A IV Internacional na II Guerra Mundial (parte 2): A continuidade da IV na Europa ocupada

Artigo de Waldo Mermelstein , originalmente publicado no site Esquerda Online

Quando se inicia a Guerra em 1939 a situação da IV estava ainda pior que do que quando foi fundada em 1938 (ver artigo sobre a fundação da IV Internacional). 

Nos EUA, o SWP, a maior e mais importante seção, como mencionado na parte I deste artigo, a ruptura da fração anti-defensista envolvia dirigentes históricos que estiveram à frente da fundação da IV, como Shachtman. Com eles se foram cerca de 40% dos militantes, incluindo parte importante da juventude e da regional de Nova York. 

Na Europa, a seção francesa havia praticamente deixado de existir. Havia no país dois grupos, o POI (Partido Operário Internacionalista), dirigido por Yvan Craipeau e Pierre Naville e o PCI (Partido Comunista Internacionalista, dirigido por Raymond Molinier e Pierre Frank. Ambos tinham divisões internas sobre a recomendação da direção da IV de participar do Partido Socialista Operário e Camponês (ou PSOP em sua sigla francesa). 

Após a conferência do POI (seção oficial) em que a tendência encabeçada por Naville, contrária a entrada no PSOP, ganhou a maioria, e o SI chamou a desacatar a resolução, a organização praticamente se desintegrou. Assim, ao começo da guerra não havia seção oficial da IV na França. Logo após o episódio dirigentes importantes como Naville e Rosenthal terminaram abandonando as fileiras da IV, além disso, alguns dos seus dirigentes tiveram que se exilar.
A isso se somou, no começo da guerra e a  ocupação alemã, a dispersão, o isolamento, a convocação para o exército e a repressão, como havia previsto Trotsky em abril de 1939.

Assim, foi com forte dose de heroísmo, mas com pouca experiência, que as novas gerações se dispuseram seguir à frente da IV e puseram-se a intervir na guerra. Como vimos, nos primeiros anos do conflito as dificuldades políticas foram imensas, a situação das seções se tornando ainda pior, sendo que o centro internacional praticamente perdeu contato com elas (ver parte I do artigo). 

Em meados dos anos 40, quando a situação começou a ficar mais favorável a partir da derrota dos nazistas em Stalingrado, teve início a reconstrução do trabalho na Europa. Em 1943 é constituído o Secretariado Europeu Provisório e, em 1944, é realizada a Conferência Europeia. Graças a isso foi possível reatar a relação com o centro internacional em Nova York e, em 1946, finalmente se realiza uma Conferência Internacional com vistas a reconstruir o trabalho internacional de conjunto.

Assim, longe de se transformar numa Internacional seguida “por milhões” em meio aos processos revolucionários proporcionados pela guerra – como havia prognosticado Trotsky na Conferência de fundação em 1938 – o que de fato se fez a duras penas foi manter a IV Internacional em pé. Como dito anteriormente, um feito heroico dado o curso realmente tomado pela luta de classes e as condições em que a IV se encontrava às vésperas da guerra, após a morte de Trotsky. 

A ação dos partidos e grupos trotskistas durante a guerra

No início da guerra o SWP norte-americano foi fundamental para manter os vínculos com o mundo fora da Europa ocupada pelos nazistas. Para tal, por uma política consciente do partido, entre 100 e 150 militantes se engajaram na Marinha Mercante dos EUA, incluindo os dirigentes Joseph Hansen e Sam Gordon. Graças a eles, por exemplo, foi mantido o contato com a França por meio de Marselha, até o final de 1942, quando os nazistas ocuparam o restante da França. Sete marinheiros trotskistas morreram em alto-mar nesses anos. Outro destaque foi o jornalista norte-americano ligado ao SWP, Terence Phelan, que era correspondente internacional da revista Time, Life and Fortune e que se aproveitou disso para visitar muitos países em vários continentes, a exemplo da Índia e vários países da América Latina, onde também buscou reunificar as forças trotskistas (Argentina e Chile). Na Inglaterra, auxiliou a recuperação da seção oficial, a RSL e ajudou a reaproximá-la do outro grupo trotskista, a WIL. Na França, conseguiu permanecer dois meses após a ocupação nazista.

