colónias e o fascismo em Portugal. Essas riquezas vinham sendo construídas desde do século XIX e com o Estado Novo tornaram-se ainda mais poderosas. Quando falamos de pessoas como Alfredo Da Silva (o dono da CUF), e famílias como os Mello, os Espíritos Santo, os Soares da Costa, os Champalimaud, ou os Ulrich é importante lembrar que todos eles acumularam fortunas e poder através do colonialismo. Isso na prática quer dizer que em África beneficiaram do trabalho forçado, da repressão violenta (assassinatos, massacres, torturas, prisões, etc…), da sobre-exploração, dos cultivos obrigatórios, do monopólio comercial, do roubo de terras e expulsão de povos dos seus territórios. Todas estas famílias tinham empresas estabelecidas ou com ramificações nas colónias. É também importante lembrar que a guerra colonial, que provocou centenas de milhares de mortes nos territórios ocupados, tinha como um dos principais objetivos proteger os interesses económicos destes Donos de Portugal.

O meu artigo foca-se nos antepassados do banqueiro Fernando Ulrich, um dos mais poderosos banqueiros em Portugal na atualidade. Quando pesquisei sobre a sua família deparei-me com uma rede de interesses em redor das colónias. Entre os seus “avós” encontramos pessoas centrais para o projeto de exploração colonial e, se recuarmos ao século XIX, deparamo-nos até com um traficante de escravizados. O seu trisavô, João Henrique Ulrich, que foi uma figura central para a construção do império empresarial dos Ulrich, enriqueceu com o transporte, já ilegal na época, de africanos escravizados de Angola para o Brasil. Na verdade a pesquisa para este artigo começou com uma questão que me inquietava: “Será que os atuais Donos de Portugal tiveram diretamente relacionados com a escravatura?”. Encontrei o caso dos Ulrich, mas muito ainda está por explorar.

Qual a importância para o movimento antirracista e a esquerda em geral de estabelecer estas ligações e que conclusões políticas práticas se podem tirar?

Eu espero que esta minha pesquisa seja uma ferramenta para o movimento antirracista, nomeadamente para o movimento negro na sua importante luta por reparações históricas. E, sendo que o movimento negro tem sido vanguarda na luta contra a extrema-direita, o racismo, a violência policial, questionando assim as bases do sistema capitalista, penso que as suas reivindicações são centrais para a esquerda em geral. Quando se fala de reparações históricas pelo colonialismo e esclavagismo estamo-nos a referir a medidas que pretendem combater a desigualdade racial e nacional que foi provocada por um passado de brutalidades. E eu penso que se deve apontar o dedo ao Estado e também às grandes fortunas. E isto não é uma abstração, uma parte das grandes famílias portuguesas construiu a sua riqueza com o colonialismo, por isso devem pagar moralmente e materialmente por isso. Saber especificamente como foram adquiridas e onde estão essas fortunas é essencial nesta luta por reparações históricas. Por exemplo, os herdeiros do esclavagista Ulrich, que acumulam uma fortuna desse passado brutal, devem ser responsabilizados por isso.

A par do crescimento da extrema-direita a nível mundial temos vindo a assistir também ao crescimento e fortalecimento do movimento negro a nível mundial, sobretudo nos EUA. Este trouxe para o debate público a questão das reparações históricas que tem gerado alguma polémica. O que pensas sobre essa reivindicação?

O movimento negro tem sido uma das vanguardas nas lutas a nível internacional e aí destaca-se o movimento Black Lives Matter nos EUA. Este movimento foi central para derrota de Trump e seu projeto neofascista. Suas principais lutas têm sido contra a violência policial, o racismo e a extrema-direita. A questão das reparações históricas também tem surgido nas lutas dos africanos e dos afrodescendentes a nível mundial, assim como de outros povos oprimidos. Eu penso que esta é uma reivindicação justa por igualdade, mas infelizmente em Portugal ainda se está muito atrasado neste debate. No entanto ele será incontornável nos próximos anos e muitos ativistas do movimento negro têm feito um importante trabalho de trazer este debate a público. Por exemplo, não me parece que seja polémico que os judeus perseguidos na Segunda Guerra Mundial exijam reparações históricas aos Estados e empresas responsáveis pelo Holocausto. Felizmente há décadas que as comunidades judaicas têm sido reparadas pelo genocídio que sofreram. Alguém acha normal que os museus ou bancos alemães ainda tenham peças de arte ou ouro roubado a judeus, obviamente que não. Sem falar da reparação moral pelo Holocausto que é bem visível. O que é que a Escravatura e o Colonialismo têm de diferente? É óbvio que tem de haver uma reparação histórica por todos estes crimes contra a Humanidade.

