Itália: centro-esquerda abalado resiste a subida da direita

Nos passados dias 20 e 21 de Setembro, após adiamento motivado pela pandemia, ocorreram em Itália eleições regionais e locais em sete regiões do país – Veneto, Liguria, Toscana, Marche, Campania, Puglia e Valle d’Aosta – e a votação de um referendo de alteração constitucional.

Os eleitores pronunciaram-se favoravelmente neste referendo nacional sobre a reforma constitucional de redução do número de deputados dos actuais 630 para 400 e dos 315 para 200 senadores. Cerca de 70% dos votantes aprovaram a promessa eleitoral do Movimento Cinco Estrelas que, segundo o chefe da diplomacia e antigo líder do partido, Luigi di Maio, poupará 500 milhões de euros por cada legislatura de cinco anos (57 milhões de euros por ano), também como forma de pôr fim às regalias e aos privilégios dos políticos. A maioria dos partidos já apoiava esta reforma, que tinha sido aprovada pela Câmara dos Deputados, mas sem a maioria de dois terços necessária para evitar um referendo. Enquanto isso, os críticos afirmam que esta produz economias de custos mínimos e corre o risco de minar o sistema democrático com o enfraquecimento da autoridade do Parlamento.

No campo das regionais, os principais partidos no poder – o Movimento Cinco Estrelas e o Partido Democrático, que apoiam o Primeiro-Ministro Giuseppe Conte – apenas concorreram em coligação na Liguria. Com quase todos os votos apurados, e apesar de alguns danos, o Partido Democrático resistiu com dificuldade e o Movimento 5 Estrelas saiu derrotado neste primeiro teste eleitoral desde o surgimento do novo coronavírus, num contexto em que se estima que a economia italiana caia 9% em 2020 e em que a dívida pública aumenta para entre os 158 e os 159% do PIB. A situação até agora nas regiões italianas, com quatro delas governadas pela esquerda e duas pela direita, acabou assim por ser parcialmente alterada.

A coligação de centro-esquerda encabeçada pelo Partido Democrático já havia consolidado os resultados na Emilia-Romagna no início do ano. Nessa eleição o seu candidato obteve 51,42% dos votos contra os 43,63% da candidata de direita, após uma dura batalha eleitoral com a Liga de Salvini. Porém, os resultados foram mais equilibrados, com a direita a subir 11%. Nas eleições destes dias, a coligação de centro-esquerda manteve também o controlo da Puglia e da Campania, aqui por larga margem. 

Por sua vez, a oposição de direita é composta pela Liga de Matteo Salvini, a Forza Italia de  Berlusconi e o Fratelli d’Italia de Giorgia Meloni (com diferentes resultados próprios dependendo da região) e já havia conquistado a região de Calabria no início de ano ao Partido Democrático. Agora venceu expectavelmente em Veneto (mais de 76% dos votos contra 15% do candidato de centro-esquerda) e na Liguria (56,13% dos votos contra 38,90% da coligação entre Partido Democrático e Movimento Cinco Estrelas). A região de Marche, uma das mais intensamente disputadas, foi conquistada pelo candidato do Fratelli d’Italia ao Partido Democrático, pondo fim a 25 anos de governação deste partido. O novo governador somou 49,13% dos votos face aos 37,29% do candidato da coligação de centro-esquerda. Em Valle D’Aosta, região francófona com o seu próprio sistema partidário no qual o governador é nomeado, os resultados finais colocam a Liga como o primeiro partido da região.

As atenções estavam no entanto voltadas para a Toscana, região dominada tradicionalmente pela esquerda e onde se jogou agora o futuro político do Governo. O bastião poderia ser perdido pelo centro-esquerda, o que significaria que a candidata da Liga de Matteo Salvini obteria uma vitória histórica e muito provavelmente inauguraria uma crise governamental. Na realidade, o apuramento dos resultados exclui de momento qualquer uma dessas situações, dado que o candidato de centro-esquerda resistiu, apesar do crescimento da votação na oposição de direita para a casa dos 40%. 

Este resultado significa primeiramente uma nova derrota para Salvini, depois de a Liga não ter tirado ao Partido Democrático a governação da Emilia-Romagna no início do ano. Agora uma vitória da coligação liderada pela Liga na Toscana seria um impulso fundamental para o regresso da direita ao poder, com Salvini como Primeiro-Ministro. O antigo chefe de Governo perde assim espaço para o Fratelli d’Italia. O partido de Giorgia Meloni obteve nestas eleições um crescimento nos resultados próprios e está hoje nas sondagens nacionais com 15% das intenções de voto. No plano interno da Liga, Luca Zaia, re-eleito Governador de Veneto com uma vitória esmagadora e muito popular devido à contenção da pandemia na região, posiciona-se como o provável sucessor de Salvini na liderança do partido.   

Em Itália está assim afastada a hipótese de eleições antecipadas. Não estão no entanto excluídas crispações tanto entre os partidos pró-governo como os da oposição de direita. O Partido Democrático e o Movimento 5 Estrelas seriam provavelmente derrotados em novas eleições, dado que nas sondagens a coligação de direita ganharia com mais de 40% dos votos. A evolução da pandemia e os consequentes resultados económicos, bem como a implementação nacional de partidos de extrema-direita como a Liga e o Fratelli d’Italia com impacto de massas, mantêm no ar o espectro de uma nova crise política e de um novo governo de extrema-direita liderado pela Liga em coligação com o partido de Meloni. 

Diogo Trindade

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