Mas apesar desse esforço, a repressão que se abateu de todas as partes envolvidas no conflito tornou ainda mais difícil sua atuação. Em quase todos os países europeus os trotskistas participaram nas lutas contra os nazistas nos dois campos imperialistas, sendo perseguidos de forma consciente por todas as burguesias, objetivando evitar o crescimento de forças que procuravam transformar de forma consciente o conflito em revolução social. Ao que se somou o aparelho stalinista mundial, que, como já tinha feito na revolução espanhola, procurava eliminar toda atividade independente de seu controle. 

Nos EUA, o já difícil trabalho do centro internacional foi bastante afetado quando uma forte repressão se abateu sobre o SWP, deflagrada pela oposição do partido à guerra. Por um lado, o principal trabalho do partido estava no sindicato dos caminhoneiros de Minneapolis (o famoso Local 544), em que dirigiram a grande greve de 1934, foi alvo direto do dirigente nacional do sindicato, Daniel Tobin. Sua pressão foi fundamental para que Roosevelt desencadeasse a repressão estatal, pois seu papel fora decisivo para a eleição do terceiro mandato do presidente. Utilizando-se da Lei Voorhis, que exigia que as organizações operárias e socialistas que tivessem alguma filiação internacional entregassem uma lista de filiados para o estado, e perante a negativa do SWP em fazê-lo, uma operação do FBI foi lançada contra o SWP e o local 544 dos Teamsters. 

Com isso, iniciou-se um processo contra 29 membros do partido, incluindo dirigentes nacionais como J.P. Cannon, Farrel Dobbs, Felix Morrow e Albert Goldman. O veredito foi pronunciado em dezembro de 1941, depois do ataque a Pearl Harbour e no mesmo dia em que o Congresso dos EUA aprovou sua declaração de guerra ao Eixo. Doze dos acusados, entre eles Cannon, foram condenados a 16 meses de prisão e outros seis a 12 meses por sedição, com base em uma lei que remontava à Guerra Civil e a Lei Smith, recentemente aprovada. Um dos acusados, Grant Dunne (1), veterano dirigente do local 544, cometeu suicídio durante o processo. Outros, como Carl Skoglund, jamais conseguiram emprego em seus ofícios após as acusações e a prisão. O Partido Comunista dos EUA apoiou entusiasticamente o processo contra os trotskistas, o que não impediu que quando eles próprios foram acusados em 1949 tivessem a defesa do SWP.

Mesmo assim, o SWP teve uma recuperação muito importante durante a guerra. Em primeiro lugar, transformou os dois anos do julgamento até a condenação e prisão de seus principais dirigentes em uma campanha de defesa que teve bastante eco. Organizações de defesa das liberdades democráticas, como a American Civil Liberties Union, o comitê de defesa dos acusados, liderado pelo famoso escritor à época, James T. Farrell, angariaram importantes apoios. Houve apoio à campanha entre sindicatos da CIO e mesmo da AFL. James Hoffa, que havia militado com os irmãos Dunne e Farrel Dobs durante os anos 1930, antes de se tornar um famoso burocrata sindical mafioso dos Teamsters, anos depois explicou que se recusou a depor contra os dirigentes trotskistas do Local 544 por reconhece-los como grandes ativistas, mesmo que não apoiasse suas ideias políticas. A perseguição se estendeu aos Correios, que atrasavam por dez dias a entrega do semanário Militant do SWP. O que foi inclusive foi denunciado pela Federação Socialdemocrata.

Por outro lado, o esforço de guerra e a necessidade de manter a produção fizeram com que o estado e os patrões aceitassem dar concessões perante mobilizações sindicais. Nesse marco, a trégua decretada pela burocracia sindical não era encarada de forma favorável pelos trabalhadores e houve importantes lutas no período. 

Da mesma forma, os negros norte-americanos também tiveram uma onda militante no período e o SWP teve destacada ação em apoio às lutas do movimento negro durante a guerra, em oposição à posição do PC de postergar as reivindicações dos negros (e das lutas sociais em geral) para ajudar no esforço de guerra. Apoiou a ideia da marcha a Washington em 1941, tendo criticado seu cancelamento; apoiou enfaticamente os marinheiros negros que em 1940 exigiam não ser submetidos a leis racistas dentro das forças armadas; colocou-se a favor das reivindicações de ascensão profissional dos trabalhadores negros feitas por sindicatos da indústria automobilística e dedicou muitos artigos sobre o tema em sua imprensa, por exemplo.