Quando estamos a falar de reparações históricas pelo esclavagismo e colonialismo estamos partindo de um passado de atrocidades que se reproduz na atualidade através das desigualdades raciais, violência racista ou neocolonialismo. As reparações históricas podem tomar várias formas: políticas estruturais de combate ao racismo; alteração dos currículos escolares; pedidos de desculpa institucionais; cotas pela igualdade racial; remoção de símbolos coloniais e racistas das ruas; devolução do património roubado aos países de origem; cancelamento das dívidas dos países africanos; ou compensações materiais e monetárias. Como eu digo no artigo “No fundo, as reparações históricas são acima de tudo justiça e igualdade para o futuro.”.

Em Portugal, a história é ensinada nas escolas com uma visão marcadamente colonialista. O colonialismo português é apresentado como benévolo em comparação com outros países europeus.  Como é que achas que se pode desconstruir esta visão distorcida do que foi o colonialismo português?

Todos os países europeus têm uma forma positiva e enganadora de olhar para o seu colonialismo. A nossa chama-se Lusotropicalismo: ou seja o mito de que os portugueses eram mais benévolos, que tinham empatia inata com outros povos e que se miscigenavam de uma forma positiva (quando isto acontecia com violações em massa contra mulheres negras ou indígenas). O Lusotropicalismo é uma grande “tanga” que está impregnada na nossa cultura e que silencia o passado brutal que foi o colonialismo português.

Porque é que em Portugal se continua a falar de supostos heróis da expansão portuguesa que na verdade foram criminosos, genocidas ou esclavagistas? Não tem sentido. Vou falar aqui de dois pequenos, mas ilustrativos episódios: Vasco da Gama em 1502 capturou um barco onde iam crianças, mulheres e homens muçulmanos peregrinos de Meca, trancou-os no porão e pegou-lhes fogo, assassinado de forma atroz pessoas inocentes. Também Infante D. Henrique (que era um dos maiores, se não o maior traficante de escravizados da sua época) numa descrição da primeira chegada de um grande número de africanos raptados a Lagos, surge ali em cima do seu imponente cavalo, impávido e sereno a observar um cenário brutal de pessoas raptadas a chorar e a gritar. Infante D. Henrique esperava a sua cota parte de escravizados que chegavam de um barco que tinha financiado. Até Zurara, o cronista da época que nos deixou o seu testemunho, fala daquele episódio como algo brutal e desolador. Que heróis são estes? Vasco da Gama não foi um aventureiro, foi um criminoso ganancioso. E o Infante D. Henrique foi um grande traficante de escravizados, figura central para o início da escravatura racial moderna.

Na verdade, os supostos “descobrimentos” portugueses não foram uma aventura, foram um acumular de brutalidades contra outros povos. Nunca podemos esquecer que os portugueses foram os que mais transportaram escravizados africanos para as Américas, um enorme crime contra a Humanidade.

Depois existe um outro lado, nas escolas é desprezado o passado dos povos não brancos. As crianças negras ou ciganas ficam sem conhecer o seu passado e quando lhes falam dele é só coisas negativas. Por exemplo, quando as caravelas portuguesas andavam a raptar pessoas na costa africana havia importantes civilizações no continente como o Império do Mali ou o Reino do Benim, com ciência, cidades e artes fenomenais. Só para vermos a importância deste reinos, em 1488, o príncipe Dyélen Ndiaye do reino do Wollof (atual Senegal), veio a Portugal ser batizado. E é importante nunca esquecer que os egípcios foram uma grande civilização africana. Estas são realidades quase sempre ignoradas nos manuais escolares.

Algo que também é grave nos atuais currículos escolares é o silenciamento da longa presença cigana, muçulmana, judia ou africana no país. Por exemplo, os dados dos arquivos apontam para que no final do século XVII 15% da população de Lisboa fosse africana; os cartagineses e berberes que aqui chegaram eram africanos; os ciganos estão aqui há 500 anos; os judeus foram expulsos e perseguidos por sua religião. Como também refere o arqueólogo Cláudio Torres parte do que é hoje Portugal converteu-se de forma pacífica ao islamismo ainda antes do Al-Andaluz e os cristãos do sul de Portugal eram monofisitas e foram perseguidos por Afonso Henriques (que era um católico descendentes de francos). No entanto, esta é uma história desprezada nos currículos, o que conhecemos é uma narrativa “esbranquiçada” construída sobre uma História enviesada. Infelizmente, o Estado Novo solidificou uma narrativa histórica portuguesa que continua a ser ensinada em grande parte às nossas crianças nas escolas. Então, quando nos referimos a reparações históricas, é fazer uma revisão profunda dos currículos escolares para que estes deixem de ser racistas e colonialistas.

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