Movimento de defesa do Hospital dos Covões

No seguimento dum desmantelamento que ocorre já desde 2011 por ordem da troika, surge um movimento espontâneo de profissionais e utentes apartidários, responsável pelo grupo “Pela Saúde em Coimbra e na Região Centro. Fomos falar com os responsáveis por este movimento, Sandra Simões, Amílcar Silva e Ana Botelho, que respondem em nome do referido movimento

Podia descrever cronologicamente os eventos que levaram ao culminar nesta luta?

Tudo começou com a ordem da Troika das fusões hospitalares em 2011. Precisamente após um período de remodelação a fundo, com um investimento não desprezável, que envolveu o Serviço de Urgência, a Unidade de Intensivos Coronários, a Unidade de Intensivos Polivalentes, o Bloco operatório, Unidade de Cirurgia de Ambulatório e algumas enfermarias.   Na altura foi garantido que não haveria motivos para preocupação, que os serviços iriam manter a sua autonomia e competências. De uma forma quase subtil, o desmantelamento começava. Havia fusão de especialidades, os diretores eram maioritariamente do Hospital da Universidade e quando dávamos por ela saiam do hospital. Começou com as especialidades mais específicas, que se admite que poderiam não ter sentido existir em ambos os polos. A Neurocirurgia e as Infeciosas são exemplo disso. Admitíamos sempre que havia ordens superiores justificadas por estudos fundamentados. Depois sai a Urologia, que era um serviço de ponta, e que hoje apresenta inclusive menos produtividade do que na altura, contabilizando o trabalho dos dois serviços separados. Mais tarde começaram a sair especialidades mais básicas para o funcionamento do hospital. A Neurologia à altura ocupava um espaço novo e era um serviço muito diferenciado. Começámos a ter de enviar os doentes para os HUC cada vez que algum tinha uma complicação do foro neurológico ou gastroenterológico. A título de exemplo, um dia recebíamos a notícia “Dr. já não se pode pedir endoscopias aos doentes, têm de ir para os HUC“. O sentimento era de revolta durante uns dias mas a atividade assistencial era tanta que voltávamos ao “novo normal” e retomávamos as rotinas. Foi muita ingenuidade. Na fase pré-covid já estávamos com muitas falhas e a ter que enviar frequentemente doentes para os HUC. Com o Covid a decisão foi fácil. Covões ficam com Covid. Até parecia bem. Era um hospital destinado a doentes respiratórios no passado, com excelentes sistemas de arejamento e ventilação inclusive superior aos dos HUC, que apresenta bastantes limitações.  Os serviços perderam as suas especificidades para passarem a ser Covid.  Quando terminou “a onda” aguardávamos com ansiedade a reabertura pela pressa em retomar a atividade acumulada nesse período. Aí começam as notícias, muitas enviadas por emails frios e despersonalizados, aproveitando um momento absolutamente infeliz,  de exaustão dos profissionais, desmobilizando-os para outros serviços e informando que os seus serviços de origem iriam encerrar. Desestruturando equipes altamente diferenciadas que trabalhavam de forma oleada há anos. De um dia para o outro. Aquilo a que tínhamos assistido nestes anos de forma gradual, à saída de material e pessoas, precipitou-se nesta fase pós covid. Camas foram removidas fisicamente das enfermarias, para nem dar a chance de ocupar com um qualquer pretexto. Surge a carta do CA a informar a passagem da urgência médico-cirúrgica a urgência básica, posteriormente desmentida pela ARS que tem de justificar essa decisão, efetivamente sob a sua responsabilidade, com base em estudos e pareceres técnicos. Sem qualquer reestruturação do lado dos HUC assiste-se aos caos nas urgências e internamentos com uma acalmia angustiante do lado dos Covões. E o mais grave. Sabemos que estes números atuais, numa fase completamente atípica, em que  as pessoas acham que o hospital ainda é covid ou já nem existe, vão servir para justificar o plano superior que consiste no encerramento da urgência dos Covões e a retirada da Unidade de Cuidados Intensivos Polivalente, tornando qualquer plano futuro com alguma visão e potencial de crescimento, muito limitado em termos de viabilidade. Isto, mais uma vez, implicando obras de reestruturação profundas de redimensionamento nos HUC, numa altura em que sabemos estar prestes a entrar numa nova crise económica. Obras que já aconteceram nos Covões e que já foram pagas por todos nós. Estruturas que ficam assim subaproveitadas neste plano de futuro que sabemos ser redutor para o hospital.

Qual a importância do Hospital dos Covões numa cidade que já detém um hospital de referência como o CHUC (Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra)?