No movimento sindical, o trabalho mais importante durante a guerra foi no setor automotor e entre os trabalhadores marítimos (incluindo portuários, embarcados e outras categorias). Entre estes últimos, a fração sindical do SWP construiu alianças com sindicatos na Costa Oeste, que estavam contra o congelamento das greves durante a guerra, defendido por um importante dirigente do PC no setor, Harry Bridges.

A influência política do SWP aumentou significativamente, o que se podia medir pela tiragem do Militant, que chegou a 31 mil exemplares ao final da guerra. 

Estes acertos e uma direção sólida permitiram que o partido quase triplicasse seus efetivos militantes (de cerca de 600 após a ruptura com os anti-defensistas para 1500 em 1945-46), incluindo, como citam Robert Alexander e Paul Leblanc, centenas de militantes negros.

Tudo ficou mais difícil no pós guerra e a guerra fria que dizimou a esquerda americana, os erros políticos cometidos pelo SWP e as cisões precipitadas, como já mencionado na parte 1 deste artigo, sobre o debate com a fração de Félix Morrow. 

Na França, à divisão e enfraquecimento do trotskismo ao começo da guerra se somou o exílio dos principais dirigentes de um dos grupos, o PCI, Raymond Molinier, Pierre Frank e Rodolphe Prager, primeiro na Bélgica e depois na Inglaterra, onde acabaram sendo presos. Com exceção de poucos mais velhos, como Yvan Craipeau e Marc Lauret, uma nova geração assumiu o trabalho clandestino durante a ocupação nazista. 

Em 1940, os trotskistas conseguiram atuar no Comitê de Ligação dos Albergues da Juventude (CLAJ), que lhe serviu de cobertura, permitindo manter o contato entre a zona ocupada pelos nazistas e a região governada pelo colaboracionismo de Vichy, mas acabam presos em janeiro de 1941. O jovem Marcel Hic foi quem assumiu a direção do trabalho clandestino. 

Mencione-se também que, enquanto o PCF tentava negociar a qualquer custo com os nazistas a publicação de seu jornal L´Humanité (durante o período do pacto Hitler-Stalin), – o jornal “La Verité” voltou a surgir com certa regularidade com 4 páginas. No total, 77 números foram editados durante a guerra. 

Além disso, foi feito um trabalho sobre as tropas de ocupação nazista, por meio de um jornal de propaganda revolucionária, denominado Arbeiter und Soldat (Trabalhador e Soldado). Com esse trabalho, conseguiram que cerca de 15 soldados alemães ajudassem a distribuir o jornal. Além disso, os próprios soldados editaram outro jornal mimeografado denominado Zeitung fur Soldat und Arbeiter in Westen (Jornal para os soldados e trabalhadores no Oeste) que teve algumas edições e era mais “popular” que o outro, com quadrinhos e notícias rápidas. 

No entanto, um agente infiltrado da Gestapo levou à prisão de vários militantes, sendo vários deles executados. Marcel Hic foi preso e enviado aos campos de concentração, onde morreu. Uma nova versão de Arbeiter und Soldat foi publicada por 3 meses a partir de abril de 1944, mas seu editor, Monat (Widelin), foi descoberto pela Gestapo, sendo executado cerca de um mês antes da libertação de Paris. O saldo ao final da ocupação nazista na França foi de mais de 150 militantes presos e deportados, sendo 35 mortos ou fuzilados.

Não só de heroísmo foi feito o trotskismo francês durante a guerra. Quando Paris estava a ponto de ser libertada, o L’Humanité, em pleno fervor chovinista, colocava em primeira página “Morte aos alemães e aos traidores”, “nenhum alemão deve sair vivo de Paris” ou “Cada um liquide o seu alemão”. Já em 19 de agosto de 1944, o La Verité especial de duas páginas terminava com um chamado em três idiomas (francês, inglês e alemão). A parte em inglês apelava às tropas aliadas que não servissem como fura-greves se explodisse uma onda de greves com a libertação. A parte em alemão apelava para os soldados participarem da libertação de Paris, a desarmar seus oficiais e a se unir às milícias operárias de Paris. (2)

Na Suíça, em 1942, seis dirigentes trotskistas foram condenados à prisão por que haviam se negado a se submeter às leis que condenavam a propaganda comunista e antimilitarista. (3)

Na Inglaterra, apesar da perseguição contra os militantes trotskistas estrangeiros, a repressão foi menor. No entanto, após a intervenção na greve de aprendizes nas obras da construção na região de Tyneside, em abril de 1944 – que reivindicavam isenção do trabalho obrigatório de desminagem-, a sede central do partido da IV reunificado, o Revolutionary Communist Party (RCP), sofreu uma batida policial e um processo contra seus dirigentes que acabaram condenados por conspiração e apoio à greve, mesmo com o apoio do movimento sindical e do Partido Laborista Independente (o PC, claro, não se solidarizou), mas a sentença foi revogada em segunda instância meses depois. Foi a primeira utilização desta lei anti-greve desde que tinha sido promulgada em 1927 após a greve geral de 1925.

