Frente única: a sua história e atualidade

Parte 2

Texto da autoria de Tiago Castelhano e Manuel Afonso

O que é a FU na prática?

A FU é uma política que consiste no apelo a todas as organizações da classe trabalhadora, às direções e às bases dos partidos e sindicatos proletários, para lutar unificados contra o ataque da burguesia. Ou seja, consiste em lutar pela unidade da classe trabalhadora contra a burguesia. Daí ser igualmente conhecida no período de Lenine e Trotsky como “Classe contra Classe”

Trotsky explica: “O problema da FU – apesar da divisão inevitável nessa época entre as diversas organizações políticas que se fundamentam na classe operária – surge da necessidade urgente de assegurar à classe operária a possibilidade de uma FU na luta contra o capital.”[1]

As massas quando protagonizam grandes lutas defensivas, tendem a forçar as direções dos partidos maioritários da classe, por vezes contra a sua vontade, a avançarem no sentido da FU. É isso que está a acontecer hoje no mundo, dando razão aqueles que tem vindo a defender esta tática para a atual situação defensiva. Por exemplo, recentemente em França existiu uma FU de facto que juntou a esquerda e a maioria das centrais sindicais contra o Governo Macron. No Chile, formou-se a Mesa de Unidade Nacional, que une a maioria da esquerda, a principal central sindical e o movimento feminista. Na luta feminista na Argentina e até em Portugal há também a tendência à formação de uma FU, a Rede 8 de Março.

Houve também a manifestação do dia 6 de Junho contra o racismo em Portugal e em solidariedade com George Floyd que foi em parte uma construção na direção da FU. Inicialmente esta era uma manifestação composta por coletivos ambientalistas, pelo direito à habitação, de esquerda, entre outros e com o acontecimento trágico da morte de George Floyd houve um esforço entre o movimento negro e os restantes coletivos para juntar forças o que permitiu a maior manifestação antirracista em Portugal com mais de 10 mil pessoas nas ruas em tempos de pandemia. Foi um dia histórico e memorável. Todas estas frentes foram formadas por pressão das lutas. São exemplos clássicos de como uma política de FU permite que a luta avance, combater o governo e ajudar as massas a lutar.

A Frente Única não se aplica apenas perante golpes e ameaças fascistas?

Não, a FU aplica-se com o intuito de fortalecer a classe trabalhadora, sobretudo em circunstâncias em que a relação de forças seja desfavorável. Ou seja, quando a classe se encontra dividida em vários partidos e organizações, sob ofensiva da burguesia, mesmo que essa ofensiva não tome a forme de um golpe ou ameaça fascista.

A Frente formada pelos sindicatos e a esquerda francesa contra Macron é exemplificativa. Perante um momento de “ofensiva da burguesia” e “bonapartização dos regimes”, inclusive em Portugal. Pelo que as duas condições determinantes para a utilização da FU – divisão do proletariado  e ofensiva da burguesia – se confirmam hoje na realidade.

Trotsky resume, “Para a sua luta o proletariado necessita da unidade das suas fileiras. Isto vale tanto para os conflitos económicos parciais, nos limites de uma empresa, como para as lutas políticas “nacionais”, tais como a defesa contra o fascismo. A tática da FU não é, portanto, algo ocasional ou artificial, uma manobra manhosa qualquer. Não. Ela decorre inteiramente das condições objetivas do desenvolvimento do proletariado”[2]

Frente Única é o mesmo que  Frente Popular?

Não, na verdade têm conteúdos opostos. A Frente Única é uma frente das organizações da classe trabalhadora contra a burguesia, as suas organizações e o seu estado. A Frente Popular é a frente das organizações da classe trabalhadora com partidos burgueses e, por essa via, com a burguesia e o seu estado.

Nos dias que correm, em Portugal, a política da FU significa a constituição de uma frente entre BE, PCP, CGTP e restantes movimentos sociais: antirracista, feminista, lgbt, climáticos e habitação contra a burguesia e os seus partidos, ou seja, PS, PSD, CDS e Chega. Como já referimos a frente única é a tática de “classe contra classe” que se opõem a outra tática promovida pelo Estalinismo que é a Frente Popular e que em Portugal se concretizou no acordo dos partidos que representam os trabalhadores (BE e PCP) e um dos partidos da burguesia (PS).

Este erro decorrente da política de FU com sentido oportunista veio na sequência da vitória de Hitler na Alemanha, os estalinistas, mais especificamente a partir de 1933, começaram a utilizar a desculpa da política de FU para entrar numa busca desesperada de aliados, sem critérios de independência política. Utilizaram as palavras da III Internacional sobre a FU e distorceram-nas, deturpando esta tática e transformando-a numa unidade organizada com a burguesia “democrata”, neste caso num governo de trabalhadores e burguesia. Ora, um governo dos trabalhadores em conjunto com a burguesia não tem nada a ver com a política da FU, que consistia na unidade de todas as organizações proletárias, sejam elas partidárias ou sindicais, para lutar contra, precisamente, a ofensiva burguesa. A teorização da Frente Popular – de conciliação de classes – feita por Estaline é o erro simétrico aquele que cometeu antes da subida de Hitler ao poder, quando se negou a fazer a Frente Única com a social-democracia. O Estalinismo passou rapidamente do erro sectário para o erro oportunista. A Frente Popular fez caminho até aos dias de hoje, sempre com maus resultados, pois os interesses da classe trabalhadora e da burguesia são irreconciliáveis.

Conclusão

Concluí-se assim que:

1) a tática de FU tem origem no marxismo e na tradição revolucionária;

2) ela é assente na ideia de “classe contra classe”, ou seja, de unir os trabalhadores e as suas organizações e partidos contra as organizações, partidos e governos da burguesia;

3) que as condições para a aplicação desta tática, a divisão da classe trabalhadora e a ofensiva da burguesia, se verificam hoje na maioria dos países;

4) que são as próprias massas que empurram no sentido da utilização desta tática quando iniciam grandes levantamentos contra a ofensiva da burguesia;

5) que, tanto na teoria como na prática, esta é uma tática e política que permite colocar à prova as correntes reformistas e

6) que é possível e necessário a independência dos revolucionários no apelo à Frente Única, assim como no seu seio, quando esta se conforma.


[1]LEON TROTSKY, Considerações Gerais sobre a FU, 1922

[2] Leon Trostky, E agora? A revolução alemã e burocracia, 1931

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