O Hospital dos Covões e o Hospital Universitário abrangem uma população superior a dois milhões de habitantes. No seu conjunto eram e são referência de muitas áreas de competência e especificidade que abrangem toda a região centro. Sempre foi necessário mantê-los, como dois hospitais, para cumprir essa missão. O não funcionamento adequado de um compromete de forma direta o funcionamento do outro, como estamos a assistir de forma tão clara nesta fase com a exaustão dos profissionais que trabalham HUC e o caos frequente em algumas situações.  E isto em pleno Verão. Não interessa a dimensão dos hospitais se não houver áreas de diferenciação e essas estão a ficar claramente comprometidas por falta de espaço, necessário para a atividade assistencial básica. Não podemos desperdiçar espaço nem equipes que já existem e estão montadas nos Covões. A pergunta tem de ser ao contrário. Qual o estudo que foi feito para justificar a não existência de dois hospitais? A não existência do hospital dos Covões? Onde estão os números que mostram que se poupou com esta decisão? O que sabemos, e é incontornável, é que a saúde em Coimbra e na região centro está muito pior que há 10 anos. Sabemos que com respeito, com criação de equipes de ambos os lados e com plano coerente e de visão, com um road-map” bem definido,  a coisa até podia ter resultado. Neste momento está completamente ultrapassada a ideia de grandes hospitais que têm tudo. Países mais ricos têm investido na criação de subunidades de diferenciação, com implosão de edifícios gigantes e mais difíceis de gerir. Nós estamos a fazer o contrário. O grande problema neste processo foi que o hospital dos Covões foi sempre visto como a solução para os problemas particulares dos HUC. Os profissionais do H. dos Covões poderiam ser usados para tapar os buracos necessários. Por fim, tem de ser referido que nesta fase particular em que estamos, percebemos que não há qualquer tipo de possibilidade de respeitar regras de distanciamento entre doentes e profissionais nos HUC e sabemos que o pior está para vir, durante o Inverno que se aproxima.

Quais as principais reivindicações da luta em questão?As principais reivindicações são: 