A seção alemã foi dizimada pelos processos nazistas de 1936-37. Já em 1933, os nazistas prenderam Werner Scholem, antigo membro do PC Alemão. Ficou em custódia preventiva até 1938, quando então foi deportado para o campo de Buchenwald. Em 1944 foi fuzilado pelas SS. Em 1940, Walter Held, outro dirigente, se encontrava na Noruega. Devido à ocupação nazista, em 1941, fugiu para a Suécia. Ao tentar se dirigir aos EUA via Rússia-Odessa-Istambul foi detido pelos stalinistas na Rússia, sendo fuzilado como “contrarrevolucionário trotskista”, em outubro de 1942. Sua esposa e seu filho de dois anos também foram assassinados pela NKVD (ex-GPU).

Na Áustria, os trotskistas foram presos, condenados desde 1936, deportados em 1938, sofrendo grandes perdas nos campos de concentração. Dois dirigentes, Joseph Jakobovits e Franz Kasha foram fuzilados em 1944. Na Polônia, a seção desapareceu e só há notícia de dois sobreviventes à guerra: Kazimierz Badowski (1907-1990), fundador do PC polonês e da Oposição de esquerda no pais, que depois enfrentou a prisão no regime stalinista, e Ludwik Hass (1918-2008), que estava no lado oriental da Polônia, invadido pela URSS em 1939, onde foi preso e enviado para Vorkuta, na Sibéria. Foi talvez o único trotskista que sobreviveu a esse martírio, retornando ao país em 1957. Ambos tiveram influência nos jovens que dirigiram a oposição ao regime stalinista polonês a partir dos anos 1950.

Na Bélgica, havia se desenvolvido um importante trabalho. Editou-se um periódico em dois idiomas, um em francês (“A voz de Lênin”) e outro em flamenco (“A luta de classes”), com a tiragem de 10 mil e 7 mil exemplares, respectivamente. Entretanto, dois de seus secretários, um após o outro, foram fuzilados pelos nazistas. Em 1941, León Lesoil, seu mais importante dirigente, ex-membro do CC do PC belga, delegado pela seção na conferência de fundação da IV Internacional, foi morto pelos nazistas. Em 1944, Abraham León, autor de um dos mais importantes trabalhos marxistas sobre a questão judaica, veio a morrer no campo de concentração de Auschwitz. Assim, também na Bélgica, uma nova geração foi obrigada tomar à frente do trabalho. Esse é o caso de Ernest Mandel, um jovem estudante que pouco antes da guerra começou a atuar na Bélgica e conseguiu sobreviver às várias passagens pela prisão durante a guerra. Em 1944, foi preso e enviado ao campo de concentração de Mittelbau-Dora, na Alemanha.

Na Holanda, o partido do veterano militante Hendrik Sneevliet, o RSAP (Partido Socialista Revolucionário), que havia rompido com Trotsky por ser contrário à fundação da IV, foi imediatamente dissolvido em 1940 pelos nazistas. Alguns meses depois, ele fundou um grupo de resistência contra a ocupação alemã, a Frente Marx-Lenin-Luxemburg (Frente MLL), que recebeu a adesão do pequeno grupo trotskista remanescente. A Frente envolveu-se a fundo na greve geral de 31 de fevereiro de 1941 contra a prisão e maus tratos aos judeus. Em 1942, Sneevliet foi preso pelos nazistas, sendo executado em 12 de abril desse ano em Amersfoort KZ cantando “A Internacional”. Um grupo trotskista de cerca de 50 militantes sobreviveu de forma organizada até o final da guerra. 

Já a seção Dinamarquesa foi totalmente destruída pela Gestapo.

