A Esquerda e o cansaço pandémico

O cansaço provocado pelas restrições devido à pandemia fez surgir protestos em várias partes do mundo, mas com conteúdos bastante diferentes. Alguns destes “protestos” são liderados por sectores ligados à extrema-direita e a adeptos das teorias da conspiração. Aproveitando o cansaço provocado pela pandemia, vão para a rua contra o uso de máscaras, defendendo que a Covid-19 é uma farsa ou que tudo faz parte de uma conspiração para controlar a população. Vimos “protestos” deste tipo em Espanha, Alemanha, França e Portugal. É importante sublinhar o seu carácter reacionário. A Esquerda deve combater as teorias da conspiração. No entanto, surgiram também mobilizações progressivas, com outra composição e reivindicações.

Em Madrid, o bairro popular Vallecas foi palco de protestos motivados pelo confinamento seletivo imposto pelo Governo Regional de Madrid, que é liderado pelo PP, com apoio dos Ciudadanos e Vox. Além destes protestos serem contra o tratamento diferenciado entre bairros ricos e pobres por parte do Governo Regional, havia ainda outras reivindicações como o aumento do financiamento para a saúde pública e o aumento da frequência dos transportes públicos, dado estarem sobrelotados. Vimos também mobilizações na Catalunha, que entre outras reivindicações incluíam o fim dos despejos em plena pandemia. No mesmo país, com dias ou semanas de intervalo, vemos mobilizações motivados pelas restrições mas de sentido oposto. Umas dirigidas pela direita e extrema-direita, apoiadas em classes médias, com um discurso individualista e liberal. Outras encabeçadas por organizações populares, com uma perspetiva de interesse público e colectivo, denunciando a desigualdade social que as medidas do Governo aprofundam. Estas manifestações não são apenas diferentes, são opostas.

Mas há cenários mais complexos, em que as diversas tendências convergem nas mesmas mobilizações. Em Nápoles, a maior cidade do sul de Itália, tem havido protestos contra o confinamento geral. O receio dos manifestantes prende-se com os impactos económicos da medida e também por estarem fartos da inexistência de respostas sociais para evitar o aumento da pobreza. Segundo o Politólogo Giuliano Granato “Aos protestos vão comerciantes, trabalhadores precários, hooligans do Nápoles, sindicalistas, gente de esquerda e também membros da Camorra (máfia)”[1], o que expressa a revolta pelo governo Italiano não proteger as vítimas da crise económica desencadeada pelo confinamento.


Disputar Consciências

Não é possível obter um esquema geral que diga que processos são progressivos ou reacionários. Inclusive, estes tipo de revoltas pode mudar de carácter e virar à direita ou à esquerda, como já vimos com outros acontecimentos. A Esquerda e os movimentos sociais terão de fazer a análise concreta de cada mobilização a cada momento para ver se devem ser impulsionadas ou combatidas ou como fazê-lo.

Seja como for, estes são mais exemplos dados pela realidade de que a consciência conta em política. Não cabe à Esquerda apoiar cegamente revoltas porque são contra os Governos que a Esquerda combate. Os inimigos dos nossos inimigos nem sempre são nossos amigos.

A nível global, a extrema-direita tem criado teorias da conspiração e fomentado o negacionismo perante a pandemia. Alguns sectores da população, inesperados ou talvez não, têm se juntado a esta narrativa anti-ciência. Alguns são levados pela retórica de que a sua liberdade individual está posta em causa, como se fosse possível, para combater uma pandemia, que essa não tivesse que ter limitações. Na verdade, essas preocupações demonstram muitas vezes o individualismo de que estamos empedernidos. É verdade que estamos todos cansados. É também verdade que a quase totalidade das medidas são restritivas e que poucas vão no sentido de evitar o colapso do SNS. Mas atenção aos argumentos que se utilizam para combater as medidas. A extrema-direita utiliza o negacionismo relativamente a esta pandemia, fomenta as teorias da conspiração e o individualismo. Para combater a Covid-19 e contestar algumas das medidas do governo, não se deve utilizar os mesmos argumentos ou versões pretensamente de esquerda dos mesmos.

Os argumentos, as propostas, os programas, a política, portanto, contam. Os momentos de crise e questionamento geral do estado de coisas podem abrir caminho a grandes mudanças revolucionárias. Mas também ao oposto. Ou até libertar ambas as coisas ao mesmo tempo. Mais que nunca, a Esquerda tem de ter a ousadia de disputar consciências, sem cair no facilitismo cego: a defesa dos serviços públicos, nomeadamente da saúde, de que os ricos paguem a crise, de que as liberdades democráticas não devem ser atacadas, devem ser os eixos da Esquerda. Não a liberdade individual abstrata. É preciso defender os pequenos negócios que são esmagados mas sem ceder aos argumentos de liberais e “empreendedores” de sectores que em geral querem o dinheiro público sem responsabilidades públicas. Às vezes é preciso impulsionar a corrente mas outras vezes é preciso nadar contra ela. Não o saber fazer chama-se oportunismo.

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