  1. Queremos voltar a ser hospital, com ambulatório e internamento com apoio sólido e estruturado das especialidades da fase pré-covid: cardiologia, pneumologia, nefrologia e ainda neurologia e gastrologia e ortopedia e cirurgia. Achamos que a manutenção de cuidados intensivos polivalentes é fundamental para os planos futuros nesse polo não serem redutores. Não queremos ter de selecionar “tipologias de doentes” com base no que temos ou não temos de apoio no pólo dos Covões. Doentes são doentes . E cada vez mais complexos. Mesmo os que submetidos a intervenções simples podem complicar e essa segurança tem de existir! Seja qual for o pólo. Ou porta de entrada de um mesmo hospital (CHUC ) , se quisermos ver desse prisma. A título de exemplo não precisamos de voltar a ter o internamento de Neurologia mas o apoio da especialidade no hospital tem de existir. Outras especialidades de necessitaram de justificar melhor a sua saída, como a Pneumologia, com uma taxa de ocupação superior a 100% no Inverno no hospital dos Covões. Assumir que as 20 camas que retiraram não vão ser necessárias , sem obras de redimensionamento e, pelo contrário, redução de capacidade por necessidade de espaçamento, é incompreensível.
  2. Queremos redistribuição de profissionais das diferentes especialidades. Há serviços com um número mais que suficiente e tinha lógica que essa reestruturação assistencial fosse feita de forma a que essa presença sólida nos Covões ficasse garantida. Até poderia ser de forma rotativa, assim todos teriam de trabalhar entre os dois polos para garantir esse crescimento conjunto e coeso. 
  3. Não podemos permitir a desqualificação da urgência dos Covões sem obras de reestruturação do polo HUC, obras que implicaram gastos profundos, num espaço que tem muito pouco por onde crescer. Gastos que já ocorreram na urgência dos Covões que fica assim inutilizada ou subaproveitada. Também não podemos permitir que a decisão do encerramento seja baseada em dados retirados desta fase absolutamente atípica em que vivemos. Tal seria extremamente grosseiro, abusivo e desonesto. 
  4. Os profissionais que trabalham ou trabalharam nos Covões devem estar envolvidos em planos de reestruturação e criação de competências nos polo HG, planos com visão, que até podem ser complementares ou articulados com o polo HUC, mas que não sejam redutores. As decisões são sempre tomadas por quem nunca trabalhou no hospital não entendendo o seu potencial. O que é ventilado é que os planos futuros passam por centrar a assistência em ambulatório e hospitais de dia, cirurgias e intervenções simples.  Alertamos para o perigo do conceito de “intervenção simples”, que frequentemente deixa de o ser. O simples facilmente passa a complicado, o crónico facilmente passa a agudo, particularmente em contexto de doentes cada vez mais complexos e envelhecidos. Com isto,  mantem-se a mesma fragilidade assistencial que já se vivia e o “corre corre “ do costume de ambulâncias para os HUC, com todos os gastos económicos e de recursos humanos, que isso implica. Como se existissem doentes de primeira e doentes de segunda. Sabemos que os restantes internamentos estarão com grande probabilidade destinados a cuidados paliativos, que merecem todo o nosso respeito, mas não devem ocupar camas de hospital mas unidades específicas para o efeito. 
  5. Não queremos que os projetos sejam limitados pelo que existe ou não no hospital. Porque neste momento não existe quase nada. Uma proposta como a maternidade no espaço dos Covões não pode ser questionada com base no que não existe agora e até existia.   A justificação da não decisão é sobretudo baseada, mais uma vez, na ideia da ausência das especialidades de apoio. Mais uma vez para sermos hospital, para termos projetos de visão,  temos de ter especialidades.  Pensar de forma invertida “não se faz porque não há isto ou aquilo” é perpetuar este looping negativo dos últimos anos.  
  6. Quando falamos em autonomia falamos num modelo de gestão que não comprometa no futuro o projeto do hospital. Os projetos têm de ser coesos e a longo prazo. Não queremos voltar a passar pela “agonia” “asfixia” “ameaça” do encerramento ou desqualificação.  O que parece acontecer a cada contexto de crise… Não sei se voltaremos a aguentar passar por isto.  Se é para estarmos abertos queremos ter representatividade nas decisões, até agora sempre abusivas para com o polo Covões. Já houve mais que tempo para demonstrar que o atual modelo não serve. 
  7. Queremos manter o compromisso formativo para com a escola de enfermagem, técnica, universidade e internos das diferentes especialidades no pólo Covões. Essa distribuição de formação pelos dois pólos, mais uma vez podendo englobar um plano rotativo, é absolutamente fundamental para formar mais e melhor. Neste momento a formação em muitas especialidades está de tal forma comprometida que estamos a perder capacidade de nos tornarmos apelativos para a seleção do hospital para esse fim, por parte dos melhores profissionais. E após a conclusão da especialidade parece haver mais dificuldade para o preenchimento de vagas de quadro. Isto é gravíssimo. É o espelho mais evidente da desqualificação global da Sáude em Coimbra. 
  8. Por fim, queremos que haja responsabilização por 9 anos de destruição de um hospital. Por mais que se admita a existência de planos futuros, a destruição de um hospital, só porque sim, até à data, teve consequências danosas, sem qualquer benefício, pelo menos comprovado ou justificação. Os responsáveis por estas más e confusas decisões devem ficar para sempre associados a esta péssima fase do SNS em Coimbra. 

Que estudos técnicos ou financeiros servem de justificativa ao governo para o encerramento das urgências do Hospital dos Covões?

É absolutamente desconcertante e chocante, perceber pelas palavras da própria Ministra da Saúde e responsável da ARS centro (Dra. Rosa Reis Marques) que não há, até ao momento, qualquer parecer técnico ou plano devidamente fundamentado que justifique o que aconteceu até agora. 9 anos de desmantelamento de um hospital inteiro com base em nada. 

E quando é que os profissionais de saúde, desde os médicos, passando por enfermeiros até aos auxiliares de ação médica, foram ouvidos relativamente a este desmantelamento progressivo?

Fomos tendo alguma representação pontual em alguns cargos da administração e decisão, mas claramente muito desproporcionais relativamente ao poder HUC. No início tínhamos alguns representantes do pólo Covões, mas que eram facilmente diluídos no processo. 

Quantos profissionais do Hospital dos Covões foram para o desemprego devido a toda esta situação até agora? Prevê-se que ocorram mais despedimentos a curto/médio prazo?

Não há conhecimento de despedimentos diretos relacionados com o processo, mas que há muito menos capacidade de contratação e de formação de internos, é indiscutível. Ou seja, os recursos humanos são inferiores e estão muito mal distribuídos entre os dois pólos. Com a próxima geração de profissionais médicos a reformarem-se vai haver naturalmente situações de colapso e ruptura, que vai servir para justificar, mais uma vez, a redução da assistência dos Covões. Há também mais profissionais descontentes, desmotivados e que abandonam o sistema público se forem confrontados com melhores propostas no privado. Esse risco também é real e reflete, mais uma vez, a fragilidade atual do SNS na região.