Na Grécia, onde os trotskistas chegaram a ser bastante fortes nos anos 30, foram brutalmente perseguidos, em especial pelos stalinistas. As forças de ocupação de Mussolini, em 1943, fuzilaram o principal dirigente da seção, o ex-secretário geral do PC Grego, Pantelis Poulipoulos, que havia participado na destruição do túnel de Kournovo. Antes de morrer, teve a coragem de discursar para os soldados revolucionários italianos em sua língua. Isso provocou um motim e os soldados se recusaram a obedecer a ordem de execução, obrigando os oficiais a fazê-lo. Em dezembro de 1944, praticamente todos os militantes gregos haviam desaparecido. Além de Poulipoulos, foram mortos Xypolitos, Yannakos, Verouchis, Doxas, Makris, Tatsis, Dimitriadis, Krokos, todos quadros do movimento.

Na Itália, a seção teve uma existência quase impossível sob o fascismo. Pietro Tresso (Blasco), com origem no Partido Comunista Italiano (PCI), principal dirigente e um dos primeiros membros da Oposição de Esquerda, foi perseguido por Mussolini e expulso para a França, onde militou na Executiva da Liga Comunista Internacionalista (LCI). Na Itália, lançou o “La Verità”. Posteriormente, de volta à França, chegou a se integrar ao POI. Com a ocupação nazista na França em junho de 1940, fugiu para Marselha, ainda não ocupada. No entanto, terminou preso pelo governo de Vichy. Numa operação envolvendo os ingleses e os partisans, foi libertado junto com outros 80 militantes de esquerda em 1943. No entanto, em outubro do mesmo ano, terminou sendo morto pelos  partisans ligados ao PCF, junto com outros 3 trotskistas e um comunista que simpatizava com eles. (4)

Em 1941, o Lanka Sama Samaja Party (LSSP) do Ceilão (Sri Lanka) entrou para a IV Internacional, tornando-se a mais importante seção asiática. Dirigiu grandes greves gerais contra as potências coloniais, sendo a segunda força política na ilha. Sua direção estava presa desde 1940, e, em 1942, ilegalizaram o partido. Na Índia, também sob o domínio britânico, a seção da IV começa a ser organizada em 1941 pelos trotskistas do Ceilão lá exilados, mas logo também teve que passar à clandestinidade. Quatro líderes cingaleses, Colvin de Silva, DPR Gunawardena, NM Perera e. Samarakkody, que haviam sido presos no Sri Lanka m 1940, escaparam em abril de 1942, com a ajuda dos guardas com quem haviam formado uma célula trotskista e se juntaram ao grupo trotskista na Índia.

Quando o Partido do Congresso Indiano começou sua campanha “Fora os ingleses da Índia”, os trotskistas indianos apoiaram a campanha, mas não seus métodos, apoiando-se nos operários e os pobres do campo. Em represália, os britânicos prenderam seus principais dirigentes quando de sua conferência nacional.

Na China, os trotskistas foram violentamente reprimidos pelos três contendores: o Kuomintang, o PC de Mao e os japoneses. Chen-Duxiu, fundador e ex-secretário geral do PCCh, expulso em 1929, aderiu à Oposição de Esquerda. Já enfraquecido, depois de duros anos de prisão sob o governo nacionalista de Chiang-Kai-Chek, veio a falecer durante a guerra, em maio de 1942. Seu sucessor à frente do trabalho dos trotskistas chineses, Tchen-Chi-Chiang (ou Chen Chi Chang), foi fuzilado pelos japoneses. Em 1939, a guerrilha dirigida por Mao, segundo suas próprias palavras, assassinou um número indeterminado de trotskistas que haviam formado uma pequena guerrilha anti-japonesa, acusando-os de serem “espiões japoneses”. (5) Posteriormente, o Comando do Exército de Mao mandou fuzilar o dirigente trotskista Tsu Li Ming.

No Vietnã (ex-Indochina), os trotskistas construíram um forte partido que chegou a vencer as eleições locais em Saigon, em 1939. Mas com a guerra, as perdas foram muito grandes, principalmente nas mãos dos stalinistas. O PC vietnamita, liderado por Ho Chi Minh e que dirigia a frente nacionalista Vietminh, havia declarado a República Democrática do Vietnã em Hanói (no Norte) e constituído um governo provisório em Saigon (no Sul) após a derrota do Japão na guerra. A tensão foi exacerbada pela política de Ho-Chi-Minh de acolher fraternalmente as tropas aliadas em Saigon, ao que os trotskistas (e boa parte da população) se opuseram.  Assim, sob suas ordens foi executado o lendário dirigente Ta Thu Tau em setembro de 1945, além de Phan Van Hum, Tran Van Trach, Huynh Van Phuong e muitos outros. 

