Moria e a mentira de “fala amigo e entra”

As condições de Moria, Lesbos, nunca foram desde início, as mais dignificantes. Para começar no inexistente esforço grego, caracterizado pelo abandono de refugiados no mar, não seria de esperar que os poucos refugiados que se dignasse a receber, qual criança contrariada, não vivessem em condições que pudessem ser resumidas pela expressão “Saltar da frigideira para o fogo”. E neste caso, embora a frigideira seja metafórica, para o povo refugiado em Moria, o fogo foi uma realidade.

Um espaço muito pequeno, para muita gente que para lá era remetida como objecto indesejado quase, de forma a dizer que se fazia algo, mas ao mesmo tempo não fazendo realmente o mínimo.
Olhemos para Moria como a babysitter à qual confiamos os nossos infantes.
É esperado que ao regressar para os ir buscar, estejam pelo menos bem tratados, alimentados e limpos, e não em piores condições do que quando a sua guarda foi, momentaneamente entregue às mãos daquela pessoa. O problema aqui em questão é que contrariamente a infantes entregues a uma babysitter durante um determinado período de tempo, estas pessoas fugiram de um campo de guerra e de conflito em busca de segurança e paz junto de quem lhes prometeu, durante tempo indefinido, essa mesma guarida e que nunca, a bom dizer, cumpriu.

Os refugiados, que se habituaram a um espaço que embora pequeno, podia permitir o mínimo de diferença da vida num campo de guerra, cedo viram as suas vidas do avesso aquando do início de toda esta pandemia que que originou uma realidade em que  13 mil pessoas vivem num espaço sem condições para os albergar a todos.

E recentemente, viram o pouco que tinham reduzido a cinzas, impossibilitados de se albergar quer no campo que viram arder quer em outro lado, quer pela policia que recai sobre eles com a já reconhecida brutalidade, quer por movimentos próximos ao indentitarismo que procuram também complicar-lhes ainda mais a vida que de forma já tão desumana é descrita por alguns como “Em Moria, 3 meses parecem 3 anos” (Público, Maria João Guimarães).

Em pleno Covid, estas almas corajosas que sob toda a narrativa da UE procuraram conforto e vida digna em solo europeu, deparam-se agora com uma realidade muito diferente.

Paralelamente, Moria é também o nome do refúgio no qual os bravos heróis da Irmandade do Anel entram depois de se provarem amigos, “fala amigo e entra” (Tolkien, Irmandade do anel) e tal como os heróis da narrativa de fantasia, também estes refugiados vêm em paz, acreditam na promessa de abrigo e porto seguro, apenas encontraram o mesmo durante breves instantes antes de se descobrirem frente a frente com um troll das cavernas (Tolkien, Irmandade do Anel), troll esse que não se contenta em ser representando pelos crescentes movimentos anti-refugiados, a crescente extrema direita, a policia que fora de qualquer surpresa acaba por se provar uma vez mais desprovida de qualquer compreensão pelo outro e sob a já conhecida desculpa do “Estamos a fazer cumprir ordens e a manter ordem” fazem na realidade o que bem querem e lhes apetece. Este mesmo troll faz-se, acima de tudo, representar pelo corpo constituinte da União Europeia, que com a sua inércia e a já costumeira postura de “deixa andar, há de correr bem” acaba por cerrar uma enorme e férrea mão nos já fragilizados pescoços de todos o que sob ela procuram ajuda.

Reconheçamos então que tudo isto aconteceu porque em primeiro e mais cativo lugar,  a mesma União Europeia que passivamente vê um crescimento de identitarismo e nacionalismo e de extrema direita (Polónia, Partido ID, Espanha), viu também o desenrolar da precariedade de condições dos refugiados e do que tinham que passar, quer às mãos do governo local, quer às mãos de movimentos nacionalistas, quer da constante falta de condições dignas que desembocaria nesta tragédia que agora vemos desenrolar com maior cobertura à nossa frente.

Resta exigir que da UE venham reais e concretas medidas, sem mais narrativas ou meras palavras para que se pareça que estão a reconhecer os problemas graves que no nosso cerne se desenrolam, resta exigir justiça para os refugiados de Moria, urgentemente, resta exigir a dignidade que lhes foi prometida quando às nossas costas chegaram, a qualidade de vida que lhes foi pintada quando aceitaram refugiar-se onde puderam, porque não se pode aceitar algo que é de condição única.
Resta exigir que a Europa acorde, de vez, para os problemas graves que a sua inércia causa.

Tiago Coxo

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