Quais as maiores dificuldades que encontraram neste processo?

As maiores dificuldades prendem-se com o ambiente fatalista que enfraquece o processo. A ideia instituída de “já não vale a pena, é um processo perdido, já devia ter sido há anos” que resultam, naturalmente, de profissionais desmotivados e saturados. Muitos não querem voltar para o hospital dos Covões porque já vêem “o vazio” como uma fatalidade. Em alguns casos, a redução de recursos humanos, principalmente relativa a especialidades que saíram há mais tempo, não permite o seu regresso. As escalas não conseguem ser asseguradas. Há também a diferença quase “cultural” na forma de trabalhar nos dois espaços que levanta guerras internas que em nada ajudam a qualquer tipo de projeto de fusão. Essas podem ser superadas com maior rotação de profissionais entre os dois pólos. Aprende-se muito neste processo e resolve algumas situações de aparente discrepância entre atividade assistencial e comparações diretas, algumas abusivas e baseadas em ignorância, que sempre existiram e sempre contribuíram para um ambiente menos construtivo entre profissionais. Por fim, há uma sensação de haver um plano superior de desqualificação da Saúde na região centro. Só assim se justifica a inércia do poder decisor central.

Que entidades políticas ou do resto da sociedade civil já manifestaram apoio à causa? 

É uma causa que parece unir de forma consensual Juntas de Freguesias, sindicatos e ordens profissionais, em particular a Ordem dos Médicos. A câmara Municipal de Coimbra tem apresentado a sua posição defensora pela manutenção do Hospital dos Covões. Foram divulgados documentos de apoio inequívocos do BE e PCP, da Concelhia de Coimbra do PS, da Assembleia Municipal de Coimbra, de várias Assembleias de Freguesia, da Comunidade Intermunicipal de Coimbra. Está uma petição pública à A.R. em fase de apresentação de relatório, e que pedia Autonomia para o Hospital dos Covões. Vai ser apresentada pelo PCP uma nova proposta de reversão do DL que criou o CHUC. Esta recomendação ao governo já foi apresentada pelo PCP em 2016, tendo sido rejeitada em 2018 com os votos contra do PS, abstenção do PSD e CDS/PP, e votos favoráveis do PCP, Verdes e BE.

Com que órgãos de poder local ou nacional já reuniram e que promessas foram feitas, se é que as houve?

Já reunimos com a ARS Centro (Dra. Rosa Reis Marques) , que assumiu inexistência de plano e ausência de responsabilidade neste processo de 9 anos, admitindo aguardar plano do novo Conselho de Administração;  com o presidente da Ordem dos Médicos do Centro, Dr. Carlos Cortes, muito apoiante do movimento pela fragilidade de assistência na região centro que as más decisões têm implicado, com o presidente da associação de Juntas de Freguesia, que declarou total apoio, com o presidente da Câmara de Coimbra, Dr. Manuel Machado e com o vice-secretário- geral do PS, Dr. José Luís Carneiro, ambos transmitindo compromisso na discussão do assunto em agenda ministerial.

Qual a importância que atribuis a uma participação massiva da população de Coimbra e arredores nesta marcha para que o sucesso da causa possa ocorrer?

É extremamente importante que a cidade e a região percebam que não lutamos pelos Covões, mas pelos HUC também, pelo direito à assistência na doença de melhor qualidade, que já a tivemos. Juntemos todas as forças políticas e as duas margens.  Lutar porque já se entendeu que desqualificando um hospital o outro não vai melhorar. Vir para a rua é lutar também contra a impunidade de quem decide mal e sem fundamento. É lutar pelos doentes da Região Centro, mas também pelos profissionais cada vez mais desmotivados e que começam a querer não ficar na cidade.  Coimbra já foi tão forte nas suas lutas e encontra-se num estado de passividade assustador nas últimas décadas. Talvez por ter perdido grande parte da sua juventude, que continua a sair por falta de opção. Voltar a trazer gente para a rua por uma causa justa que afeta as duas margens é despertar a cidade.  Para que não se dê mais um tiro no pé. Temos a convicção que desqualificando os Covões em poucos anos falaremos da desqualificação dos HUC e da cidade.

Todos os interessados em apoiar esta causa poder-se-ão deslocar à praça da canção em Coimbra amanhã, Segunda-feira 14 de Setembro,  e participar na marcha de protesto cujas informações encontrarão neste evento

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