Por outro lado, as tropas aliadas não perderam tempo para instalar um regime fantoche no Sul e os franceses começaram a atacar o Norte, no que foi a primeira guerra do Vietnã até 1945. Nesta contraofensiva, centenas de trotskistas morreram lutando contra as tropas aliadas (ver mais detalhes na biografia de Ta Thu Thau neste especial).

A reconstrução da IV na Europa: O Secretariado Europeu Provisório (1942-1943)

Sob a intensa repressão que se abateu sobre os centros e as seções – seja pelo nazismo, seja pelo imperialismo “democrático”, seja pelo stalinismo e pela falta de comunicações, o trabalho do centro internacional e sua relação com as seções regrediram até quase cessarem. 

Na Europa, só em janeiro de 1942 os trotskistas começaram a se reorganizar. Nas Ardenas belga, reuniram-se três representantes da seção francesa (Ivan Craipeau, Marcel Hic e Swann) e 2 da seção belga, Abraham Leon e Widelin), criando um Secretariado Europeu sediado em Paris e dirigido por Marcel Hic. 

O novo organismo procurou coordenar o trabalho na Europa e reunir todos os grupos que concordavam com os princípios da IV Internacional, tendo sido ou não reconhecidos como seções oficiais. Dois textos foram publicados, “As teses sobre a questão nacional” e o “Manifesto sobre a dissolução da Internacional Comunista”.

A mudança na maré da guerra a partir da batalha de Stalingrado aumentou de forma qualitativa a resistência nos países ocupados pelas forças nazifascistas. Em julho de 1943, ocorre a queda de Mussolini na Itália, abrindo uma situação revolucionária no país, que se estenderia a outros países como a Grécia e a Iugoslávia. Na França, uma onda de mobilizações é desencadeada a partir do acordo de trocar prisioneiros de guerra franceses pelo envio de operários à Alemanha para alimentar a máquina de guerra nazista.

Nesse marco, houve um salto na Europa com o estabelecimento do Secretariado Europeu Provisório (SEP) no verão de 1943, com representantes de várias seções e com a colaboração do grego Michel Raptis (Pablo). Marcel Hic, deportado para um campo de concentração e lá assassinado, foi substituído por Yvan Craipeau.

O novo Secretariado assumiu a tarefa de preparar uma conferência europeia ampliada, não somente aos grupos filiados à Internacional, mas a todas as organizações favoráveis a seus princípios essenciais e a seu Programa de Transição. A vontade de ampliação, de superação dos litígios e divisões passadas eram a marca do novo curso.

Em junho de 43, foi publicada uma declaração sobre a dissolução da Internacional Comunista por Stalin. O texto é uma denúncia implacável ao stalinismo e mostra a confiança no futuro da IV Internacional. 

Além disso, o Secretariado Europeu impulsionou a unificação de três dos quatro grupos do trotskismo francês, o POI (ex-Comitês pela Quarta Internacional-CQI), a Corrente Comunista Internacionalista (CCI) e o Groupe Octobre, que deram nascimento ao Parti Communiste Internacionaliste (PCI) depois da Conferência Europeia em 1944. (6)

N Inglaterra, após um ano de debates, unificam-se em março de 1944 a seção oficial, a RSL (Liga Socialista revolucionária) e a seção simpatizante, a WIL (Liga internacional dos Trabalhadores), formando o Revolutionary Communist Party (RCP, Partido Comunista Revolucionário). Por fim, o SE provisório, a partir de agosto de 1943, assumiu a publicação da revista “Quatrième Internationale”.

A Conferência Europeia (1944)

A Conferência Europeia da IV Internacional foi realizada em fevereiro de 1944, no interior da França. Participaram dela 14 delegados, representando 5 países, que elegeram um Comitê Executivo Europeu, que escolheu um novo Secretariado Europeu.

