Uma homenagem ao Quino e à Mafalda

Conheci-a numa idade que partilhávamos então. A Mafalda sempre me pareceu algo de muito diferente de todas as bandas desenhadas que eu devorava. Entre o humor anacrónico de Asterix ou as voltas ao mundo de Tintin, a Mafalda surgia-me como algo de mais substancial. Se nem sempre percebia completamente o seu humor, ainda assim o sentia transformativo. Era-me evidente já então que eu revisitaria estas tiras ao longo da minha vida. A melhor literatura para crianças é mesmo assim. Deixa-nos com a sensação de que está a falar também para o adulto que há em nós, para o adulto que queremos e poderemos ser um dia.

Quino, o pai de Mafalda partiu. Como o autor desta modesta homenagem, que descobriu a Mafalda nas estantes da biblioteca pública do seu bairro social, era um filho de emigrantes e foi antes de atingir fama global, um trabalhador precário partilhando quartos com outros como ele. Será com certeza por isso que a sua mais famosa criação é pura empatia. Para com as crianças, contra a injustiça, contra a exploração do Homem pelo Homem, por um mundo ferido de tantas formas diferentes. Mafalda nasceu e cresceu numa década que conheceu tantas e tantas lutas, pelos direitos civis na América, o Maio de 68, o nascimento do movimento ambientalista moderno, a segunda vaga do feminismo e acabou por, em 1977, fazer parte da campanha internacional pela Declaração dos Direitos da Criança. A tira terminou em 1973, pouco antes da instauração da ditadura de Videla na Argentina. O próprio Quino um dia reconheceu que a sua menina nunca cresceu “porque teria sido uma desaparecida.” Quino continuou a brindar-nos com os seus desenhos humorísticos, mas Mafalda ficou eternamente criança, símbolo de um tempo em que tudo era possível e tanto se lutou para mudar o mundo para algo diferente do que ele é hoje.

O Mundo de Mafalda continua a precisar dos seus cuidados, da sua sagacidade, do seu sarcasmo, do seu idealismo. O mundo da Mafalda está hoje, com o recrudescimento do fascismo, com crises ambientais que ameaçam a civilização, ainda pior do que aquele que ela conheceu. Mas Mafalda e Quino também nos ensinaram a ter esperança e a perseverar. Hoje várias gerações de activistas continuam a travar essa luta. Imagino que em muito deles, essa vontade de lutar tenha conhecido na nossa Mafalda, uma das suas primeiras e duradouras centelhas.

Obrigado, Quino

David Santos

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