A Conferência refletiu a mudança no curso da guerra e na situação na Europa ocupada. As “Teses sobre o fim da Segunda Guerra e as tarefas da IV Internacional”, avaliavam que a situação na Europa de conjunto havia se transformado em revolucionária, tendo o levante na Itália como precursor do futuro próximo, confirmando os prognósticos de Trotsky no Manifesto de 1940. De fato, tal avaliação não era despropositada. Ao longo da guerra, os exércitos dos partisans haviam emergido como fortes movimentos independentes da burguesia após derrotar as tropas de ocupação na Itália e ainda naquele ano na Grécia, Iugoslávia e na França. Nesta última, a resistência se combinou com um forte ascenso operário, inclusive com ocupações de fábricas que não se distanciavam muito ao ocorrido em junho de 1936. 

O documento centrava suas esperanças no ressurgimento da ação da classe trabalhadora alemã, a “coluna vertebral” e a “base necessária” para a Revolução Europeia. Essa convicção inspirou as campanhas do movimento trotskista para conseguir a confraternização com os operários alemães de uniforme. Sobre os EUA, prognosticava que “poderosas convulsões econômicas e sociais marcarão a conclusão da guerra nos Estados Unidos”. Em relação à situação mundial, o documento previa uma dinâmica de aprofundamento da crise econômica e o surgimento de fortes movimentos revolucionários nos principais centros capitalistas. 

Sobre o papel do stalinismo, reconhecia a enorme influência que os partidos comunistas haviam ganhado pelo papel do Exército Vermelho contra o nazismo e em sua participação nos movimentos de resistência. Entretanto, avaliavam que logo as massas romperiam com ele pelo freio imposto aos processos revolucionários, abrindo grandes oportunidades para a construção da IV Internacional. Afirmava que o proletariado devia se colocar em defesa do país contra a ocupação alemã, sem que isso significasse sujeitar-se à burguesia. O proletariado deveria rejeitar qualquer aliança com sua própria burguesia. A Conferência também consolidou programaticamente a unificação das seções francesa e inglesa.

Assim, durante o período de 1944-1945, o novo Secretariado Europeu conseguiu expandir o trabalho, alcançando oito seções, agregando as seções inglesa (unificada em março de 1944), suíça e holandesa. Durante esse período chegou também a incluir a seção da Indochina e estabeleceu contato com os grupos na Itália, Irlanda e Dinamarca.

Ressalte-se que esse trabalho na Europa ocupada só foi conhecido pelo centro em Nova York no ano de 1944, quando já estava bem avançado. Ele deu base para que em 1946 se realizasse uma Conferência Internacional que retomou o trabalho internacional em seu conjunto, principalmente ao serem reatadas as relações entre a Europa e o centro nos EUA. Em 1948, foi realizado o II Congresso da IV Internacional, vindo a reconstruí-la. Novos desafios e novos debates, entretanto, se estabeleceram a partir daí com a nova realidade aberta com o pós-Guerra. Mas esse é um novo capítulo.

Palavras finais 

Este breve relato mostra o heroísmo da militância trotskista em todos os países, apesar das duras e inigualáveis situações que enfrentava em quase todos os países, frente a um conflito que colocava muitos problemas novos que só a paciente elaboração coletiva poderia superar.

Foi com imensos sacrifícios que a nova geração conseguiu manter em pé a IV Internacional. Esse foi um enorme mérito dessa geração. Mas, como pudemos ver, a IV ainda seguiu sendo uma organização minoritária de vanguarda, não cumprindo o prognóstico de Trotsky de que no curso da guerra a nova Internacional, em poucos anos, seria seguida “por milhões”. Essa tarefa, como foi dito no outro artigo sobre a fundação da IV, ficaria pendente para as novas gerações. 

Como esse desafio foi encarado no pós-guerra é tema de um outro artigo.

NOTAS

1 – https://www.marxists.org/history/etol/writers/dobbs/1941/10/grant-dunne.html

2 – https://www.marxists.org/francais/clt/1986-1990/CLT39-Sep-1989.pdf

3 – Idem

4 – https://next.liberation.fr/culture/1997/03/11/cinq-meurtres-sortent-du-maquis-un-livre-reconstitue-l-assassinat-en-1943-par-les-communistes-d-un-d_200310

5 – https://socialismonaasia.blogspot.com/2017/07/sobre-o-uso-de-trotskistas-como-espioes.html)

6 – O grupo liderado pelo romeno David Korner (Barta) – Union Communiste (UC) foi convidado a se integrar no processo de unificação, mas não aceitou, alegando centralmente que a direção internacional estaria acobertando o POI, cuja posição nacionalista durante a guerra teria sido uma traição.

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